I wanna follow where she goes / Quero segui-la para onde for
I think about her and she knows it / Penso nela e ela sabe disso 
I wanna let her take control / Quero que ela assuma o controlo
‘Cause everytime that she gets close, yeah / Porque de cada vez que ela se aproxima, yeah

Há dois anos, no Congresso de Gondomar, a entrada triunfal de Assunção Cristas no último dia de trabalhos foi feita ao som de uma música digna de pista de dança, que cantava “God made me this day” (“Changes”, de Faul). Agora, em Lamego, a entrada esteve igualmente à altura de uma rádio comercial. Só os acordes eram outros. “There’s Nothing Holding Me Back”, cantava Shawn Mendes. Que é como quem diz: mudanças feitas, líder consolidada no partido, agora nada a pode travar. “CDS, a primeira escolha” foi o slogan escolhido para este segundo dia do Congresso do CDS, o primeiro dia de mais um mandato de dois anos com Assunção Cristas na presidência do partido.

Cristas termina os dois longos dias de trabalhos do 27º Congresso como começou — a querer descolar do PSD e a assumir-se como “primeira escolha” e “a alternativa” do centro e da direita ao governo socialista. “Quem não acredita no partido socialista, quem não se revê nas esquerdas encostadas tem uma escolha clara, uma escolha segura, uma escolha inequívoca. E essa escolha é só uma: nós, o CDS”, disse no discurso de encerramento, onde deixou claro que “acabou o voto para o primeiro lugar”. E que o que importa é CDS e PSD conseguirem eleger mais de 116 deputados para poderem governar — e importa ainda mais que desses seja o CDS a ter mais votos.

A líder do CDS diz-se “realista”, mas sabe que é difícil acreditar-se num cenário onde o CDS é a primeira escolha, acima do PSD, por isso pediu de várias formas: “Acreditem”, “já provamos que não há impossíveis”, “o futuro é o que dele fazemos”. “E quando me perguntam se não estamos a dar um passo maior do que a perna, a resposta é simples: não duvidei nunca dos passos decididos de um partido que sabe onde está, sabe o que quer, sabe para onde vai e, sobretudo, tem esta militância”.

“Somos a alternativa, a opção dos que rejeitam o socialismo que nos governou em 14 dos últimos 20 anos, que passou os 14 anos a endividar-nos, a comprometer o futuro das novas gerações, a afastar-nos da média europeia”, disse, insistindo que “há todo um país que quer ser representado pelo CDS”.

A ideia é clara: apontar a 2019 dizendo que, à luz das mudanças provocadas pela “geringonça”, todos contam. “Se em 2015 muitos portugueses foram ao engano, porque não tinham qualquer referência para poder antecipar e perceber o que depois aconteceu, agora já ninguém irá ao engano. Hoje o voto útil acabou. Hoje o voto de cada português é mais livre do que nunca. Acabou o voto para o primeiro lugar”, disse, afirmando que é mais fácil PSD e CDS chegarem aos 116 deputados “somando deputados depois das eleições”, em vez de se coligarem antes.

Enquanto Cristas piscava o olho aos descontentes com o Governo apoiado pela esquerda, Rui Rio assistia na primeira fila. Foi para ele que Cristas dirigiu uma das suas primeiras palavras — uma palavra “especial”, tão “especial” como a que Rio lhe dirigiu a ela no discurso de encerramento do congresso do PSD. “Permitam-me uma palavra especial para o Dr. Rui Rio, que iniciou recentemente as suas funções de Presidente do PSD, um partido amigo, e em cujo congresso tive o gosto de estar e atestar a convergência de preocupações temáticas com o CDS”.

Sobre “ambição” para as legislativas, Cristas e o CDS estão conversados.  Mas antes há europeias, e a ambição não é menor. Depois de ter lançado o nome do atual eurodeputado, Nuno Melo, como o próximo cabeça de lista do CDS ao Parlamento Europeu, Cristas anunciou os restantes nomes que vão compor a lista. Em segundo lugar aparece o ex-ministro Luís Pedro Mota Soares, um dos quadros de peso do partido, que evidencia a confiança do CDS em, pelo menos, eleger mais um eurodeputado. Em terceiro lugar Raquel Vaz Pinto, professora da Universidade Nova de Lisboa, que passou a integrar a núcleo de direção de Cristas, e em quarto Vasco Weinberg, especialista em Direito do Mar. “Uma equipa fortíssima”, disse Cristas.

O mundo mudou. Inovação, demografia e território são as prioridades do CDS

“Changes”, a música do Congresso passado, ainda se ouviu várias vezes neste fim de semana em Lamego e a palavra mudança foi ditada dezenas de vezes no discurso de Cristas. “Vivemos num mundo em mudança permanente e há partidos que nem sequer se apercebem da mudança que aí vem. Há partidos convencidos que a mudança não chega cá ou que pode ser proibida por decreto. Há partidos que acham que o Estado deve a todo o custo proteger-nos do que aí vem”, começou por dizer, para depois enumerar as prioridades políticas do CDS para fazer face a “este mundo novo”, garantindo “justiça social e solidariedade geracional”.

  • Demografia – “da natalidade ao envelhecimento ativo e à proteção dos idosos, passando pela gestão da vida profissional e contributiva com as suas várias implicações, nomeadamente na saúde, na educação ou na Segurança Social”;
  • Território – “entendido em toda a sua amplitude, do mundo urbano, rural e mar – e com atenção particular à coesão territorial e ao impacto das alterações climáticas, lembrando que a Península Ibérica é uma das regiões do globo mais expostas, o que eleva as questões da água à primeira linha das preocupações”. Cristas propôs ainda uma zona franca fiscal no interior para o interior do país;
  • Inovação: – “a economia digital, as novas profissões e as oportunidades que também abrem para o nosso território e o salto empreendedor. Queremos que os nossos jovens sintam que Portugal é o melhor país para desenvolver os seus projetos de inovação; queremos que Portugal seja sinalizado em todo o mundo como um destino por excelência não apenas para o turismo, mas também para aqui se investir e inovar”.

Assunção Cristas quer liderar a oposição. “Quero ser muito clara nisto:  Há partidos que se conformam com um Portugal sempre atrás dos outros, condenado a ficar com os restos. E o que eu proponho é simples: clareza na orientação política, afinco na definição das políticas“, disse, num discurso longo e já com o relógio a passar bastante da hora de almoço. O cansaço era evidente na voz, mas a imagem de líder pop e ambiciosa ficou: até o fato cor de rosa apareceu a brilhar para as câmaras.

No final, Rui Rio, falando aos jornalistas, respondeu a Assunção Cristas, desvalorizando: está a fazer “o seu papel”. “Já viu se a líder do CDS viesse dizer que não estava apta a governar? Tem naturalmente de dizer isso, tem de cumprir o seu papel”. Papel principal? Talvez. A verdade é que é a primeira vez que o CDS assume este discurso a tentar mobilizar uma vitória.