É um prémio de Direitos Humanos, mas também um ato político. O Parlamento Europeu entregou, na manhã desta quarta-feira, o prémio Sakharov a membros da oposição democrática da Venezuela para aumentar a pressão sobre o regime de Nicólas Maduro. O presidente do Parlamento Europeu não escondeu, na apresentação do prémio, que o objetivo é pressionar o regime de Maduro para que “sejam libertados os presos políticos da Venezuela, que foram presos sem julgamento e sem justificação“. Antonio Tajani exige ainda que no próximo ano existam “eleições [presidenciais] livres, com a participação de todos.” Os eurodeputados do PCP e do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu estiveram ausentes da sala por discordarem da atribuição do prémio.

O prémio — que tem associado um valor de 50 mil euros — dirige-se à Assembleia Nacional venezuelana (presidida por Julio Borges) e aos prisioneiros políticos com rosto: Leopoldo López, Daniel Ceballios, Yon Goicoechea, Lorent Saleh, Alfredo Ramos, Andrea González e Antonio Ledezma — que concedeu uma entrevista em Estrasburgo ao Observador.

O presidente do Parlamento Europeu transmitiu na entrega do prémio que a União Europeia se oferece, desde já, para fazer parte de “uma missão de observação eleitoral, com outros representantes internacionais para garantir que essas eleições serão justas“. Denunciou ainda como Maduro pretende “de forma antidemocrática proibir as forças políticas da oposição de fazerem comícios”, bem como as proibir de participar nas presidenciais do próximo ano, dando como argumento o facto de não terem participado nas últimas autárquicas.

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, um dos maiores opositores de Maduro, começou por confessar que era difícil falar tendo “a boca tão perto do coração”. Julio Borges lembrou que existe “muito ódio” na Venezuela e que o desafio é não ceder a esse ódio, lutando pela democracia. “Não deixaremos de lutar até termos uma Venezuela livre e de todos os venezuelanos”, prometeu Borges. O presidente da Assembleia lembrou as centenas de mortos na sequência da “opressão do regime” e denunciou que no país há “crianças a morrer, ou à fome ou por falta de medicamentos para cuidados de saúde.”

O preso político e antigo autarca de Caracas, Antonio Ledezman, também quis deixar no Parlamento Europeu a “homenagem às crianças que morrem de fome”, apesar da Venezuela ser “um país muito rico.” Ledezman acusou também o Governo de Maduro de estar a “governar através das armas”, mas garante que não quer “vingança” nem vai “guardar rancores”, quer apenas “a Venezuela recupere a sua liberdade”. O opositor ao regime considera que a “Venezuela está na mão de criminosos.”

Esquerda portuguesa fora da sala

Os eurodeputados do PCP (João Ferreira, João Pimenta Lopes e Miguel Viegas e Bloco de Esquerda (Marisa Matias) fizeram parte dos deputados que não marcaram presença na entrega do prémio Sakharov por discordarem da atribuição. A bloquista Marisa Matias até não chegaria a tempo, porque teve uma avaria no comboio, mas mesmo que chegasse não estaria na sessão, já que, embora não seja a favor do regime de Maduro, não concorda com a escolha.

Já o PCP assume-se mesmo como defensor do regime de Nicólas Maduro. O eurodeputado João Pimenta Lopes, já fora do hemiciclo, explica que considera que o prémio Sakharov uma “forma de instrumentalização política e de ingerência sobre assuntos de países soberanos”, que, neste caso, é “por demais flagrante”.

O deputado comunista acusa o Parlamento Europeu de fazer uma “promoção direta e apelo à violência” ao premiar “um conjunto de figuras de uma suposta oposiçãoa, que integra aquilo que são os sectores mais reacionários e violentos dessa dita oposição”. E acrescenta: “Muitos deles estiveram implicados em altercações na rua.”

João Pimenta Lopes considera a atribuição do prémio uma “encenação” que promove a “ação sobre um país soberano que nada salvaguarda os interesses dos mais de 400 mil portugueses que residem na Venezuela e que, naturalmente, se veem hoje a braços com uma situação de crescente instabilidade social, económica, que resulta em muito desta pressão externa”.

O eurodeputado comunista culpa a oposição pelas mortes na Venezuela. “Nem a comunicação social main stream consegue ocultar aquilo que é a violência das manifestações promovidas pela oposição venezuelana. Isso é bastante explícito. Pessoas queimadas vivas, ataques a escolas e centros clínicos queimados”, descreve o eurodeputado. João Pimenta Lopes dá ainda exmplos de “extrema violência” promovida por esta oposição, dando como exemplo “um ataque com um helicóptero, um bombardeamento ao Tribunal Supremo”.

Maduro é um “Presidente fraco”

Já durante a manhã, numa ronda de perguntas com os jornalistas, Julio Borges tinha revelado que, neste momento “não há condições para uma eleição presidencial justa.” Borges diz ainda que Maduro “não é um Presidente forte” e que é por estar “tão fraco que só usa é a força bruta e recorre ao medo, como demonstra ao proibir as forças partidárias que não se apresentaram às autárquicas de serem candidatos às presidenciais”.

Os vencedores do prémio não estarão em sintonia quanto à forma como o vão aplicar. Julio Borges pretende canalizar o dinheiro para criar um fórum de debate pela democracia na Venezuela, enquanto Antonio Ledezman defende que o dinheiro deve ser entregue às famílias dos prisioneiros de guerra, que enfrentam dificuldades de sobrevivência.

O jornalista do Observador viajou a convite do Parlamento Europeu