Estados Unidos da América

Número de vítimas de Larry Lassar não para de aumentar. Polícia pede desculpa por ter ignorado queixas

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O número de vítimas do ex-médico da seleção de ginástica dos EUA não para de subir. São já 265 as raparigas que relatam abusos. Polícia do Michigan pediu desculpa a vítima por ter ignorado queixa.

JEFF KOWALSKY/AFP/Getty Images

Foi condenado a 175 anos de prisão por ter abusado sexualmente de mais de 150 jovens atletas que estavam ao seu cuidado quando era médico da seleção de ginástica dos EUA. Antes, já tinha sido condenado a 60 anos de prisão por posse de pornografia infantil. Mas o rol de queixas contra Larry Nassar não para de aumentar. Esta semana houve nova audiência ao ex-médico, estando previstos 60 novos depoimentos de mulheres que foram abusadas quando eram jovens adolescentes, naquela que será já a terceira sentença. A juíza Janice Cunningham fez a conta no início da audiência: 265 vítimas, para já.

A dimensão do caso é tal que, esta quinta-feira, o chefe da polícia do Michigan convocou a comunicação social para fazer um pedido de desculpas público a uma das vítimas de Nassar. Brianne Randall-Gay tinha 17 anos quando fez queixa à polícia de que o médico da ginástica a tinha molestado com a mão, sem luvas, quando foi ao seu gabinete por causa de dores nas costas, suspeitando de escoliose. As autoridades, no entanto, deram o caso como encerrado depois de o médico ter feito uma defesa agressiva dos seus atos, dizendo que se tinha limitado a usar uma técnica médica legítima de aplicar pressão no períneo — usando o termo técnico que designa a área entre as pernas. Chegou a apresentar vários jornais médicos e powerpoints para justificar a intervenção.

“Devíamos ter passado o caso a outro especialista e não passamos”, admitiu o chefe da polícia Dave Hall em conferência de imprensa, dizendo que foi aí que a investigação entrou em “queda”. “Ele enganou-nos”, acrescentou ainda.

A queixa tinha sido feita em 2004, e agora, 14 anos depois, a jovem, atualmente com 31 anos, diz que o pedido de desculpas da polícia “alivia” a dor, mas não “elimina” o que sofreu naquela altura. Brianne assistiu e participou na conferência de imprensa a partir de Washington, através de uma vídeo-chamada. “Senti-me completamente ignorada”, disse. Depois de 2004, Larry Nassar abusou de muito mais raparigas na mesma situação e com a mesma desculpa de estar a usar técnicas médicas. As queixas das centenas de mulheres remontam, em alguns casos, à década de 90.

O caso de Brianne é idêntico ao de Amanda Thomashow que, segundo reporta agora a CNN, também apresentou queixa em 2014 e nada aconteceu. A queixa foi feita à própria Universidade do Michigan, que concluiu, depois de um relato detalhado feito pela jovem, que os métodos usados pelo médico eram apropriados, não eram de natureza sexual, e “não violavam a política contra abusos sexuais” da faculdade.

Antes de ir à polícia, Amanda optou por apresentar queixa junto do departamento de Inclusão da universidade. Segundo se lê no relatório, duas semanas depois recebeu uma chamada da assistente do diretor do departamento de Património Institucional da universidade. Foi essa conversa que motivou a abertura da investigação interna intitulada “Title IX”. Mas a investigação teve o mesmo fim que todas as outras: Nasser explicou o procedimento “médico” e justificou que “obviamente falhou em explicar à paciente o que estava a fazer”, admitindo que iria “mudar” essa questão. Quando a escola chamou Amanda para lhe dar conta dos resultados da investigação, a jovem “não queria acreditar”.

“Não queria acreditar que não me tinham levado a sério, depois daquilo tudo”, disse à CNN, acrescentando que depois ainda recebeu um email com o relatório de três médico, todos membros da Universidade do Michigan, a apontar para a “conduta médica apropriada” de Nassar.

A dúvida que se coloca em toda a investigação é até que ponto é que os membros da administração da escola sabiam do que se estava a passar e até que ponto podiam ter evitado a escalada dos abusos. “A investigação fez-me sentir tão pequena, tão envergonhada, sentia-me humilhada só de falar nisso”, diz agora Amanda à CNN.

O mesmo se passa com o comité olímpico dos EUA. Esta quinta-feira foi divulgado um novo relatório que dá conta de que o comité soube das acusações contra Larry Nassar em 2015, mas não fez nada. Segundo esse relatório, citado pelo Wall Street Journal, o então presidente das ginastas norte-americanas, Steve Penny, chamou o presidente executivo do comité olímpico, Scott Blackmun, em julho de 2015, pedindo-lhe que alertassem as autoridades para as fortes suspeitas de abuso sexual por parte do médico. Segundo aquele jornal, Blackmun limitou-se a dizer a Penny para “fazer o que quisesse fazer”. Mas nada foi feito.

Além da sentença de 175 anos de prisão decretada no passado dia 25 de janeiro, com base no testemunho de 156 raparigas; e além dos 60 anos de prisão já previstos pelo crime de posse de pornografia infantil, Larry Nassar enfrenta agora nova sentença, estando prevista a audição de mais 60 novas vítimas.

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