Pelo que não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se projetem para o meio dos mares“. Esta é uma das frases que se pode ler no Livro dos Salmos e que não difere assim tanto de alguns dos versos da música “Stand By Me”, que se ouviu na Capela de São Jorge, durante a cerimónia de casamento de Meghan e Harry.

Daí que, mais do que uma canção de amor, o tema interpretado pelo Kingdom Choir tenha soado como um verdadeiro evangelho. É que, segundo a BBC, a música da autoria de Ben E. King baseia-se na canção com o mesmo nome de Charles Albert Tindley, que foi publicada em 1905. Afinal, que significado tem a música que foi cantada pelo coro gospel no casamento dos duques de Sussex?

Um hino aos direitos civis

“Stand By Me” foi sendo alvo de constantes alterações ao longo do tempo dando origem a novas versões. Em 1961, Ben E. King lançou a música, que atingiu o top das tabelas de vendas. Segundo o historiador Craig Werner, no contexto dos anos 60, na América, um homem negro a cantar “Não, eu não terei medo” é um “caso clássico de máscara política”. “Stand By Me” tornou-se, assim, uma canção de protesto “encoberta”, tal como “We Shall Overcome”, que veio a ser um hino chave do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos — e que também foi baseada num dos hinos de Tindley.

Tindley, filho de um escravo que se voluntariou para ser zelador numa igreja episcopal, em Filadélfia, aprendeu grego através de um curso por correspondência e estudou hebreu numa sinagoga local. Viria mais tarde a tornar-se pastor da igreja cujo público era maioritariamente mestiço — tal como o bispo Michael Curry, que discursou na cerimónia religiosa. Entre as várias funções que tinha, Tendley escreveu uma série de músicas baseadas nos salmos.

Em 1960, — um ano antes de se lançar a solo — Ben E. King, que já conhecia o gospel de Tendley, deixou a banda da qual fazia parte, The Drifters, devido a uma disputa contratual. Numa altura em que a maior dúvida que o assolava era se deveria ou não continuar uma carreira, eis que uma noite King fez uma nova versão da música de Tendley com “uma guitarra barata”. Orgulhoso da nova melodia que tinha criado, enviou-a à antiga banda, mas não teve qualquer sucesso.

Quando já Ben E. King tinha um contrato com uma produtora e depois de ter gravado a música “Spanish Harlem”, o artista ficou com algum tempo de estúdio e foi então que os produtores lhe perguntaram se tinha mais músicas para mostrar. King terá cantado “Stand By Me” a capella: a melodia soou bem e avançaram com a gravação do tema que se viria a tornar um enorme sucesso e que se ouviu no sábado, durante a cerimónia religiosa do casamento de Meghan e Harry.

A balada foi, em 2015, integrada no Registo Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso dos EUA, uma listagem que preserva registos “cultura, histórica ou esteticamente importantes e/ou informam ou refletem a vida nos Estados Unidos”. “Stand by Me”, segundo aquele organismo, “era a voz incandescente de King que a tornou um clássico”. No sábado, o momento musical interpretado pelo coro gospel foi ideia do príncipe Carlos, como o Observador já escreveu. A canção, que significa, para muitos, um hino aos direitos civis, marcou o casamento real pelo seu simbolismo.

https://observador.pt/videos/atualidade/o-top-10-do-casamento-real-ao-som-de-stand-by-me/