De copo de vinho ou sumo de laranja numa mão, a outra a segurar um croquete e no assédio às chamuças que passavam em bandejas, ninguém se mexeu quando Rui Rio chegou ao terraço do restaurante do Edifício Novo da Assembleia da República, onde estavam os deputados à espera. Ninguém foi ter com o líder, que chegou acompanhado de Fernando Negrão e acabou por ser Rio a fazer uma espécie de volta do noivo pelos grupos de deputados. Nem todos estariam contentes por saber que a direção decidiu fazer o que o anterior líder prometeu não fazer: dar a mão ao PS. Mais precisamente: ao Governo, na questão da legislação laboral.

O ambiente já não é o que era antigamente e o protesto vai-se fazendo em surdina. Hugo Soares, antigo líder parlamentar, chegou às 21h09. Mais de uma hora depois da hora prevista para o início do evento e quase no final do discurso do líder.

Os aplausos tímidos já se tornaram um hábito quando Rio está com a bancada, mas desta vez o líder tinha trazido reforços. A mesa de honra tinha 27 lugares. Membros da sua direção (quatro dos seis vice-presidentes), membros da Comissão Política Nacional (onde estão seus fiéis apoiantes, como o vogal António Maló de Abreu) e ainda dirigentes da bancada que lhe são próximos e membros do Conselho Estratégico Nacional. Foi dali, onde tinha mais apoiantes, que partiram os aplausos durante o discurso de Rio, que raras vezes se estenderam a toda a sala.

Negrão já tinha confirmado a notícia de que o PSD se ia abster — com condições e avisos a António Costa — nas alterações ao Código Laboral e Rio estava, assim, mais livre. Começou, por isso, o discurso a puxar dos galões e até evocou Pedro Santana Lopes, que pondera criar um novo partido para concorrer com PSD.

Ainda há aqui alguns funcionários do meu tempo. Estava a fazer contas de cabeça de quando foi a última vez que estive nesta sala. A última vez que entrei nesta sala foi 19 ou 20 de dezembro de 2001, depois das autárquicas num jantar de Natal. Lembro-me de vir aqui com o Pedro Santana Lopes, ele tinha ganho Lisboa eu tinha ganho o Porto, como o tempo passa.”

Hábil, Rio conseguiu lembrar que já tem muitos anos de Parlamento, que Santana Lopes já esteve ao seu lado (e contra si) várias vezes e ainda destacar aquele que foi um dos grandes feitos da sua carreira política: conquistar a câmara do Porto ao socialista Fernando Gomes. “Como o tempo passa”.

Num discurso que durou meia hora, Rui Rio quis depois chamar “particular atenção para a próxima sessão legislativa, a mais importante de todas, porque antecede as eleições legislativas“. O presidente do partido avisou ainda que não se pode ter “razão antes de tempo” e que não se pode “dar a entender aos outros, aquilo que eles anda não estão em condições de poder compreender”. Para Rio a atual solução de Governo tem “uma vantagem comparada enorme [face ao anterior]” porque o país saiu de “uma situação de aperto enorme, para uma situação melhor”, mas com o tempo os portugueses vão perceber.

Mais bélico, atirou com a artilharia para cima do Governo, no caso do desaparecimento de armamento de Tancos. Para Rui Rio “hoje [terça-feira] foi um dia particularmente infeliz para a democracia portuguesa, porque demonstra as fragilidades do Governo. Hoje, veio cá o ministro [da Defesa] explicar o inexplicável. E, segundo me foi dito pelos deputados do PSD, não explicou rigorosamente nada. Fica na dúvida: se não esclareceu porque não quer esclarecer, ou pior, porque não sabe”.

O presidente do PSD acabaria por arrancar o maior aplauso quando falou da audição de Manuel Pinho, que se realizou esta terça-feira no Parlamento e onde o antigo ministro se recusou a responder a ligações sobre as ligações ao Grupo Espírito Santo. Rui Rio manifestou a sua indignação por um antigo ministro “suspeito” de receber “vencimento” através de “offshores”  se ter recusado a dizer “no Parlamento, se era verdade ou mentira”. E acrescentou: “Não respondeu e, ao não responder, parece-me que respondeu“. Os aplausos, nesse momento, foram mais audíveis.

O próprio Fernando Negrão fez uma piada com o ambiente pouco simpático que Rui Rio — e ele próprio, por arrasto — tem enfrentado desde que o PSD mudou de líder. O líder da bancada começou por dizer que era “muito importante ouvir o discurso e as palavras” do presidente, acrescentando: “A relação entre os órgãos do partido e o grupo parlamentar é uma relação fundamental para que as nossas convicções vinguem.”

E depois, chegou finalmente a piada, arrancando alguns sorrisos:

Foi uma sessão legislativa com muitas emoções. Quero agradecer aos deputados que me deram oportunidade de viver essa adrenalina e essas emoções.”

Depois, Negrão afirmou que se chega ao dia de hoje de uma “forma coesa” para criar uma “alternativa” ao Governo. Desta vez, o líder da bancada não estava a tentar fazer humor, embora saiba que a bancada está tudo menos coesa neste momento.

“Governo não está a cumprir a Constituição”

Rui Rio tinha previamente planeado fazer uma intervenção centrada na saúde. E foi a esse tema que dedicou uma boa parte do discurso. “Sabemos que 7,2 milhões de portugueses têm seguro de saúde. Eu pergunto: para quê? Pagam IVA, IRS e depois ainda pagam a saúde? Isto acontece porque o Estado não está a cumprir o que a constituição prevê”, acusa o líder do PSD.

Rio acusou o Governo de má gestão, alegando que “o desperdício estimado no Serviço Nacional de Saúde, anda em torno do que é o défice público previsto para 2018.”Lembrou depois que há portugueses que “esperam mais de um ano por consultas”, “urgências que não têm condições de dignidade, nem para os doentes, nem para os profissionais”, “mais de 700 mil não têm médico de família” e “défice no acesso aos cuidados paliativos”. E acrescentou ainda: “Até já há crianças e adultos a fazer quimioterapia em corredores e em contentores”.

Rui Rio exige que o Serviço Nacional de Saúde esteja ao nível do setor privado. “Se o privado consegue fazer bem, o público também tem de fazer bem”, afirmou o líder. Mais aplausos, mas sempre tímidos.

Desde que tomou posse como presidente do PSD, Rui Rio só se tinha encontrado no Parlamento com os deputados uma única vez, numa reunião de bancada onde ouviu duras críticas. Por comparação, esta experiência foi melhor.

Mesmo as jornadas parlamentares, as primeiras da era Rio, começaram com pouco entusiasmo, já que só metade dos deputados é que estavam no arranque dos trabalhos.

E até no encerramento dessas jornadas, quando Rio entrou para discursar na sala, a entrada do líder foi discreta. O presidente não teve aplausos quando chegou à sala, nem quando Negrão anunciou o seu nome para discursar.

Esta terça-feira poderia dizer-se que foi mais um momento sem grande entusiasmo em torno do líder. Ou, seguindo a sugestão de Fernando Negrão, foi um jantar “com adrenalina”.