Mariano Rajoy, antecessor de Pedro Sánchez na presidência do Governo espanhol e membro do Partido Popular, não recuou nas afirmações publicadas no jornal El Debate na sexta-feira, que geraram acusações de racismo. França “possui uma equipa de alto nível”, escreveu na coluna de opinião que assina. “Dito isto, não tem nenhum jogador francês.” Na entrada seguinte, publicada na terça-feira com o título “Há que ter bom humor”, Rajoy não repetiu as afirmações, mas criticou a atenção mediática que lhe foi dirigida e a polarização do público, que só provocam “ruído” e “distraem as atenções”.
“Obrigado a todos por continuarem a ler-me”, agradeceu o político, após tecer fortes elogios à seleção espanhola, que na noite de terça-feira eliminou a França no Campeonato Mundial de futebol. “Os jogadores estão a trabalhar muito bem e dão tudo depois de uma temporada cansativa, em que se viram obrigados a participar num sem-fim de jogos.”
Apesar do desempenho “excecional” da equipa, que destronou o adversário, favorito dos “meios de comunicação, casas de apostas [e] do mundo do futebol em geral”, Rajoy dá conta da atenção “desproporcionada” que as suas declarações mereceram do público e de figuras políticas proeminentes.
Insistindo nos agradecimentos, endereçados às pessoas que falaram a Rajoy na “rua, sobretudo ontem e hoje”, o membro do Partido Popular afirmou que “é preciso ter bom humor para [o] cumprimentar”. “Em especial, obrigado às autoridades pela atenção que me prestaram neste Mundial. É pena que tanto esforço dedicado a exaltar as minhas virtudes as tenha distraído de outras questões. De questões que importam aos espanhóis, que estão na mente de todos, que preocupam as pessoas e deviam ocupar essas autoridades.”
“Interessa-lhes mais fazer queixas a um ministro estrangeiro ou prestar reverência a um primeiro-ministro”, acrescentou o antigo líder do Governo espanhol, numa referência aos elogios tecidos a Pedro Sánchez após criticar as afirmações “xenófobas” e “envergonhantes” do seu antecessor na rede social X. O debate político destes assuntos visa apenas “provocar ruído, distrair a atenção, alvoroçar — e tudo para que não se fale do que estamos a viver.”
Interpelando diretamente o Partido Socialista (PSOE), no poder, Rajoy admitiu que “eles não pedem desculpa por nada. Isso, pelos vistos, apenas é exigido a outros”. Em causa, estão os vários escândalos de corrupção que envolvem a família de Pedro Sánchez, antigos ministros do seu executivo e militantes do PSOE. Tendo reconhecido o comportamento irregular daqueles que já foram condenados pela justiça, entre os quais o ex-ministro José Luis Ábalos e o seu assessor Koldo Garcia, Sánchez continua a defender a integridade da mulher, Begoña Gómez, e do irmão, David.
Governantes franceses, como o ministro da Administração Interna (Laurent Nuñez) e Naïma Moutchou, que detém a pasta dos Territórios Ultramarinos, também criticaram as intervenções de Rajoy. A Federação Francesa de Futebol juntou-se e rejeitou a afirmação sobre os jogadores que tutela, dando conta de que não precisam de “certificados de nacionalidade [atribuídos por] um ex-primeiro-ministro espanhol”.
Les propos de Mariano Rajoy évoquant l'équipe de France comportent des relents de racisme intolérables.
Et interrogent sur le détestable climat qui génère de tels remugles.
Nos joueurs n'ont aucun certificat de nationalité à recevoir d'un ancien Premier ministre espagnol.…— Philippe Diallo (@PhilippeDiallo) July 12, 2026
Lamine Yamal, o jogador-promessa da seleção espanhola, abordou o artigo escrito por Rajoy, quando foi questionado por um jornalista a esse respeito. Na conferência de imprensa realizada esta segunda-feira, o futebolista de 19 anos afirmou: “Vamos jogar uma partida muito bonita, mas se o futebol serve para alguma coisa é para integrar. França e Espanha são um exemplo de integração. O futebol é isso […]. Não vou falar do que disse outra pessoa”.