Chelsea Manning, a ex-militar norte-americana que cumpriu uma pena de sete anos de prisão por partilhar com a Wikileaks informação comprometedora para a atuação do exército dos EUA no Afeganistão e no Iraque, quer ser a próxima senadora democrata pelo estado do Maryland.

A intenção de avançar foi confirmada pela página de Twitter de Chelsea Manning, que publicou um vídeo com o comentário “yup, vamos candidatar-nos ao Senado”.

No vídeo, enquanto aparecem imagens de confrontos entre civis e polícias, manifestações da extrema-direita e uma reunião de Donald Trump com os líderes do Partido Democrata e do Partido Republicano na Sala Oval, pode ainda ouvir-se um texto lido por Chelsea Manning.

“Vivemos em tempos desafiantes, de medo, de supressão, de ódio. Não precisamos de mais líderes nem de melhores líderes, precisamos de alguém que lute. Temos de deixar de pedir-lhes os nossos direitos. Eles não nos vão ajudar, eles não se vão comprometer”, diz Chelsea Manning em voz off. “Temos de lhes tirar as rédeas do poder das mãos.”

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A candidatura foi formalizada depois de Chelsea Manning ter entregue a necessária documentação para concorrer ao cargo de senadora pelo estado do Maryland, na Costa Este. No registo de candidatura, a ex-militar indicou que deseja concorrer nas listas do Partido Democrata nas eleições intercalares, agendadas para 8 de novembro deste ano. Mas, para chegar a candidata ao Senado, terá primeiro de vencer as eleições primárias do Partido Democrata no Maryland, que vão acontecer a 26 de junho.

Neste momento, além de Chelsea Manning, há quatro candidatos às primárias democratas do Maryland. Um deles é Ben Cardin, senador do Maryland desde 2007 e em busca do terceiro mandato.

Esta é a primeira vez que Chelsea Manning concorre a um cargo público, mas o seu nome já é sobejamente conhecido pelo público norte-americano. Em 2010, quando ainda era do sexo masculino e se chamava Bradley Manning, a ex-militar foi condenada a uma pena de prisão de 35 anos por ter transferido para a Wikileaks, de Julian Assange, cerca de 750 mil documentos que continham informação secreta sobre a atuação militar dos EUA no Médio Oriente.

Entre esses documentos, estava o vídeo “Collateral Murder” (Homicídio Colateral, em português), que incluía imagens de ataques aéreos do exército dos EUA que resultaram na morte de civis e também jornalistas.

No dia em que deu entrada na prisão, o ex-militar Bradley Manning anunciou que pretendia mudar de sexo, passando então a ser mulher e a chamar-se Chelsea. Cumpriu uma pena de prisão de sete anos, no final dos quais foi beneficiada por um perdão presidencial de Barack Obama. O perdão foi emitido a 17 de janeiro de 2017 — apenas a três dias de Donald Trump ter tomado posse — e resultou numa redução da pena de Chelsea Manning, que foi libertada a 17 de maio de 2017.

Desde então, a ex-militar tem participado em várias palestras e tem-se dedicado à defesa da causa LGBT. Em agosto, posou em fato de banho para a revista Vogue. Além disso, tem sido uma voz crítica de Donald Trump, que já a chamou de “traidora ingrata” e que se referiu à ex-militar como “ele”, apesar da sua mudança de sexo.

Chelsea Manning, antiga militar transexual, de fato de banho para a revista Vogue