Tive uma Ideia

Glam to Glam: quantas vidas tem uma peça de roupa?

177

Chama-se Glam to Glam e é o primeiro "marketplace" português dedicado, em exclusivo, à moda em segunda mão. Qualquer pessoa pode vender e comprar roupa, sai mais barato e o ambiente agradece.

Getty Images/iStockphoto

Quantas vidas pode ter um vestido? Um par de sapatos? Uma mala de pele? Sem filosofias esotéricas, mas com uma visão muito prática do que é o guarda-roupa de uma mulher, Catarina Nogueira e Sara Couto querem transformar o mercado da moda em Portugal. Como? Tornando-o mais circular. Parece que o tempo de vida útil de uma peça não termina quando deixamos de usá-la. embora a ideia tenha surgido do outro lado da barricada. “Para mim, foi uma necessidade. Tinha sido mãe há pouco tempo e, como é normal, fiquei um pouco mais limitada a nível de recursos. Ao mesmo tempo, não queria deixar de ter coisas novas, apenas precisava de encontrá-las mais baratas”, conta Catarina.

Um dia depois de ter tido a ideia, já estava a trabalhar nela. Corria o verão de 2017 e, surpreendentemente, não existia em Portugal nenhum marketplace exclusivamente dedicado a moda em segunda mão. Num país tomado por uma vaga de cosmopolitismo, parece que, afinal, há inovações (que noutros países  já são hábitos) difíceis de fazer chegar ao sul da Europa. Altura de pôr mãos à obra e de se fazer valer do seu talento como web developer. Margarida Matos, uma amiga da área da tecnologia, juntou-se ao projeto, mas acabou por sair depois de este estar alavancado. Sara Couto veio logo a seguir e Catarina chama-lhe “a cereja no topo do bolo”. Com experiência em gestão, a expectativa da nova sócia era outra: despachar toda aquela roupa que estava encalhada no armário. E eis o primeiro grande desafio da Glam to Glam — encher o site de roupa e acessórios, mas com critério.

Sara Couto (à esquerda) e Catarina Nogueira são as fundadoras da Glam to Glam © Divulgação

Em outubro do ano passado, fizeram as primeiras campanhas, a começar pelo Facebook. “Sabias que, em média, só usamos cerca de 20% do que temos no roupeiro?”, escreveram em tom de desafio. Segundo a gíria empresarial, este é um customer-funded business, logo, sem uma mão cheia de clientes logo no arranque, nada feito. O esquema foi simples, desde o primeiro dia, e com garantia de total confidencialidade. Qualquer pessoa pode criar uma conta no site e colocar peças à venda, gratuitamente. Antes de ficarem visíveis, roupas e acessórios têm de ser aprovadas pela equipa da Glam to Glam. Têm de estar em bom estado, embora a empresa não controle a autenticidade das peças, no caso das marcas de luxo, e essa verificação implica ver sempre as solas dos sapatos, bem como os fundos das malas. Escusado será dizer que também convém manter a qualidade das fotografias em níveis razoáveis, tal como os preços. É certo que cada vendedora é livre de definir o preço das suas peças, contudo, se a equipa identificar algum desajuste pode sempre aconselhar a cliente a reajustar.

Vendedora e compradora podem interagir através de um chat incorporado no próprio site e têm sempre a opção de não se identificarem, pelo menos com o verdadeiro nome. Catarina e Sara alegam que, por norma, bloggers, atrizes e outras figuras públicas preferem manter o anonimato. Feito o negócio, não há envios diretos. As peças passam obrigatoriamente pela sede da Glam to Glam, em Coimbra, para uma última certificação e só depois seguem para a cliente final. Em cada transação, a empresa ganha 30% do valor da compra.

“As pessoas vêem a segunda mão como algo depreciativo, como algo datado, que cheira a mofo. Além disso, também temos peças novas”, explica Sara. Exemplo disso é o stock de sapatos da marca Melissa que, recentemente, lhes foi parar às mãos. A loja fechou e agora há sapatos novinhos em folha, a partir de 19€. E isto, para não falar naquelas peças ainda com etiqueta que meio mundo mantém no armário. Embora a plataforma não se dedique exclusivamente à venda de artigos de luxo, eles vão aparecendo. Como dizem as duas sócias: “Há muitas pérolas escondidas nos roupeiros das portuguesas”. Carolina Herrera, Gucci, Michael Kors, Céline, Yves Saint Laurent e Christian Dior — os achados vão aparecendo, lado a lado com peças da Zara, Mango, H&M e Asos. O intermédio também existe, representado por marcas como Adolfo Domínguez, Guess e Bimba y Lola.

No final de janeiro, o negócio arrancou. Hoje, são já quase 1.000 os artigos à venda no site e cerca de 250 inscritas. As empresárias asseguram que, regra geral, quem vende também compra. Elas próprias já recorreram à plataforma, quer para despechar o que não usavam, quer para comprar novas peças. Por estes dias, o calendário dos casamentos domina as transações e não só nos vestidos. Contra todas as probabilidades, os sapatos são as peças mais transacionadas. “Se pensarmos bem, não é assim tão estranho. Muitas vezes, os sapatos e a roupa que experimentamos nas lojas também já foram usados”, admite Sara.

“Na nossa cabeça, faz sentido fazer circular estas peças”, defende Sara. A sustentabilidade faz parte dos princípios da Glam to Glam, sobretudo porque quando falamos em moda, falamos da segunda indústria mais poluente do mundo, apenas superada pela dos combustíveis fósseis. Atualmente, a questão não é apenas o ritmo a que se produz roupa, mas também o volume do desperdício. De acordo com um relatório da Ellen MacArthur Foundation, divulgado em novembro do ano passado, o fenómeno gera 1.200 milhões de toneladas de gases de efeito de estufa por ano. O mesmo relatório chega a outras conclusões, segundo o The Guardian. Por segundo, desperdiçado, em todo o mundo, o equivalente a um camião cheio de roupa. Nos últimos 15 anos, o número de vezes que uma peça é usada antes de ser posta de parte diminuiu em 36%.

Sandálias Gucci, à venda no Glam to Glam por 560€ © Imagem retirada do site

“Ser consciente não é deixar de acompanhar as tendências”, alega Catarina. Além da questão ambiental, o negócio traz também ganhos financeiros. Pelas contas das duas empresárias, este tipo de circulação (venda e compra) de peças no guarda-roupa de uma única pessoa pode atingir uma poupança anual de 2.000 euros. Parece que o melhor exercício para calcular a potencial poupança é mesmo contabilizar as novas aquisições e o número de vezes que se usa cada uma. Talvez se esteja a perder dinheiro com a roupa e os acessórios que estão parados no roupeiro. Talvez valha a pena pensar duas vezes antes de comprar novo na loja. Talvez.

Com menos de um ano no mercado, as duas sócias esperam por apoios ao empreendedorismo. “Uma omelete com poucos ovos”, é como definem o arranque desta startup, financiado a 100% por capital próprio. Atualmente, a empresa está encubada no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra. Catarina e Sara estiveram entre os finalistas da Bolsa do Empreendedorismo, foram selecionadas para participar no Ineo Start, um programa de aceleração, e fazem ainda parte dos projetos submetidos a votação do público do programa GovTech, focado na sustentabilidade. O desfecho de tantas candidaturas irá pesar na estratégia desenhada para a empresa no final deste ano.

Para já, os planos são ambiciosos q.b.. A pedido de muitas clientes, o site passou também a ter uma secção dedicada à moda de criança. Para breve está também um serviço premium para as vendedoras. Por 29€ e uma comissão de 40% sobre as vendas, as peças são enviadas pelo correio e a Glam to Glam trata do resto — preços e fotografias. A plataforma fica, por enquanto, reservada às modas feminina e infantil, embora Catarina e Sara não descartem a hipótese de estender também aos homens.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mgoncalves@observador.pt
Crónica

Questões afetivas, sexuais e outras /premium

Laurinda Alves

Ler o que escreve Halík dá que pensar e ajuda a pôr muita coisa em perspetiva. Amanhã estará em Lisboa e vai, também ele, encher auditórios e anfiteatros. Vem para colocar o dedo em muitas feridas.  

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)