Ainda se lembra do asteroide interestelar com forma de charuto que foi descoberto em outubro do ano passado? Bem, parece que afinal não é um asteroide, mas um cometa. A suspeita surgiu porque `Oumuamua está a viajar a uma velocidade superior ao que seria expectável. Os resultados foram publicados esta quarta-feira na revista científica Nature.

`Oumuamua

Mostrar Esconder

`Oumuamua pronuncia-se como “oh-MOO-ah-MOO-ah”. Foi inicialmente descoberto com o telescópio Pan-STARRS instalado no Observatório Haleakala, no Hawai. É por isso que o seu nome é inspirado na língua nativa do Hawai. Significa “batedor” e reflete a sua origem interestelar.

ESO

`Oumuamua foi o primeiro objeto a entrar no sistema solar vindo de fora. Sabe-se lá quantos sistemas estelares terá atravessado ou em que ponto da galáxia se terá originado. Com uma novidade destas, os investigadores fizeram tudo o que podiam para tentar estudá-lo ao máximo. Com a combinação dos dados recolhidos pelo VLT (Very Large Telescope) do Observatório Europeu do Sul (ESO), do Telescópio Espacial Hubble, do Telescópio Canada-France-Hawaii e do Telescópio Gemini do Sul foi possível perceber que este astro se está a deslocar mais depressa do era previsível.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“O ganho medido em velocidade é pequeno e o `Oumuamua ainda está a desacelerar devido à atração do Sol, mas não tão rapidamente como o previsto pela mecânica celeste”, refere o comunicado de imprensa do ESO.

Afinal é um cometa ou um asteroide? Quando foi detetado pela primeira vez, a 19 de outubro de 2017, pensou-se que seria um cometa. Pelo que se sabe sobre a formação de planetas, é mais provável ter cometas interestelares do que asteroides interestelares, refere um comunicado do Instituto de Astronomia da Universidade do Hawaii. Mas este objeto tinha um problema: os investigadores não detetaram a emissão de gases e poeiras comuns nos cometas. Apesar de ter um núcleo em tudo semelhante ao de um comenta, como não havia formação de coma e cauda com esta nuvem de gases e poeiras, teria de ser um asteroide. Além disso, com o tamanho aproximado de um campo de futebol, `Oumuamua é anormalmente pequeno para ser um cometa.

‘Oumuamua: parece um charuto gigante e é o primeiro visitante observado do sistema solar

Se fosse um asteroide, seria expectável que a velocidade abrandasse devido à força da gravidade exercida pelo Sol e pelos planetas do sistema solar, mas isso não está a acontecer, pelo menos não como seria suposto. De todas as hipóteses testadas, a mais aceite foi a possibilidade de que a proximidade ao Sol tivesse feito com que o gelo à superfície derretesse e libertasse gases e partículas, provocando propulsões que justificassem o ligeiro aumento de velocidade — a 1 de junho viajava a 114 mil quilómetros por hora. E isso é típico dos cometas.

“Pensamos que este objeto se trata afinal de um estranho cometa minúsculo”, diz Marco Micheli, líder da equipa e investigador na Agência Espacial Europeia. “Através dos dados vemos que o seu ’empurrão extra’ está a ficar mais fraco à medida que o objeto se afasta do Sol, o que é típico dos cometas.”

“Não observámos nem poeira, nem coma e nem cauda, o que é invulgar,” diz a co-autora do artigo Karen Meech, investigadora na Universidade do Hawai, que liderou a descoberta do objeto em 2017. “Pensamos que `Oumuamua possa estar a libertar grãos de poeira invulgarmente irregulares e grandes.”

E se pensa que `Oumuamua pode ser um nave espacial interestelar, os investigadores também têm resposta para isso. Uma nave tem, normalmente propulsores, o que faz com que a variação da velocidade não seja suave e contínua como está a acontecer com este objeto. Além disso, o objeto observado está a rodar em torno de três eixos, que é pouco provável que aconteça com um objeto artificial.

“A verdadeira natureza deste nómada interestelar enigmático poderá permanecer um mistério,” conclui Olivier Hainaut, membro da equipa e astrónomo no ESO. “O aumento de velocidade do `Oumuamua descoberto recentemente torna mais difícil descobrir qual o caminho que o objeto tomou desde da sua estrela progenitora até nós.” O facto de ser pequeno e difícil de observar também não tem ajudado os investigadores a identificar mais características sobre este astro. E à medida que se afasta do Sol, vai tornando esta tarefa cada vez mais impossível de concretizar.