A quinta sessão do julgamento ocorreu esta terça-feira e, até ao momento, não se sabe quando Pedro Dias irá falar. À semelhança do que aconteceu nas outras sessões, o arguido entrou na sala do Tribunal Judicial da Comarca de Guarda em silêncio e algemado. Pouco antes do primeiro testemunho, deram-lhe folhas brancas e passou a sessão a tomar notas, tal como aconteceu nos dias anteriores. Durante a tarde, entrou já com as folhas brancas na mão e com uma garrafa de água.

Esta terça-feira estavam previstas serem ouvidas 11 testemunhas, mas apenas sete pessoas prestaram declarações — as restantes testemunhas foram dispensadas. Das pessoas ouvidas destacam-se a perita forense responsável pelas autópsias ao casal baleado em Aguiar da Beira; a psicóloga que acompanha o militar da GNR, António Ferreira, alegadamente baleado por Pedro Dias, e que seguiu Catherine Azevedo, a namorada do GNR morto; e ainda as irmãs de Lídia da Conceição, a mulher que foi sequestrada em Moldes (concelho de Arouca) alegadamente por Pedro Dias e que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) cerca de um mês e meio depois do incidente.

“Esta pistola já matou quatro pessoas e tu poderás ser a próxima”

A primeira testemunha a ser ouvida foi Dulce da Conceição, irmã de Lídia da Conceição que está impossibilitada de falar devido ao AVC. Dulce afirmou que “acompanhou” a irmã desde o dia do sequestro, no dia 16 de outubro de 2016, até ao dia em que teve o AVC, a 29 de novembro do mesmo ano. Uma vez que a mulher sequestrada não está em condições de prestar declarações, Dulce relatou o que a irmã viveu durante o sequestro.

A defesa pediu para que este depoimento fosse rejeitado, uma vez que se tratava de um “testemunho de ouvir dizer”, mas o coletivo de juízes decidiu ouvir Dulce da Conceição e só mais tarde decidir se o testemunho será tido em conta.

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Dulce da Conceição explicou que esteve com a irmã na véspera do sequestro e que Lídia lhe disse que iria, no dia seguinte, à casa em Moldes para “arejar a casa” e buscar “a correspondência” — a mãe de Dulce e Lídia é arrendatária do imóvel. No dia 16 de outubro, pelas 16h, recebeu uma chamada da irmã, que lhe disse que estava “gravemente ferida”. “Aquele homem de Arouca, que estava a ser procurado pela polícia, estava em casa da mãezinha“, terá dito Lídia, pedindo para que Dulce fosse ter com ela à unidade de saúde de Arouca.

Lídia estava “praticamente irreconhecível”, descreveu Dulce da Conceição. “Entrei e vi a minha irmã num estado que ninguém deseja ver. Estava praticamente com o rosto desfeito”, afirmou Dulce, acrescentando que tinha o rosto “cheio de sangue”, a “cara desfigurada”, “cheia de hematomas”, com as mãos feridas e com “pontos”, e ainda com “dedos marcados no pescoço”.

Lídia, que vivia com a mãe no Porto, contou à irmã que assim que entrou na casa de Moldes, apareceu “um vulto” à sua frente, que a agarrou “pelo pescoço e pelos cabelos” e que a arrastou para um quarto. De acordo com Dulce, a irmã foi “brutalmente agredida” pelo homem de Arouca que lhe colocou várias questões: “O que vens fazer aqui? Tu nunca devias ter vindo aqui. Eu só precisava de três ou quatro dias para estar aqui“, terá dito Pedro Dias, acrescentando que conhecia “muito bem” a sua mãe.

Lídia explicou que lá tinha ido para “tratar dos animais” da mãe e que tinha “todo o direito” em lá estar porque a casa lhe pertencia. A mulher relatou à irmã que Pedro Dias a “agrediu várias vezes”, que lhe bateu com a cabeça várias vezes no chão e na parede e “apertou-lhe o pescoço” para que ela não gritasse. Apesar disso, conseguiu gritar, alertando António Duarte que, ao tentar socorrê-la, acabou também por ser sequestrado — Lídia terá estado entre cinco a dez minutos sozinha com Pedro Dias, referiu Dulce da Conceição.

O arguido terá apontado, por diversas vezes, a arma a Lídia “contra a cabeça e contra o peito”, tendo colocado uma almofada entre a arma e o peito da mulher. Segundo Dulce, a irmã sabia “perfeitamente” que quem a estava a agredir era “o homem procurado pela polícia”. Aliás, o próprio inspetor da PJ responsável pela investigação do caso — ouvido em tribunal no dia 9 de novembro — afirmou que não havia dúvidas de que Pedro Dias tinha estado naquela casa em Moldes, acrescentando que Lídia da Conceição identificou “claramente” o homem de Arouca.

Mulher sequestrada em Moldes identificou claramente Pedro Dias, diz inspetor da PJ

Pedro Dias terá ainda dito a Lídia: “Esta pistola que tenho aqui já matou quatro pessoas e tu podes ser a próxima.” “Se eu não te matar, eu vou-me arrepender”, relatou ainda Dulce sobre o que o arguido disse à irmã.

Segundo Dulce, a irmã referiu-lhe que o arguido pediu a António Duarte — que foi ouvido em tribunal no passado dia 7 de novembro — para lhe amarrar as mãos e, posteriormente, Pedro Dias amarrou-lhe os pés e vendou-a. Pedro Dias colocou-lhe ainda uma batata na boca, que Lídia “tentou trincar o mais possível para não morrer asfixiada“. Tanto que, de acordo com Dulce, ficou com “os cantos da boca em ferida”.

Lídia, que descreveu Pedro Dias como “uma pessoa bem falante”, terá ainda dito à irmã que viu “a morte várias vezes à frente”. De acordo com Dulce, o arguido levou 60 euros que Lídia tinha consigo e ainda “três ou quatro rissóis”. “Eu sei aquilo que estou a dizer“, afirmou, num tom exaltado, no seguimento das perguntas da advogada de Pedro Dias, Mónica Quintela.

“Nunca vi ninguém com tanta frieza e tanta falta de humanidade. A bater-me parecia um louco, nunca vi ninguém assim”, referiu alegadamente Lídia a Dulce sobre Pedro Dias. Dulce descreveu a irmã como uma pessoa “com uma filosofia de vida muito própria”, “muito humana” e que “vivia muito para a família”.

Após o sequestro, Lídia foi viver para a casa de uma outra irmã, Maria de Fátima da Conceição. Ouvida em tribunal na tarde desta terça-feira, Maria de Fátima contou que Lídia foi para sua casa logo na noite do sequestro, depois de ter tido alta da unidade de saúde de Arouca. “A minha irmã Lídia esteve 12 dias em minha casa”, acrescentou. “Eu só queria que ela descansasse e esquecesse“, disse ainda, visivelmente emocionada.

Só no dia seguinte, dia 17 de outubro, é que falaram do que aconteceu na casa em Moldes. Maria de Fátima fez um relato semelhante ao de Dulce, relativamente ao que aconteceu quando Lídia entrou na casa de Moldes e às alegadas agressões do arguido. “Eu tinha de lutar porque eu não ia deixar a minha família“, terá dito Lídia à irmã Maria de Fátima.

De acordo com Maria de Fátima, Lídia achou, por momentos, quando lutou com Pedro Dias, que não iria sobreviver. Lídia descreveu o homem que a atacou como um “senhor alto” — “não era nada o que estava na televisão” –, “de barbas”, “cabelo grisalho”, “de calças de ganga, um casaco branco e o boné” que pertencia à arrendatária da casa, com “uma arma à cinta” e “uma raiva tremenda”, acrescentando “que teve de lutar para viver”. “Várias vezes me apontou a arma ao peito com uma almofada”, terá dito Lídia a Maria de Fátima, referindo que Pedro Dias ameaçou matá-la.

Relativamente aos ferimentos de Lídia, Maria de Fátima disse que a irmã chegou a sua casa com a “cabeça toda cosida”, com cortes nos pulsos e nas mãos, com marcas de dedos no pescoço e, nas pernas, as “marcas das fitas” que o arguido alegadamente utilizou para a amarrar. Quando lhe deu banho, acrescentou Maria de Fátima, Lídia tinha uma “grande crosta de sangue” na cabeça.

A mulher sequestrada terá também relatado à irmã que Pedro Dias a deixou amarrada a António Duarte “pelas costas”, que lhe colocou uma “batata na boca” e “uma coisa na cabeça”, fazendo com que ela deixasse de ver. Ficou na casa cerca de duas horas até se conseguir libertar.

No seu depoimento, Dulce da Conceição relatou que, após o incidente, Lídia ficou muito afetada psicologicamente, acrescentando que andava com “uma ansiedade muito grande”, “não dormia” e passava as noites “a olhar para as mãos”. Maria de Fátima, que a descreveu como “uma guerreira”, acrescentou ainda que a irmã “não comia” e já estava medicada. “Ela tinha medo de andar na rua. Só andava pelas ruas em que tinha confiança.” De acordo com as irmãs, Lídia descrevia as dores que sentia “como se a carne estivesse despegada dos ossos”.

Dulce garantiu ainda que a irmã sempre foi uma pessoa “saudável”. “Vendia saúde”, acrescentou Maria de Fátima. De acordo com Dulce, o médico de família referiu que o AVC se deveu a uma “situação de stress despoletada pelo incidente”.

Também a proprietária da ourivesaria onde Lídia trabalhou durante 23 anos ressalvou a saúde da sua funcionária. “Nunca apresentou nada de saúde que fosse de risco, ou teve algum problema. Nunca foi pessoa de se queixar de nada”, afirmou Maria Meirinho, no seu depoimento esta tarde, acrescentando que Lídia identificou Pedro Dias como o homem que a atacou.

Maria Meirinho descreveu Lídia como uma pessoa “simpática”, de quem toda a gente gosta, em quem confiava e que “tinha sempre uma boa disposição”. “Era uma pessoa muito querida na zona.” A proprietária da ourivesaria disse ter notado uma mudança, a nível psicológico, na funcionária após o incidente: “Tinha muita necessidade de falar do caso, isso aliviava-a“, contou Maria Meirinho ao tribunal. “Notava que a parte psicológica estava muito afetada.”

Lídia da Conceição permanece internada, na sequência do AVC, toma 20 comprimidos por dia e praticamente não fala, explicou a irmã Dulce. “A nível da fala, quando pergunto o nome, ela diz ‘olá’, não diz o nome”. Dulce da Conceição adiantou ainda que a irmã identificou o arguido nos dias após o sequestro, quando a fotografia de Pedro Dias aparecia na televisão. “Lá está ele”, terá dito Lídia.

Estava previsto, durante o julgamento, ser lido o depoimento prestado por Lídia da Conceição ao Ministério Público, logo após o sequestro. A defesa de Pedro Dias, contudo, opôs-se à leitura.

Ferimentos na cabeça de Liliane foram fatais

A perita forense Beatriz da Silva foi a segunda pessoa a ser ouvida na sessão. Foi a médica legista quem fez as autópsias de Liliane e Luís Pinto, o casal baleado alegadamente por Pedro Dias em Aguiar da Beira, e quem fez a avaliação do militar da GNR António Ferreira, que terá sido atingido a tiro pelo arguido.

Relativamente à autópsia de Liliane Pinto, a perita referiu não ter dúvidas de que as lesões que sofreu na cabeça, no dia 11 de outubro de 2016, acabaram por levar à sua morte, no dia 12 de abril de 2017. Liliane foi atingida na parte superior do crânio de forma “tangencial”, mas “acentuada”, sendo que houve ainda um projétil que atravessou a região cervical “de um lado ao outro”. A perita referiu que, quando foi atingida na cabeça, a vítima estaria “estática” e numa “posição ereta”. Beatriz da Silva adiantou ainda que esta lesão terá deixado Liliane “inconsciente”, “caída no chão” e sem se conseguir mexer ou falar.

No caso de Luís Pinto, marido de Liliane, a perita fez referência a um disparo a curta distância, feito a cerca de 30 a 40 centímetros de distância da face da vítima. Questionada por Mónica Quintela, advogada de Pedro Dias, Beatriz da Silva não descartou a possibilidade de a bala que atingiu Luís na cara ter atingido Liliane na zona cervical, mas para isso era preciso que estivessem “nas posições perfeitas”.

Apesar de não ter feito a autópsia ao militar da GNR Carlos Caetano, também alegadamente assassinado por Pedro Dias, a médica legista descreveu as lesões que constam no relatório da autópsia, referindo que os ferimentos levaram à sua morte em “segundos”. “Foi muito rápido, tanto num caso como no outro“, afirmou Beatriz da Silva, referindo-se a Luís Pinto e Carlos Caetano.

Militar da GNR “frustrado” por não ter conseguido salvar o colega

Andreia de Campos, a psicóloga que segue António Ferreira, o militar da GNR alegadamente baleado por Pedro Dias, também prestou declarações durante a tarde desta terça-feira. A psicóloga explicou que o conheceu já depois do incidente, mas que o militar inicialmente não queria falar do que tinha acontecido. “Estava super nervoso, super ansioso e com raiva“, descreveu a especialista. Quando fala do assunto, António Ferreira diz à psicóloga que tinha a certeza que iria morrer naquela noite.

“Ele disse que se lembrava de tudo o que se tinha passado. Que era desumano o que [Pedro Dias] lhe tinha dito”, referiu a especialista, acrescentando que António Ferreira toma medicação para a depressão e para a ansiedade e que só assim consegue dormir. De acordo com a psicóloga, o militar da GNR “tem fobia social”, referindo que apenas vai à fisioterapia e que pouco convive com os colegas da GNR.

António Ferreira vive permanentemente com medo: tem sempre a porta e as janelas de casa fechadas, descreveu a psicóloga. “Ele diz que todos os dias revê aquele pesadelo“, afirmou Andreia de Campos, adiantando que o paciente lhe disse que consegue, mentalmente, “fazer todo o trajeto daquilo que passou”. “Ele sente-se frustrado por não ter conseguido salvar o colega.”

Andreia de Campos explicou ainda que o militar tem permanentemente dores no corpo, levantando-se várias vezes durante as consultas. A psicóloga disse estar a tentar fazer com que o militar da GNR tente “viver a vida de outra maneira”. “‘Eu sinto-me inútil para a sociedade.’ Ele diz-me isso várias vezes“, afirmou Andreia de Campos.

“Eu não consigo viver sem ele. A vida não faz sentido para mim”

Andreia de Campos também acompanhou Catherine Azevedo, a namorada do militar da GNR, Carlos Caetano, que terá sido morto por Pedro Dias. A especialista conheceu-a depois da morte de Carlos Caetano, muito debilitada a nível psicológico. “Ela queria morrer também, não queria voltar para casa”, afirmou Andreia de Campos, acrescentando que procurou contrariar estes pensamentos. Atualmente, Catherine voltou a viver na casa que partilhava com Carlos Caetano, mas tem “bons e maus momentos”.

De acordo com a psicóloga — que hoje em dia já não acompanha a namorada de Carlos Caetano, mantendo apenas contacto telefónico –, Catherine está “sempre triste”. “Eu não consigo viver sem ele. A vida não faz sentido para mim“, terá dito a namorada de Carlos Caetano a Andreia de Campos.

Durante a tarde foram ainda ouvidos dois amigos de Catherine Azevedo. Ana Catarina Ribeiro, vizinha e amiga de infância do casal, contou que Carlos Caetano vivia com Catherine desde 2014. “Eu tenho a certeza que ele vivia lá”, argumentou Ana Catarina Ribeiro.

A relação de Carlos Caetano e Catherine Azevedo, de acordo com Ana Catarina Ribeiro, começou em 2013, pouco depois da separação de Catherine do ex-marido — com quem tem um filho de sete anos. Também João Carlos Marques, militar da GNR em Seia e amigo de Carlos Caetano desde 2010, reforçou a ideia de que a relação começou em 2013, garantindo que o amigo tinha as suas coisas na casa onde vivia com a namorada. “Ele disse-me que morava lá.”

Na altura da morte do militar da GNR, o casal tinha feito um “empréstimo” para reconstruirem uma casa, disse Ana Catarina Ribeiro. Tanto Ana Catarina como João Carlos referiram que Catherine ficou debilitada depois da morte do namorado. “Como é que há-de ficar depois de perder alguém tão próximo? A alegria foi-se“, afirmou o militar da GNR.

De acordo com João Carlos Marques, os pais de Carlos Caetano faziam-lhe “a vida negra” porque se opunham à relação, por Catherine ser divorciada e ter um filho. “Ele disse-me que estava a ponderar pedir transferência [do posto] de Aguiar da Beira para se afastar dos pais.”

GNR alegadamente baleado por Pedro Dias já foi ouvido

No primeiro dia do julgamento, que teve início no dia 3 de novembro, foi ouvido o militar da GNR, António Ferreira, alegadamente baleado pelo arguido.

“És burro? Não vês que ele está morto?”, disse Pedro Dias ao militar da GNR que sobreviveu

Nas restantes sessões, nos passados dias 7, 8 e 9, foram ouvidas dezenas de testemunhas, entre as quais as mães do casal baleado em Aguiar da Beira, Liliane e Luís Pinto, alegadamente assassinados pelo arguido; António Duarte, o homem que terá sido sequestrado por Pedro Dias em Moldes; a ex-namorada do arguido, Ana Cristina Laurentino; e ainda o militar Carlos Santos, que abriu a porta ao colega António Ferreira depois de este ter sido baleado.

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O julgamento deveria ter prosseguido na semana passada, mas só foi retomado esta terça-feira.

Pedro Dias está acusado de cinco crimes de homicídio (três consumados e dois tentados), três sequestros, dois roubos e três detenções de arma proibida.

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