Depois de 14 anos à frente dos desígnios do Partido Popular (dos quais sete à frente do Governo espanhol), Mariano Rajoy despediu-se dos seus colegas militantes, em pleno XIX Congresso Nacional, com um discurso que teve tanto de gratidão como de ataque à coligação de esquerda que neste momento governa Espanha.

“É um dia muito especial para mim, venho despedir-me da presidência do partido e venho também agradecer-vos” — foi assim que começou a longe intervenção do veterano político (mais de 40 anos de experiência). Entre agradecimentos emotivos, Rajoy tardou em tecer a sua análise sobre o panorama político que deixa para trás, mas quando o fez, foi acutilante.

As críticas à “geringonça” espanhola foram precedidas de um sumário da matéria da metária dada: os “sucessos” alcançados pelo PP no passado. “Enfrentámos a maior crise económica do país e demos-lhe a volta por completo. Criámos 2 milhões e 800 mil postos de trabalho… Ninguém mais criou isto sem ser o PP, devíamos falar mais disso. Não se fala porque é incómodo reconhecer que o foi o PP a alcançar essa vitória. Espanha está muito melhor agora do que quando chegámos ao governo”, começou por dizer, antes de se referir, obviamente, a toda a situação que envolveu a independência da Catalunha.

“Tivemos de enfrentar algo que nunca houve em 40 anos [a declaração de independência da Catalunha]”, explicou Rajoy. Referiu ainda que por causa do PP, “o senhor Puigdemont [o presidente regional da Catalunha que declarou unilateralmente a independência da região] não voltou a ser eleito e as pessoas que o apoiaram também não”. Essa vitória, justifica, foi conquistada “utilizando a lei”, graças ao artigo 155 [que suspende uma autonomia em Espanha]. “Hoje todos sabemos que a democracia pode ser defendida com a arma mais democrática que existe, a lei”, concluiu. Houve ainda tempo para uma referência contundente aos movimentos separatistas do País Basco: “Derrotamos a ETA sem exigir nada em troca!”

Após esta listagem das glórias passadas, Mariano Rajoy começou o ataque cerrado dirigido à esquerda. Rajoy foi afastado na sequência de uma moção de censura, lançada a propósito dos casos de corrupção do PP. Em Espanha, uma moção de censura tem sempre se propor a subsituição do Presidente do Governo. O socialista Pedro Sánchez (PSOE) acabou por ser escolhido como novo primeiro-ministro, graças ao apoio do Podemos e de vários outros pequenos partidos, entre os quais algumas formações independentistas catalães.

Rajoy considerou que que o PP já não está no governo porque “as coisas estavam a correr bem, ou demasiado bem”. E isso, segundo o galego, fez com que “alguns” decidissem  aproveitar “as oportunidades que a lei oferece para quando há algo para censurar”.

A sua saída, e a queda do PP, não se deu por falta de apoio dos espanhóis, afirmou. Aconteceu porque se “formou, não uma aliança, mas sim uma conspiração de perdedores independentistas”, atirou.

“Não governamos hoje porque alguns preferem um governo débil, cujo apoio vão fazer pagar caro, a ter um Partido Popular”, afirmou numa referência ao Podemos, que apoia a solução de governo do PSOE.

“Desde 2009 que ganhámos todas as eleições, em três convocatórias sucessivas”, disse Rajoy, porque “o PP é a primeira força política de Espanha”.

No final da sua intervenção, já visivelmente emocionado, Mariano Rajoy afirmou que não abandona a vida política ativa, mantendo-se como uma das figuras de referência do PP: “Afasto-me agora, mas não vou desaparecer”.

Recorde que este discurso abriu o congresso do PP onde será escolhido o novo líder do partido. Soraya Sáenz de Santamaría e Pablo Casado, os dois candidatos mais votados nas eleições primárias internas, vão a votos no próximo sábado, 21 de junho.