Donald Trump ameaçou suspender as exportações de gasóleo e a Europa cedeu, até certo ponto. O compromisso para a libertação extraordinária de reservas estratégicas alcançado esta sexta-feira não terá exatamente a composição, o calendário e os protagonistas que os Estados Unidos exigiam. O acordo foi forjado numa reunião de emergência dos sete países mais ricos do mundo, sob a coordenação do Presidente francês, Emmanuel Macron. Mas o resultado foi anunciado primeiro ao mundo pelo Presidente americano numa publicação na rede social Truth Social.
Os barris a libertar serão os 100 milhões pedidos pela administração Trump, mas não serão necessariamente todos de gasóleo. O comunicado do G7 refere que haverá uma libertação antecipada e substancial de reservas deste combustível nos primeiros 20 dias de um calendário de entregas que durará 4 meses. Por outro lado, os Estados Unidos subscrevem o compromisso “de evitar restrições às exportações de energia e produtos energéticos entre países do G7 e apelar a todos os produtores para se absterem de impor suspensões que possam exacerbar as tensões do mercado”.
A disponibilização dos stocks de segurança será concretizada através da Agência Internacional de Energia que foi a entidade que liderou a primeira descarga de reservas de segurança decidida após o fecho do Estreito de Ormuz à navegação pelo Irão. Na altura, Portugal participou deste esforço. O Governo ainda não se pronunciou sobre a decisão tomada no G7.
Há semanas que circula a informação de que Donald Trump estava a ponderar congelar as exportações de gasóleo americano com o intuito de inverter a subida de preços sentida no mercado interno, antes das eleições para a Câmara dos Representantes. O impacto de uma medida desta natureza num momento de grande défice na oferta mundial de gasóleo estava a preocupar investidores e os países importadores — onde se inclui boa parte da União Europeia.
Mas também havia alertas de que esta medida poderia, a prazo, reduzir a oferta americana de gasóleo, prejudicando em vez de beneficiar o mercado interno. Foi neste caldo que as cotações do gasóleo atingiram um recorde mundial há cerca de duas semanas.
Apesar de algum alívio sentido nos preços finais desde a última semana, a administração americana voltou à carga e abordou os governos alemão e francês para estes libertarem uma parte dos stocks nacionais estratégicos de gasóleo. Em caso de recusa, os países arriscavam sofrer as consequências de um travão às exportações made in USA.
O “pedido”, segundo a agência Reuters, terá sido dirigido aos maiores consumidores europeus com o intuito de colocar em mercado 100 milhões de barris de diesel numa janela temporal de 20 dias. Para além da Alemanha, França e Itália, também o Reino Unido poderia vir a ser chamado a intervir com as suas reservas.
Um porta-voz da Comissão Europeia “rejeitou totalmente” a ameaça feita pelos Estados Unidos de banir as exportações de diesel se a Europa não despejar reservas no mercado. “Uma suspensão (das exportações) não iria beneficiar ninguém. Iria degradar a nossa confiança nos Estados Unidos como um parceiro de confiança”, afirmou à Reuters.
Mas Emmanuel Macron, que preside em nome da França ao grupo dos sete países mais ricos, discutiu com Donald Trump a necessidade de um combate conjunto à escalada dos preços e para garantir a disponibilidade global do gasóleo, segundo uma nota divulgada pelo Palácio do Eliseu esta sexta-feira de manhã.
De acordo com o Politico, nas negociações de emergência realizadas esta sexta-feira, Paris propôs aos parceiros europeus que libertassem 50 milhões de barris dos stocks de diesel. Esta percentagem corresponde a 17% dos stocks de segurança deste combustível na Europa e representa 3% do consumo anual. Caberia à Agência Internacional de Energia colocar outros 50 milhões de barris no mercado, mas de crude e não de refinados.
O Presidente francês remeteu a decisão para uma reunião de emergência dos países do G7 que se realizou esta sexta-feira à tarde e da qual saiu um compromisso com vários pontos:
- Monitorização das medidas anunciadas hoje [sexta-feira] pelo G7 por parte da Agência Internacional de Energia, juntamente com a redação de um relatório em menos de 20 dias sobre a implementação das medidas para incluir “recomendações acionáveis para reforçar respostas futuras, incluindo a reposição de reservas”
- Coordenação dos calendários das refinarias dos membros do G7 para “evitar paragens simultâneas de capacidade e aumentar temporariamente as taxas de utilização onde for viável”
- Encorajamento ao diálogo com países com grandes capacidades de refinação de crude para “aumentar a produção global de produtos refinados”, sobretudo diesel.
- “Libertação coordenada” de 100 milhões de barris de combustível através da “implementação completa” por parte da Agência Internacional de Energia da libertação de 400 milhões de barris de petróleo, conforme acordado em março.
- Reunião no contexto da Agência Internacional de Energia nos próximos dias, para debater a possibilidade de mais libertações de diesel, se tal for necessário
- Os países vão evitar restrições às exportações de produtos energéticos e incentivar os produtores nesse sentido. Os Estados Unidos ameaçaram suspender as exportações de combustível se os parceiros europeus não libertassem as suas reservas.
- Manutenção das sanções à Rússia
- Exigência na restauração dos direitos de navegação no Estreito de Ormuz
- Trabalho conjunto com a Agência Internacional de Energia e parceiros globais para “evitar novos impactos secundários nos mercados de combustíveis, gás e outras matérias-primas”.
Dependência da Europa do diesel americano quase duplicou num ano
A sustentar a pressão dos Estados Unidos está a crescente dependência dos países europeus das exportações americanas de diesel. Desde que rebentou a guerra da Ucrânia, e foram impostas sucessivas ondas de sanções à Rússia — o maior produtor mundial de diesel, que a Europa passou a comprar mais produtos aos Estados Unidos. Com o bloqueio no Estreito de Ormuz a dificultar o fornecimento a partir do Médio Oriente, os países europeus aumentaram ainda mais as compras de diesel americano.
Esta dependência crescente da energia americana verifica-se em outros produtos energéticos, como o gás natural.
Europa foge do gás russo para cair na dependência do gás liquefeito dos Estados Unidos
Segundo dados avançados por um analista da consultora Kpler à Euronews, a quota do gasóleo comprado aos Estados Unidos saltou de 17% em 2025 para quase o dobro — 32% — este ano. O grau de dependência é maior no norte da Europa, onde os abastecimentos americanos correspondem a 57% das importações de diesel, ainda de acordo com números da Kpler. França é apontada como um país especialmente vulnerável, com 36% das importações deste combustível a serem asseguradas pelos Estados Unidos. Emmanuel Macron admitiu que um cenário de bloqueio total nas exportações americanas seria “catastrófico”.
Os ataques da Ucrânia às refinarias russas estão a apertar ainda mais a oferta mundial de gasóleo, na medida em que a Rússia limitou as exportações para conseguir abastecer o mercado interno. Ainda que a Europa não compre diretamente à Rússia, o desaparecimento do diesel russo do mercado global só torna mais complicada a vida de todos os importadores que têm de disputar as cargas disponíveis, fazendo subir os preços. Alguns países do Mediterrâneo, como a Turquia, vendiam o gasóleo que refinavam a alguns países do leste da Europa e aproveitavam para comprar o diesel russo com desconto.
A Rússia mostrou-se disponível para retomar as exportações, mas só se a produção interna superar as suas necessidades, o que pressupõe que a sua capacidade não seja posta em causa pelos ataques ucranianos.