Já se sabia que a gravação existia e que estava nas mãos do FBI. Mas o seu conteúdo não era totalmente conhecido. Até à madrugada desta quarta-feira, quando a CNN divulgou os primeiros excertos do áudio que as autoridades norte-americanas encontraram nas buscas que fizeram ao gabinete do advogado do Presidente dos Estados Unidos, Michael Cohen. Na gravação, pode ouvir-se Donald Trump a discutir com o seu advogado a forma de comprar os direitos da história que a ex-modelo da Playboy Karen McDougal estava a tentar vender à imprensa, alegando que tinha mantido uma relação extra-conjugal com o atual Chefe de Estado entre 2006 e 2007.

O áudio foi gravado por Michael Cohen em 2016, em plena campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. No registo,  o advogado do então candidato republicano sugere “abrir uma empresa” para “fazer a transferência” ao “amigo David.” Cohen estava a referir-se a David Pecker, amigo próximo de Trump e proprietário da American Media, que detém, entre outros títulos, o tabloide National Enquirer. A estratégia passava por adquirir os direitos da história para impedir a sua divulgação. Trump inicialmente questiona o advogado – “qual transferência?” – mas o seu advogado prossegue.

Existe, no entanto, a dúvida sobre o destinatário final do pagamento. Na prática, presidente e advogado queriam comprar o silêncio da ex-modelo, que pretendia vender a história aos meios de comunicação social. Sendo Pecker um amigo próximo de Trump, o pagamento podia ser feito de duas maneiras: à modelo, através da American Media, ou ao próprio Pecker, como forma de pagar o “favor” de ter adquirido a história para a abafar.

Mais à frente, no áudio, Cohen é peremptório: “Temos de pagar.” Na resposta, Trump alegadamente ordena que o pagamento seja feito “em cash“. No entanto, as condições da gravação não são as melhores, e não é claro se o Presidente dos Estados Unidos sugere que o pagamento seja feito em dinheiro ou se se recusa a que este seja feito de todo.

Segundo a ex-modelo, o acordo foi de facto assinado a troco de 150 mil euros e, em março, entrou com uma ação em tribunal para poder falar sobre o assunto. Numa entrevista que McDougal deu à CNN no início do ano, a ex-ceolhinha da Playboy assegurou que a relação era amorosa e consensual. Donald Trump nega todas as acusações e diz que a relação nunca existiu.

A CNN divulgou a gravação no programa “Cuomo Prime Time” e adiantou que o áudio foi entregue pelo advogado de Michael Cohen, Lanny Davis.

O áudio foi depois também divulgado pela ABC. Pode ouvi-lo na íntegra neste vídeo:

Leia aqui a transcrição da gravação na íntegra. Foram acrescentadas notas sempre que se considerou necessário para entender a conversa:

TRUMP: (Ao fundo) Boa. Mantém-me a par, ok? Oh, oh. Talvez por causa disto seja melhor não ires, sabes? Talvez, por causa disto. Aqui, o que acho que deves fazer é livrar-te disto. Porque é tão falso o que estão a dizer, é tão treta. Hm. (Pausa). Eu acho, eu acho que isto desaparece depressa. Creio que provavelmente a melhor coisa a fazer é aquilo de Charleston [não se sabe a que se estaria a referir Trump]. Sim. Duas semanas parece-me bem. Acho que… que por agora é melhor. Sabes? Ok. Hm. Cuida-te. Obrigado, babe. Sim, estou orgulhoso de ti. Adeus.

[Depreende-se que tenha olhado para o telefone]: O que está a acontecer?

COHEN: Boa sondagem, já agora.

TRUMP: Sim?

COHEN: Já vi. Boa sondagem.

TRUMP: Estamos a fazer progressos.

COHEN: Grande momento.

TRUMP: E o teu rapaz é bom. É bom.

COHEN: Quem, o Pastor Scott [desconhece-se a quem se refere]?

TRUMP: Não acredito. Não, Pastor Scott. O que… o que é que se passa? —

COHEN: Não —

TRUMP: Podemos usá-lo mais vezes?

COHEN: Oh, sim, centenas — não, estás a falar do Pastor Mark Burns [comentador apoiante de Trump]. Ele é… Nós dissemos-lhe para [IMPERCETÍVEL].

TRUMP: Não preciso disso — Mark Burns, estamos a usá-lo?

COHEN: Não, não.

MULHER NÃO IDENTIFICADA: Richard [IMPERCETÍVEL]. Desculpa, Richard [IMPERCETÍVEL] acabou de ligar. Ele — quando puderes, ele tem uma ideia para ti.

TRUMP: Ok. Boa.

COHEN: Hm. Então, fomos intimados pelo New York Times. Eu disse-te isto — nós estávamos…

TRUMP: A quê?

COHEN: … Para entregar os papéis do divórcio com a Ivana. Hm, estamos a combater isto. O [Marc] Kasowitz [advogado de Trump] vai —

TRUMP: Eles não podem conseguir isso.

COHEN: Nunca. Nunca. O Kasowitz acha que eles nunca vão conseguir. EleS não têm —

TRUMP: Traz-me uma Coca-Cola, por favor!

COHEN: Não têm um propósito legítimo, por isso —

TRUMP: E tu tens uma mulher que não quer isto.

COHEN: Correto.

TRUMP: De quem tu tens estado a tratar.

COHEN: Sim. E —

TRUMP: E já dura há algum tempo.

COHEN: Há cerca de duas, três semanas.

TRUMP: Tudo o que tens de fazer é atrasar para —

COHEN: Mesmo depois disso, nunca vai ser aberto. Não há… não há bases legais para que seja aberto. Hm, falei-te de Charleston. Hm… Preciso de abrir uma empresa para a transferência de toda aquela informação sobre o nosso amigo David [Pecker]. Tu sabes… para que — vou fazer isto da forma correta. Cheguei e falei —

TRUMP: Dá-me e arranja-me uma [IMPERCETÍVEL].

COHEN: E falei com o Allen Weisselberg [empresário norte-americano] sobre como deveríamos montar tudo com…

TRUMP: Então temos de pagar por isto? Um ponto cinquenta? [referir-se-á à verba de 150 mil dólares que a ex-modelo diz ter recebido em troca da história]

COHEN: … Financiamento… Sim. Hm. E é tudo.

TRUMP: Sim, estava a pensar nisso..

COHEN: Tudo isso. Porque aqui nunca se sabe onde é que a empresa… não se sabe o que ele…

TRUMP: Talvez seja atropelado por um camião.

COHEN: Correto. Estou em cima disso. E falei com o  Allen sobre isso, quando chegar a altura do financiamento, que será —

TRUMP: Espera aí, que financiamento?

COHEN: Bom, terei de pagar-lhe alguma coisa.

TRUMP: [IMPERCETÍVEL] paga em cash.

COHEN: Não, não, não, não, não. Eu trato disso.

TRUMP: Certo.

[A gravação acaba repentinamente]

(artigo atualizado às 9h43)