Dia 2 de junho de 1953. Há 65 anos Isabel II foi coroada rainha de Inglaterra na Abadia de Westminster, em Londres. Uma coroação que demorou um ano a ser preparada e à qual assistiram milhares de pessoas em todo o mundo. “The Coronation” é o título do documentário que revela pela primeira vez detalhes pormenorizados da cerimónia histórica. Não quer isto dizer que o controlo apertado a qualquer tipo de informação sobre a família real tenha diminuído, apenas significa que desta vez Isabel II aceitou falar — a mesma regente que acreditava que as câmaras de televisão podiam quebrar a mística da monarquia.

O documentário de quatro horas, produzido pela BBC, foi exibido este domingo no Reino Unido e nos EUA, e revela confissões feitas pela rainha, numa entrevista conduzida por Alastair Bruce, jornalista especializado em assuntos da realeza. Isabel II recupera memórias e também pormenores sobre alguns objetos que fizeram parte de um dia histórico.

[o trailer de “The Coronation”]

“The Coronation” ainda não passou na televisão portuguesa mas já são conhecidas algumas das revelações feitas pelo documentário. Estas são algumas das mais surpreendentes:

A história da coroa

Entre os “protagonistas” do documentário está a coroa de St. Edward, que durante a Guerra Civil Inglesa (entre os anos de 1642 e 1649) foi destruída. A “versão” atual da coroa foi usada pela primeira vez na coroação do rei George VI, pai da rainha de Inglaterra, em 1937. Isabel II usou a coroa apenas numa ocasião, precisamente no momento da coroação.

Esta é, provavelmente, a mais valiosa das joias da monarquia inglesa e está reservada apenas para ocasiões especiais. Tem mais de 2600 diamantes, 17 safiras, 11 esmeraldas, cinco rubis e 269 pérolas, além de ouro, prata e veludo. Pesa perto de um quilo e seiscentos gramas, um peso que impede a rainha de baixar a cabeça para ler os discursos. “Tem de ser o papel a vir até ao nível dos nossos olhos”, confessa em “The Coronation”.

Coroação da rainha Isabel II de Inglaterra, em 1953.

Uma coroa na qual só tocam três pessoas no mundo

É “grande e pesada de mais”, mas a coroa foi adaptada à cabeça da rainha. “Vê? É muito mais pequena, não é?”, refere Isabel II no documentário. “Felizmente, o meu pai tinha o mesmo tipo e tamanho de cabeça que eu. Mas com a adaptação, ela não cai, simplesmente fica segura”, acrescentou.

O produtor do documentário, Anthony Geffen, revela ao jornal The New York Times que se sentiu surpreendido com a tranquilidade da rainha durante as gravações do documentário, especialmente quando tocou numa das joias que tinham sido retiradas da Torre de Londres. Dita a tradição monárquica que apenas três pessoas no mundo — a rainha, o arcebispo de Cantuária e o joalheiro — podem tocar nas joias da coroa.

Damas de Honor eram “uma espécie de Spice Girls”

Também as Damas de Honor da rainha aparecem em “The Coronation”. O processo de seleção foi explicado por uma das damas, Lady Glenconner. “Tínhamos de ser filhas de condes, de marqueses ou duques, e tínhamos de ter boa figura”, referiu. “Éramos uma espécie de Spice Girls, estávamos em todos os jornais”, admite.

Os vestidos para as damas de honor foram feitos pela mesma pessoa que fez as roupas da rainha e já tinha feito também o vestido de casamento de Isabel II, o designer Norman Hartnell, refere a publicação Vanity Fair.

A carruagem não é confortável

Em “The Coronation” ficamos a saber que a rainha não gostou de andar na carruagem no dia em que foi coroada. Na verdade, Isabel II descreve a viagem como “horrível”, apesar do trajeto curto, entre o Palácio de Buckingham e a abadia de Westminster, local onde é sempre celebrada a coroação.

“Não é muito confortável. Definitivamente não é boa para viajar, além de que os cavalos não aguentariam viagens maiores do que aquela que fiz, devido ao peso da carruagem”, acrescentou a rainha.

Algumas joias da coroa estiveram escondidas

As joias da coroa são muitas vezes mantidas sob a vigia dos guardas da Torre de Londres, onde estão guardadas. Mas algumas pedras preciosas da coleção foram escondidas numa lata de biscoitos, no castelo de Windsor (uma das residências reais) durante a Segunda Guerra Mundial.

A preparação exaustiva do pai, George VI

A preparação para a cerimónia de coroação começou quando a futura rainha era ainda uma criança. Aos 11 anos, o pai, o rei George VI, estava tão determinado em preparar a filha para ser rainha que a obrigou a escrever uma revisão da sua própria coroação, que aconteceu em 1937.

No documentário, a rainha sublinha que no seu entender a coroação do pai foi um momento “absolutamente maravilhoso”:

O peso das vestes reais

As roupas que a rainha usou quando foi coroada eram tão pesadas que ficaram presas nos tapetes que cobriam a zonas da abadia sobre as quais Isabel II desfilou. “Não me conseguia mexer, de maneira nenhuma”, confessa no documentário.

As vestes da rainha incluíam diamantes, cristais e pérolas e foram necessárias quase 3000 horas (perto de quatro meses) para as concluir.

Aquela vez complicada com Churchill

A rainha preparou durante meses a cerimónia de coroação. Inicialmente indecisa sobre se seria ou não transmitida na televisão — uma ideia que contava com a forte oposição do então primeiro-ministro, Winston Churchill — Isabel II acabou por autorizar. A coroação representou, na altura, a maior e mais complexa transmissão da televisão inglesa. Olhando para trás, a rainha diz que “foi o início da vida, enquanto soberana”.

“The Coronation” faz parte de uma parceria entre a BBC e a Royal Collection, “The Royal Collection Season”, que inclui uma série de programas que serão transmitidos tanto na televisão como na rádio durante os meses de janeiro e fevereiro de 2018.