A Heliavionicslab — subcontratada da Everjets para fazer a manutenção dos helicópteros Kamov — nega ter desviado quaisquer peças daqueles aparelhos, uma acusação avançada pela Autoridade Nacional de Proteção Civil para justificar o encerramento dos hangares onde a empresa fazia a manutenção dos helicópteros. Num comunicado a que o Observador teve acesso, a empresa acusa a Autoridade Nacional de Proteção Civil de fazer “infames insinuações”.

Na posição que tornou pública esta quinta-feira, a empresa diz que nada do que estava a ser feito esta terça-feira foi diferente da prática habitual. A Heliavionicslab diz que “não se encontrava a efetuar qualquer desvio de peças ou componentes das aeronaves Kamov, limitando-se a transportar peças que se encontram a ser objeto de ações de manutenção para o seu laboratório aeronáutico, a menos de 300 metros do hangar da ANPC, ambos dentro do perímetro do aeródromo de Ponte de Sor.

Uma prática que “sempre efetuou desde o início da execução do contrato de manutenção, há mais de dois anos”, garante a empresa.

Proteção Civil fechou instalações onde estão os helicópteros Kamov e expulsou equipas russas

O comunicado não esclarece que ações a empresa pode vir a tomar relativamente à decisão da ANPC de encerrar o hangar onde era feira a manutenção dos Kamov, no heliporto de Ponte de Sor. Lembra que “é a única sociedade em Portugal certificada para efetuar ações de manutenção em aeronaves Kamov” e que, neste momento, está a “avaliar os prejuízos e as consequências que advêm da atuação da ANPC resultantes do impedimento de acesso ao hangar onde se encontram as aeronaves Kamov e consequente expulsão do mesmo das equipas de técnicos destacados pelo fabricante da Rússia para Portugal, bem como das graves e reiteradas insinuações que a ANPC efetuou sobre pretensos movimentos não autorizados de peças de Kamov”.

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Com o encerramento dos hangares de manutenção dos helicópteros, a Heliavionic diz estar “impedida de prosseguir as ações de manutenção que se encontrava a efetuar” e acusa a ANPC de provocar “graves prejuízos” à empresa.

Operação interrompida: “Toda a gente embora.”

A decisão surpreendeu os técnicos que se encontravam a trabalhar nos Kamov em contrarelógio para que os aparelhos estejam prontos a dar apoio no combate aos incêndios — uma intenção que agora fica em risco, admite a empresa. “Como vão ficar prontos se está tudo fechado? Se equipa russa foi embora e não sabe quando pode voltar?”, questiona-se um elemento da empresa, em declarações ao Observador. Os responsáveis da ANPC, que habitualmente acompanham os trabalhos nos hangares, dirigiram-se às equipas e deram a ordem: “Toda a gente embora”, diz a mesma fonte da Heliavionics.

Ao todo, foram retiradas do local cerca de 15 pessoas, entre funcionários russos, búlgaros e portugueses e os próprios especialistas russos que tinham voado até Portugal para fazer uma avaliação dos aparelhos. A decisão da ANPC “não é normal e é grave”, continua o mesmo elemento.

Expulsaram toda a gente, selaram as portas e não explicaram nada”, diz fonte da empresa responsável pela manutenção dos Kamov.

As portas foram seladas e, esta manhã, quando chegaram ao hangar, os técnicos perceberam que continuavam sem acesso aos aparelhos e ao próprio local onde é feita a manutenção dos aparelhos e sem previsão de quando poderão retomar as ações de manutenção. “Chegámos esta manhã, vimos que os portões continuam seladas e, agora estamos à espera”, conta aquela fonte.

Eduardo Cabrita apoia decisão da Proteção Civil de expulsar equipa russa de manutenção dos helicópteros Kamov

A decisão afetou não apenas os técnicos que operavam nos hangares como os especialistas russos enviados a Portugal pela fabricante dos Kamov para avaliar os helicópteros. “Por que razão a ANPC expulsou do hangar os representantes do próprio fabricante das aeronaves?“, questiona-se a Heliavionics.

ANPC diz que material movimentado “não foi identificado”

A Autoridade Nacional de Proteção Civil confirmou esta quarta-feira que tinha decidido suspender a atividade de manutenção depois de ter verificado uma “movimentação de material” sem que tivesse sido “efetuada a identificação” ou, sequer, que tivesse “sido solicitada a necessária autorização”

Em comunicado, a ANPC validou a informação publicada pelo jornal Público ao final da tarde. “O hangar da ANPC sito em Ponte de Sor, onde se encontra localizada a frota de helicópteros Kamov, propriedade do Estado português, foi na terça-feira interditado pela ANPC em virtude de se ter constatado a movimentação de material da mencionada frota, por parte da Heliavionics (subcontratada da Everjets, S.A.), sem ter sido efetuada a identificação do referido material, nem ter sido solicitada a necessária autorização, tendo tal facto sido logo comunicado à Everjets, S.A”, referia a nota divulgada esta quarta-feira à noite.

Nessa posição, a Proteção Civil sublinha que o encerramento do local foi “a única medida que, no imediato e face à omissão de qualquer atuação ou esclarecimento por parte dos técnicos da Everjets presentes no local”, teria permitido salvaguardar “os bens da ANPC e o interesse público subjacente”.

A reabertura de portas ficava dependente dos esclarecimentos que viessem a ser prestados pela Everjets, empresa a que foi entregue a manutenção dos Kamov e que subcontratou a Heliavionics. “Salienta-se que foram solicitados à Everjets, S.A. os necessários esclarecimentos, em ordem a que, caso se encontrem reunidas as condições para tal, seja reaberto o hangar e retomados os trabalhos com a normalidade necessária e desejável”, refere a ANPC.