De 2014 a 2019 vai um mundo de distância. “Tudo se alterou”, começou por dizer o eurodeputado e dirigente centrista Nuno Melo, numa conferência sobre a Europa que decorreu esta quinta-feira, na sede do CDS. O PSD e o CDS já não estão juntos no Governo, o PSD e o CDS ganharam as eleições mas não estão sequer no Governo, o PS juntou-se de forma inédita aos partidos da esquerda para governar, e, pelo meio, houve umas autárquicas onde a presidente do partido, Assunção Cristas, “teve o melhor resultado do CDS em Lisboa desde o 25 de abril”. Portanto, resumiu Nuno Melo: PSD e CDS devem ir a jogo cada um por si.

E o que vale para as legislativas vale para as europeias, que vão ser apenas cinco meses antes, em maio de 2019. “Se nas eleições europeias pudermos ter mais eurodeputados e se, juntamente com o PSD, pudermos ter mais eurodeputados do que o espaço político do centro-esquerda, então prestaremos um grande serviço ao país”, disse Nuno Melo, que falava ao lado do ex-eurodeputado Diogo Feio e de Raquel Vaz Pinto, e com Assunção Cristas na primeira fila.

O argumento é o mesmo que Assunção Cristas tem usado repetidamente, e que vai continuar a usar até às legislativas de 2019: já não importa ganhar eleições, importa que a soma dos deputados do centro-direita seja superior à soma dos deputados do centro-esquerda. Nuno Melo, que apresentou esta quinta-feira as linhas gerais da moção setorial sobre a Europa que vai levar ao congresso de 10 e 11 de março, usou até o argumento matemático de que, em 2009, quando o CDS foi a votos sozinho para o Parlamento Europeu, elegeu dois eurodeputados (Nuno Melo e Diogo Feio), enquanto em 2014, quando foi a votos coligado com o PSD (com quem partilhava governo), elegeu apenas um eurodeputado (ele próprio).

“Nunca tivemos receio de ir a votos sozinhos em 2009“, disse Nuno Melo, em jeito de desafio para as eleições europeias que se seguem, e onde o paradigma se assemelha mais ao de 2009 do que ao de 2014. “Temos de ter em conta a mudança de paradigma que a dita geringonça acrescenta ao debate político português”, insistiu Nuno Melo, lembrando que o que está em causa em 2019, tanto nas legislativas como nas europeias, é a soma das partes.

CDS quer distinguir-se do PSD: “O PSD defende impostos europeus, nós somos contra”

E há mais: os dois partidos, PSD e CDS, até pensam de maneira diferente em determinados temas, nomeadamente sobre a criação de três novos impostos europeus defendida pelo primeiro-ministro António Costa, a que depois, segundo Nuno Melo, o PSD se foi juntar. “O PSD veio defender essa possibilidade dos impostos europeus e nós somos contra”, disse Nuno Melo, referindo-se a declarações feitas pelo eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes.

“Neste momento mais de 75% do investimento público tem origem no orçamento da UE. Precisamos de aumentar o orçamento sem penalizar os contribuintes. Por isso, a taxa sobre as transações financeiras, a plataformas digitais e relativas às emissões de carbono são positivas. Mas precisam de ser debatidas e explicadas, até porque é fácil nesta matéria a demagogia e o populismo que também acontece em Portugal”, defendeu o eurodeputado social-democrata, segundo se lê na sua página oficial de Facebook.

O nome de Rui Rio, o novo líder do PSD, não foi referido, mas parte da intervenção de Nuno Melo na sede do CDS foi dedicada a vincar as diferenças face ao ex-parceiro de coligação. “Somos nós que temos estado na primeira linha contra os impostos europeus”, disse, sublinhando que está na altura de o CDS “mostrar o que o distingue, em termos de posicionamento na Europa, dos partidos que são concorrentes dentro do arco da governabilidade“. Uma dessas linhas distintivas é, por exemplo, a ideia de que o CDS, não sendo um partido eurocético, não é um partido federalista. “É um lugar comum dizer que o CDS é eurocético. Não é verdade, o CDS nunca foi eurocético. Mas europeísmo não é federalismo”, disse, sublinhando a visão atlântica a que o CDS também dá primazia.

E, numa altura em que o novo presidente do PSD já nomeou um interlocutor para negociar com António Costa o novo quadro de fundos comunitários, o dirigente centrista foi carregando nas tintas num discurso crítico à governação de António Costa e dos parceiros da esquerda, que “obriga todos os dias a pagar impostos indiretos ao mesmo tempo que nos vende a ilusão da devolução de rendimentos. António Costa não tem de aumentar impostos, tem é de governar melhor, mas isso implica não ceder à esquerda e todos sabemos que isso tem custos e é complicado”.

Tudo para dizer que PSD e CDS não são a mesma coisa em matéria europeia, e está na altura de vincar essas diferenças. “Temos de nos posicionar no centro da discussão política sobre a construção europeia mas temos de nos distinguir de todos os outros e, para isso, temos de dizer rigorosamente ao que vamos”, afirmou.

Certo é que o discurso é de confiança em bons resultados eleitorais. Nuno Melo, que há dois anos era apontado como possível candidato à sucessão de Paulo Portas, em vez de Assunção Cristas, lembrou que em 2009 as sondagens diziam que o CDS não iria conseguir eleger nenhum eurodeputado e acabou por eleger dois, para concluir que o CDS deve ter a ambição de vencer. À sua escala. “Não podemos navegar em cima das suposições de sondagens que falham, mas temos de ter a crença de que podemos, à nossa escala, vencer”, disse.