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Malta

O projeto Daphne: A bomba silenciou a jornalista maltesa, mas não a história

Seis meses depois do assassinato, um projeto jornalístico divulga uma investigação detalhada sobre a morte da jornalista maltesa. Equipa vai também investigar os casos incómodos que Daphne seguia.

Uma das vigílias para que se faça justiça pela morte da jornalista Daphne Caruana Galizia

OLIVIER HOSLET/EPA

Os vidros da casa da família Caruana Galizia partiram-se com a força da explosão. Matthew, aterrorizado, foi o primeiro a dirigir-se à rua e, ainda descalço, começou a correr na direção do fumo negro. Ao chegar viu que era um carro em chamas e lá dentro estava a sua mãe, Daphne Caruana Galizia. A jornalista, que investigava a corrupção em Malta, foi assassinada numa estrada perto da sua casa. Uma bomba no carro silenciou-a, mas não o seu trabalho. Seis meses depois do assassinato, o Projeto Daphne desenvolveu uma investigação, publicada no The Guardian, com todos os detalhes que se conhecem da morte da jornalista. E  mais: os mesmos jornalistas que têm seguido o assassinato vão continuar a investigar todos os casos que a jornalista tinha em mãos.

As investigações de Daphne estavam a incomodar várias pessoas influentes na política e nas grandes empresas no país. O primeiro-ministro, Joseph Muscat, e o seu partido são acusados ​​de fomentarem uma conjuntura em Malta onde a corrupção passa impune e a polícia e a justiça estão cada vez mais enfraquecidas. Este contexto, denunciado pela oposição e pela imprensa livre, terá permitido um ambiente que propiciou a morte de Daphne.

Após o assassinato, a família — em colaboração com 18 organizações de media internacional, como o The Guardian, a Reuters e o Le Monde — uniram-se para criar o Daphne Project. A organização de jornalistas Forbidden Stories, que tem como missão continuar o trabalho de jornalistas que foram silenciados, passou meses a investigar a história de Daphne Caruana Galizia e a desenvolver as investigações que a jornalista maltesa estava a fazer quando foi assassinada.

O primeiro momento começa precisamente pela história dos homens que estão a ser julgados pelo crime e pela tentativa de descobrir quem os contratou e qual o motivo do assassinato. A investigação jornalística descreve ainda a forma como Daphane conduzia o seu Peugeot 108 na aldeia onde vivia, Bidnija. Tudo é descrito ao pormenor, desde onde estava a bomba (no banco do condutor) até à forma como o corpo da jornalista ficou desmembrado junto ao local da explosão.

A equipa de SWAT e o vídeo da detenção

Os jornalistas do projeto passaram a pente fino a investigação policial desde o momento em que os suspeitos foram detidos. A 4 de dezembro de 2017, numa grande operação policial, que envolveu uma abordagem de militares a partir de um barco coadjuvada por uma equipa de SWAT em terra, foram detidos três suspeitos. Eram velhos conhecidos da polícia: os irmãos George e Alfre Degiorgio e o sócio de ambos, Vincent Muscat.

Os irmãos foram forçados a deitarem-se no chão e Muscat foi algemado a uma grade de ferro. As autoridades filmaram tudo a partir do capacete de um militar e cederam as imagens à imprensa. O local onde as autoridades prenderam os três homens era um antigo armazém de batatas que serve agora para abrigar os barcos do clube de remo local. No espaço havia de tudo um pouco: bancos de ginásio, uma churrasqueira e uma sala com uma porta de metal. Havia também equipamentos de pesca e até um brinquedo suspenso do Homem-Aranha.

Com a ajuda do FBI e de uma equipa forense da polícia holandesa, as autoridades maltesas conseguiram perceber que a bomba tinha sido detonada remotamente e através de um telemóvel. Os criminosos terão detonado a bomba a partir de um barco no mar. A polícia centrou-se em tentar provar quem tinha feito as chamadas para o telemóvel que ativou a bomba. Ao serem detidos, nenhum dos três suspeitos falou e as autoridades acreditam que foram avisados previamente da detenção.

Mergulhadores da marinha maltesa conseguiram recuperar oito telefones supostamente usados pelos suspeitos, que foram entretanto enviados para a Europol na Holanda para análise. A família deposita no procurador Anthony Vella as esperanças de descobrir quem ordenou a morte de Daphne, pois temem que a polícia esteja condicionada e não desenvolva as investigações que possam envolver políticos.

O Governo maltês ofereceu uma recompensa de um milhão de euros por informações que levassem aos assassinos e, apesar das detenções, essa oferta não foi retirada. O primeiro-ministro maltês já garantiu em comunicado que está em curso uma investigação para descobrir quem “ordenou o assassinato.” O primeiro-ministro é, muitas vezes, responsabilizado pelo ataque já que parte das investigações de Daphne atingiam o seu partido, o Partido Trabalhista. Porém Muscat confessou que o assassinato o deixou “chocado e ofendido”, pois “nenhum primeiro-ministro gostaria que um jornalista fosse assassinado em nenhuma circunstância. Este foi um ataque à nossa sociedade e um ato sem sentido.”

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