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Os sinais de que a pop americana estava a ficar rendida aos BTS começaram a tornar-se evidentes em 2017. Desde o começo desse ano, a boy band sul-coreana passou pelos programas de televisão de Ellen DeGeneres e Jimmy Kimmel, venceu um prémio musical da Billboard, recebeu mensagens de admiração de Miley Cyrus, Charlie Puth, dos Backstreet Boys (“Somos grandes fãs”, escreveram os últimos no Twitter) e colaborou com Steve Aoki e The Chainsmokers. O pico da popularidade nos Estados Unidos da América foi agora atingido: os BTS tornaram-se no primeiro grupo de k-pop (nome dado à pop sul-coreana contemporânea) com o álbum mais ouvido e comprado nos Estados Unidos durante uma semana, ultrapassando Post Malone, P!nk, J. Cole, Cardi B e Arctic Monkeys, todos com discos editados neste segundo trimestre.

[O videoclip de DNA é o mais visto dos BTS no Youtube. Tem 389 milhões de visualizações:]

A febre da k-pop tem crescido nos últimos anos. “Gangnam Style”, de Psy, foi uma das facetas mais visíveis dessa popularidade. Portugal também não ficou imune ao fenómeno, como se viu há um ano, quando os Block B foram recebidos no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, por dezenas de fãs. Estes esperavam-nos para um concerto na LX Factory, em Alcântara, e o entusiasmo foi tanto que a organização foi obrigada a apelar aos fãs para que não pernoitassem no local do concerto. Afinal, além do “frio e do perigo”, a LX Factory é “uma propriedade privada, logo é considerado crime dormir dentro ou à porta do edifício”, avisavam.

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Este género musical, que mistura sons tradicionais sul-coreanos com influências da música eletrónica e pop norte-americana, tem nos adolescentes e jovens adultos o seu público mais fiel e tornou-se, nos últimos anos, numa espécie de Éder. O grupo formado por Jin, Suga, J-Hope, V, RM, Jimin e Jungkook não desferiu um pontapé decisivo a mais de 20 metros da baliza de Hugo Lloris, como fez o avançado português na final do último Europeu de futebol, mas conseguiu um golo tão histórico e decisivo para a história da k-pop quanto o remate do avançado: o disco Love Yourself: Tear. A partir daqui, é provável que nada venha a ser igual.

Quem são os BTS?

Os BTS começaram em 2010 como um duo, formado por Iron e RM (que ainda hoje faz parte do grupo). Depois de muitas entradas e saídas, a formação estabilizou em 2013, por decisão da Big Hit Entertainment, a empresa sul-coreana de entretenimento que criou o projeto e que ainda hoje o gere. A RM (ou Rap Monster, como é também conhecido) juntaram-se, então, seis membros selecionados maioritariamente em castings (que incluíram batalhas de rap e de dança). Um dos membros, Jin, foi recrutado numa escolha.

Dos sete membros atuais dos BTS, três são rappers (RM, Suga e o também dançarino j-hope) e quatro são vocalistas (Jimin, Jin, Jungkook e V), o que mostra a importância que o hip hop tem na música dos sul-coreanos. Os sete têm entre 20 e 25 anos, sendo Jungkook o mais novo (tem 20 anos) e Jin e Suga os mais velhos (têm 25 anos). Quanto aos restantes, Jimin e V têm 22 anos, RM tem 23 e j-hope 24.

O grupo tem o hábito de editar álbuns ora em japonês, ora em coreano. Foi assim em 2014, quando lançaram os primeiros discos: Dark & Wild é cantado em coreano e Wake Up em japonês (inclui versões japonesas das canções do primeiro e com dois inéditos nessa língua). Os álbuns seguintes, Wings Youth (2016), foram lançados na Coreia do Sul e no Japão, respetivamente. Este ano, fizeram o mesmo: Love Yourself: Her, o terceiro álbum, já tem uma versão japonesa — Face Yourself, com três temas originais.

Na Coreia do Sul, o sucesso foi imediato. Para isso, contribuiu a ligação próxima com os fãs — a que não é alheia a intensa atividade dos membros dos BTS nas redes sociais. As letras interventivas, que criticam os estereótipos e convenções sociais da Coreia do Sul, também ajudaram os BTS a tornar-se num grupo de culto para os jovens do seu país e não só. Hoje, são tão populares que até o clube de fãs (a que chamaram Army, porque tem um volumoso “exército” de seguidores) tem uma lista de espera. Quem quiser fazer parte deste grupo, tem de comprar alguns itens relativos ao grupo (discos e/ou merchandise) para ser aceite.

Depois de conquistada a popularidade dentro de portas, os BTS quiseram conquistar o mundo. Decidiram, então, exportar o produto para a América do Norte. O segundo álbum, Wings, chegou a disco de ouro, mas foi com o terceiro trabalho de originais, Love Yourself: Tear, que os BTS cimentaram a sua popularidade entre os jovens norte-americanos. O álbum de 2018 tornou-se no maior êxito de sempre de k-pop nos Estados Unidos e no primeiro álbum cantado numa língua que não a inglesa a chegar ao número um no top de vendas nos últimos 13 anos. Ancora, editado pelos italianos Il Divo em 2005, foi o último a alcançar a façanha. Só falta saber se, tal como a América, também Portugal será infetado com o vírus do grupo sul-coreana.