SpaceX

Afinal, onde vai parar o Tesla que Elon Musk enviou para o espaço?

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Os telescópios viram o Tesla Roadster da SpaceX pela última vez esta manhã. Só o voltamos a ver no final do século, já massacrado pela radiação cósmica. Este é o percurso que vai fazer à volta do Sol.

Há uma grande confusão sobre onde está e para onde vai o Tesla Roadster vermelho-cereja que a SpaceX de Elon Musk enviou para o espaço a bordo do Falcon Heavy, o foguetão mais poderoso do mundo. O plano era que o automóvel, que tem um manequim chamado Starman no lugar do condutor, entrasse numa órbita elíptica em redor do Sol algures entre o planeta Terra e Marte, mas Elon Musk anunciou uma mudança de planos no Twitter depois do lançamento do carro: afinal, o Tesla Roadster pessoal de Musk tinha falhado a órbita planeada e estava em direção à cintura de asteróides. Só que Musk enganou-se. E é aqui que começa a dúvida.

A ideia inicial da SpaceX era que o Tesla Roadster andasse em redor do Sol numa órbita que se cruzasse duas vezes com a de Marte: o automóvel vai chegar tão longe do Sol quanto o Planeta Vermelho, mas conseguirá aproximar-se tanto da estrela quanto a Terra. Isso não vai acontecer e Elon Musk afirmou-o umas horas depois, quando anunciou que o automóvel “excedeu a órbita de Marte e continuou em direção à cintura de asteróides”. Isso significava que o Tesla ia dar uma volta muito maior do que se julgava e que ficaria no meio de uma região do Sistema Solar, entre Marte e Júpiter, cheia de asteróides em rotação à volta do Sol. Os mil milhões de anos que Musk julgaria que duraria o automóvel no espaço podiam reduzir-se a poucos anos porque o Tesla ficaria no caminho de asteróides tão pequenos como grãos de areia e tão grandes como um planeta anão. Mas afinal pode não ser bem assim.

A SpaceX terá de reformular as contas depois de a NASA, agência espacial norte-americana, ter pegado nas informações da empresa privada e ter desmentido o que Elon Musk dizia nas redes sociais: segundo o Jet Propulsion Laboratory, centro tecnológico da mesma agência, o Tesla Roadster iria ultrapassar a órbita de Marte, mas não o suficiente para chegar à cintura de asteróides. Em vez disso, ficaria a 250 milhões de quilómetros do Sol, isto é, apenas 22 milhões de quilómetros para lá do Planeta Vermelho. E a NASA vai ainda mais longe: calcula que o Tesla Roadster chegará à orbita de Marte em julho deste ano, que ficará no ponto mais afastado do Sol em novembro, que em setembro de 2019 completa a primeira translação e que demorará 19 meses a dar uma volta completa à volta da nossa estrela. No entanto, Elon Musk nunca corrigiu a informação sobre uma nova órbita dada a 7 de fevereiro. E a verdade absoluta continua por desvendar.

Uma coisa é certa neste momento: durante esta semana, o Tesla Roadster vermelho de que Elon Musk abdicou para simular a carga a bordo do Falcon Heavy vai deixar de ser visível a partir da Terra. Por enquanto, ainda há astrónomos munidos de telescópios científicos que o conseguem gravar a atravessar o céu noturno sob a forma de um ponto branco, como se fosse um satélite entre as estrelas numa noite limpa de verão. É isso que mostra a imagem cá em cima, pertencente aos astrónomos Gianluca Masi e Michael Schwartz, membros do Virtual Telescope Project. Mas imagens como esta vão ser impossíveis de captar a partir desta semana, quando o carro sair do alcance dos nossos telescópios. Depois disso, vamos ter de esperar até ao final do século XXI, provavelmente em meados dos próximos anos 70, para conseguir vislumbrá-lo uma vez mais. Se o vamos reconhecer nessa altura, isso é outra história: as radiações são tão fortes que, visto a partir da Terra, o Tesla pode parecer-nos apenas mais um asteróide ou um pedaço de lixo espacial.

Um Tesla reduzido a cinzas

As teorias sobre o que vai acontecer a partir daqui ao Tesla Roadster são muitas: umas concordam com Elon Musk e dizem que o carro vai manter-se inteiro durante centenas de milhões de anos; mas outros não lhe dão mais do que um ano de vida. Longe da atmosfera terrestre, que protege tudo e todos das radiações solares mais nocivas, das radiações cósmicas e dos corpos celestes que vagueiam pelo espaço, o automóvel que a SpaceX enviou para perto de Marte vai sofrer mudanças profundas: o vermelho-cereja de que a SpaceX se orgulha pode desaparecer, alguns materiais vão deteriorar-se e o carro até pode ser influenciado pelo imenso campo gravítico de Júpiter. Mas ninguém, nem mesmo Musk, vai poder ver isso a acontecer: as baterias das câmaras montadas no carro já ficaram vazias. Tudo o que pudemos ver, provavelmente pela última vez, foi este livestreaming dos últimos instantes do Tesla ao alcance dos telescópios que temos na Terra.

Ao Washington Post, William Carroll, químico da Universidade do Indiana, disse que o Tesla Roadster vai estar constantemente ameaçado por pequenos meteoróides e pela radiação cósmica e solar que se propaga pelo espaço em todas as direções. Os primeiros materiais a deterioram-se vão ser os orgânicos, ou seja, aqueles que têm carbono na sua composição, como os plásticos e as estruturas de fibra de carbono: estes materiais vão estalar porque a radiação vai quebrar as ligações químicas que garantem a integridade. A seguir, os bancos de pele e os pneus de borracha vão escamar e transformar-se em lascas. E enquanto tudo isto acontece, a pintura do automóvel irá perder-se. O Tesla Roadster vermelho-cereja de Elon Musk vai ficar reduzido a um esqueleto de alumínio: só mesmo os metais internos do carro e os vidros que não forem atingidos por objetos sólidos é que vão sobreviver à agressividade do espaço. E tudo isto pode acontecer em apenas um ano, embora o Tesla “continue reconhecível durante pelo menos um milhão de anos”.

Outras teorias são menos apocalípticas. Seth Shostak, astrónomo sénior do projeto SETI, diz que a radiação cósmica vai degradar o Tesla Roadster “muito devagar” e que o carro “está destinado a acumular milhões e milhões de milhas antes de ser destruído por um desastre”. Para este astrónomo, um desastre seria uma possível colisão com corpos celestes de maior dimensão, sejam meteoros ou os planetas Terra e Marte — algo que a SpaceX quer evitar porque isso poderia contaminar o Planeta Vermelho com seres vivos ou vírus vindos da Terra. Algo assim seria possível, mas Seth Shostak estima que o automóvel “tem menos probabilidade de uma colisão a cada ano do que todos os Tesla Roadster que andam nas estradas da Terra juntos”.

O enferrujamento não é problema: como não há ar nem água no espaço, nada fará com que os metais que compõem o Tesla de Elon Musk comecem a ceder à oxidação do ferro. Mas isso não significa que o carro possa durar tanto quanto Elon Musk anunciou na conferência de imprensa após o lançamento do Falcon Heavy: Jim Bell, presidente da Sociedade Planetária, não lhe dá mais de 100 anos.

O que pode realmente alterar todos os planos projetados pela SpaceX para o Tesla de Elon Musk é Júpiter e o seu poderoso campo gravítico. Mesmo não chegando à Cintura de Asteróides, como têm afirmado vários cientistas, duas coisas podem acontecer ao automóvel: ou derreter numa aproximação ao Sol ou ceder à gravidade de Júpiter para depois ser chutado para fora do Sistema Solar. Isto é o que indica Alan Fitzsimmons, astrónomo do QUB Astrophysics Research Center: olhando para as projeções do que será a órbita do Tesla nos próximos 10 mil anos, o percurso “vai ser lentamente alongado por perturbações gravíticas” e o carro “vai começar a levar um coice de Júpiter”.

Nem tudo seria tão mau assim se a SpaceX tivesse disparado completamente ao lado e tivesse enviado o Tesla do presidente da empresa para a cintura de asteróides. Embora essa seja uma região do espaço cheia de asteróides, ela é tão vasta que o corpo celeste mais próximo pareceria uma mera estrela distante, portanto mesmo tendo chegado lá o Tesla podia não ser tão massacrado quanto isso por rochas espaciais. Além disso, a SpaceX ter-se-ia tornado na primeira empresa privada a enviar uma máquina para a Cintura entre Marte e Júpiter. Mas Elon Musk gostou mais da ideia de pôr um Tesla vermelho a caminho de Marte: disse que “parece tão pouco verdade que só pode ser realidade”. E nós compreendemos.

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