Depois de Mulan, Pocahontas e Jasmine, o mundo dos filmes de animação voltou a apostar em histórias fora da Europa, com protagonistas não brancos e famílias fora daquilo a que chamamos convencional. A primeira a arriscar foi a Disney: Vaiana, a primeira princesa havaiana, chegou em 2016. Agora foi a vez da Pixar dar o passo em frente; e a altura não podia ser a mais certeira.

“Coco”, o novo filme da Pixar, passa-se exclusivamente no México. E não, não é na Cidade do México, uma das mais populosas do mundo. Miguel, o protagonista, vive numa pequena aldeia, rodeado de antigas tradições e costumes típicos. A famosa produtora decidiu apostar num elenco de vozes bilingue, ou seja, as vozes da versão americana vão ser exatamente as mesmas da versão dobrada em espanhol. Além disso, o filme conta com um co-realizador latino e uma equipa técnica totalmente latina.

O facto de “Coco” se passar no México não está a passar ao lado dos olhares mais atentos, que rapidamente o conotaram como uma crítica a Donald Trump e às suas políticas: o presidente dos Estados Unidos teve como umas das principais promessas eleitorais a construção de um muro que separasse o seu país do México e parece querer levar a medida avante. Mas o realizador do filme diz que tudo não passou de uma feliz coincidência. Em entrevista ao El Español, Lee Unkrich revela que “Coco” começou a ser pensado há seis anos, quando ainda ninguém imaginava Trump na sala oval.

Acho que ‘Coco’ é um passo na direção que todos devemos seguir, mas não é esse o motivo pelo qual fiz o filme, ainda que seja maravilhoso que tenhamos esta oportunidade para contar este mundo e esta cultura às pessoas que não a entendem”, disse Unkrich ao jornal espanhol.

O realizador revelou que a principal inspiração surgiu do próprio dia em que se passa o filme: o enredo gira à volta do rebelde Miguel, que sonha ser guitarrista e decide contrariar a tradição da família de proibir qualquer música no dia dos Fiéis Defuntos día de los muertos, no México. “Quando propomos um filme às vezes ainda não sabemos que temas vai tratar, como neste caso, em que só tinha uma ideia de fazer alguma coisa no día de los muertos. Não sabíamos nada, nem a história nem as personagens”, contou Lee Unkrich.

Unkrich, que também realizou “Toy Story 3”, acabou por se embrenhar na cultura mexicana e decidiu contar uma história que revelasse as nuances mais bonitas da tradição familiar naquele país. Quando questionado sobre se Miguel vai influenciar poucas crianças, por ser um protagonista tão específico, o realizador não tem dúvidas: “o filme fala de todos os miúdos que têm uma paixão e que querem ser algo que não os deixam ser”.

“Coco” estreou no México antes de chegar às salas de cinema do resto do mundo e tornou-se rapidamente no filme mais visto no país. Estreia em Portugal esta quinta-feira.

https://www.youtube.com/watch?v=vntUx4_6fv4