A videovigilância do Bairro Alto entrou em funcionamento há quatro anos, mas os comerciantes dizem que as câmaras instaladas não funcionam e queixam-se de inação da polícia, opinião que não é partilhada pela Junta de Freguesia. O sistema de videovigilância do Bairro Alto foi instalado em maio de 2014, é composto por 27 câmaras que permitem a visualização de imagens em tempo real, entre as 18h00 e as 7h00, e que podem ser usadas como meio de identificação e prova.

Ana Santos trabalha há seis anos num bar na Travessa dos Fiéis e assistiu ao início da videovigilância no Bairro Alto. Volvidos quatro anos, considera que o dispositivo “falhou redondamente”. Para a comerciante, a videovigilância “não tem feito grande coisa” porque “continuam a vender droga em cada canto do bairro”. “As câmaras gravam, mas parece que ninguém as vê”, lamenta, admitindo que “impõem algum respeito”, mas “não servem para nada”. A resposta, para Ana Santos, não é reforçar o sistema de videovigilância, mas o “patrulhamento” durante a noite.

Kleber Soares, gerente de um bar na Rua da Atalaia, junta-se às críticas e garante que “nada mudou” nos últimos quatro anos, “porque [a videovigilância] não funciona”. O comerciante diz que o sistema “é mais fachada”, mas admite que possa servir “para inibir quem não sabe [que não funciona]”.

O presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto, Hilário Costa, junta-se às críticas e diz que o sistema “peca, às vezes, por alguma desinformação”, no sentido de “acontecerem casos e não se perceber porque é que a videovigilância não serve para os resolver”. À agência Lusa, o dirigente associativo explicou que o problema central do Bairro Alto continua a ser o tráfico de droga nas ruas, “um motivo de descontentamento dos comerciantes”, e confessa não perceber porque é que aquele sistema “não serve para combater este fenómeno”.

Por ser turno, a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Madeira, considera que a implementação da videovigilância no Bairro Alto foi “muito importante, uma vez que aumenta o sentimento de segurança dos moradores e visitantes”. O sentimento de segurança é “generalizado”, defende a autarca, baseando-se na recolha feita “diariamente com as pessoas” que vivem no bairro.

Carla Madeira advoga um reforço da rede de câmaras em outras ruas do Bairro Alto “uma vez que têm permitido identificar algumas situações de crime”. Contudo, a autarca considera que esse reforço só deve ser feito depois de a videovigilância estar implementada em outras zonas da freguesia, como o Cais do Sodré ou o Miradouro de Santa Catarina.

O presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto, Luís Paisana, considera que a videovigilância “teve um primeiro impacto bastante positivo”, pelo menos “em termos de dissuasão” porque “as pessoas sabem que há câmaras e os comportamentos são mais moderados”. Sobre as dúvidas relativas ao uso que as forças de segurança dão às imagens captadas pelas câmaras, o dirigente associativo afirma que não tem “dúvidas de que filmam e que tenham sido usadas”.

A opinião dos moradores, porém, é diferente. Luís Paisana conta que as pessoas com quem fala “diariamente” não acreditam “que as câmaras funcionem” e que “é tudo faz de conta”. “Sei que funcionam porque temos reuniões com frequência com a polícia”, advoga.

Questionado sobre a persistência dos problemas no Bairro Alto, Luís Paisana admite que “os comportamentos voltaram um bocadinho ao mesmo”, mas considera que a resolução passa pelo destacamento de “mais polícias” nas ruas do bairro.

A videovigilância em Lisboa vai ser alargada, em 2019, ao Cais do Sodré e à frente ribeirinha do Tejo, no âmbito do programa “Noite + Segura” — elaborado pela Câmara Municipal em conjunto com o Ministério da Administração Interna (MAI).

A agência Lusa tentou, sem sucesso, obter o parecer da Câmara Municipal de Lisboa sobre este tema.