A poucos dias de expirar o prazo para o registo de candidaturas às eleições presidenciais brasileiras, que serão celebradas a duas voltas em outubro deste ano, a esquerda entrou numa guerra intestina onde o ponto de discórdia surge quando se pergunta: a seguir a Lula, quem se segue?

No dia em que foi preso, poucas horas antes de se entregar, o ex-presidente e líder do PT discursava para uma multidão de apoiantes a partir de um palco montado à entrada do sindicato metalúrgico do ABC, que Lula dirigiu noutra vida. Ali, disse uma frase que marcou o seu discurso de mais de uma hora: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as ideias”.

No entanto, o PT e o próprio Lula vão contra esta ideia no que toca às eleições de outubro. Isto porque, aqui, não é só as ideias de Lula que querem levar às urnas — é também o próprio Lula, mesmo apesar dos contrangimentos legais que certamente vão surgir diante deste homem que está a cumprir uma pena de 12 anos de prisão por corrupção passiva e branqueamento de capitais.

O número 2 com passagem administrativa a número 1

Para o PT, a frase que marca a sua estratégia pública e assumida é esta: “Não há plano B”. Só há, portanto, um plano L. De Lula, claro.

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No entanto, quando estiverem reunidos este sábado, 4 de agosto, para fecharem as listas do PT para as eleições presidenciais, há um nome que importa escolher além daquele que já está decido: o de candidato a vice-presidente.

A candidatura de Lula é mais um finca-pé do PT do que uma garantia. Do lado das certezas, sobra sobretudo a de que o ex-presidente vai ser impedido de se candidatar pela Lei da Ficha Limpa, diploma criado durante a governação de Lula que impede que políticos condenados concorram a cargos públicos. Recentemente, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão ao qual cabe deliberar perante uma denúncia a qualquer candidatura, disse que mesmo que o PT avançasse com Lula isso não impediria a sua “inelegibilidade chapada”.

Desta forma, é no número dois do PT que pode estar, verdadeiramente, o candidato número um dos petistas. Isto porque, até meados de setembro, caso a justiça inviabilize a candidatura de Lula, o PT ainda irá a tempo de mudar os nomes da lista. Se mesmo depois dessa ocasião o PT continuar a insistir em Lula, a sua candidatura passa a ter um valor nulo.

Manuela d’Ávila, do Partido Comunista do Brasil, é uma das favoritas a ser a número 2 da lista do PT — e possível candidata à presidência caso Lula se retire

Dentro do PT, há várias sensibilidades quanto ao nome a escolher para o candidato a vice-presidente. No entanto, há dois nomes que são avançados com mais regularidade — e cada um leva um rumo diferente. O primeiro é o de Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, homem próximo de Lula e também da ala mais moderada do partido, capaz de encetar conversas com o centro. O segundo é o de Manuela d’Ávila, candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), força política que está na órbita do PT e que permitiria a formação de uma frente de esquerda mais ampla. Apesar de ser de fora do partido de Lula, Manuela d’Ávila age já como se fosse da casa — bastando as imagens da concentração pró-Lula de abril no sindicato do ABC, onde era frequente vê-los lado a lado.

Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e militante do PT, também é apontado como uma provável escolha para número 2 nas eleições

Um pouco pela imprensa brasileira, surgiu também a notícia de um terceiro nome para candidato a vice-presidente na lista do PT, falando-se inclusivamente de que lhe teria sido feito um convite para ser o número dois de Lula — convite esse que terá sido recusado pelo próprio. Trata-se de Ciro Gomes. E é com ele que a guerra à esquerda começa.

Ciro, o ex-ministro de Lula a quem o PT trocou as contas

Ciro Gomes quer ser Presidente do Brasil, mas a façanha adivinha-se cada vez mais difícil. Ex-deputado e ainda hoje militante do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Ciro Gomes tem também no seu currículo o facto de ter sido ministro de Lula — entre 2003 e 2006 assumiu a pasta da Integração Nacional.

A candidatura à presidência é um tema que vem abordando publicamente já desde 2015, altura em que o impeachment de Dilma Rousseff, a subida ao poder de Michel Temer e a prisão de Lula eram apenas pesadelos de uns e sonhos de outros. Mas, à medida que tudo isso se veio concretizando, Ciro Gomes começou a avançar com mais segurança para as urnas, declarando-se como um forte candidato do centro-esquerda.

Ciro Gomes foi ministro de Lula e é candidato pelo PDT. Procurava o apoio do PT, mas este trocou-lhe as contas a poucos dias do prazo para fechar as candidaturas

A jogada de Ciro Gomes era complexa. Mantendo-se no centro-esquerda que caracteriza do seu PDT, o ex-ministro queria atacar a direita e ao mesmo tempo abrir espaço para uma introspeção à esquerda que permitisse deixar o lulismo para trás. Ciente de que o seu partido tem uma base de apoio relativamente fraca — um facto atribuível em grande parte à pulverização partidária que existe no Brasil, cujo parlamento conta com 28 partidos —, Ciro Gomes sabia que só podia ir em frente se chegasse a acordo com outros partidos. E o PT, ciente também disso, cortou-lhe o caminho.

Uma das principais forças com quem o PDT de Ciro Gomes quis chegar a acordo é o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Além de contar com mais apoios e potenciais eleitores para a lista de Ciro Gomes, ao conseguir puxar o PSB para a sua órbita, o PDT teria também direito a mais tempo de antena nas televisões e rádios e também a mais financiamento para a sua campanha. Aos 30 segundos e 61,4 milhões de reais (14,3 milhões) que deverá ter sozinho, passaria a ter direito a mais 47 segundos e a mais 118 milhões de reais (27,5 milhões de euros).

Tudo isto passou do condicional para a negativa quando, esta semana, o PT fechou um acordo com o PSB que funciona como uma espécie de pacto de não-agressão — conseguindo, na prática, o isolamento de Ciro Gomes e do PDT nas eleições de outubro. O pacto selado entre o PT e o PSB prevê uma série de concessões de parte a parte.

Do lado do PT, existe o compromisso de apoiar o PSB em quatro eleições para governador, no estados do Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Amapá. Do lado o PSB, além de se abrir mão das eleições estaduais de Minas Gerais, há uma promessa importante a nível nacional: a neutralidade a nível nacional. Ou seja: da sua parte, o PSB não só não será um entrave aos candidatos do PT como até pode ajudá-los.

Ciro Gomes critica a insistência do PT em ter Lula como candidato: “O comportamento do PT de insistir numa candidatura que tende a ser impugnada é hostil à sorte do povo brasileiro”

A ideia é assinada de cruz por Gleisi Hoffman, a presidente do PT, mas o papel de Lula nesta decisão é dado como fulcral. “Vocês acreditam que existe alguma coisa que seja aprovada no PT que não tenha o apoio ou o conhecimento de Lula”, perguntou Humberto Costa, senador do PT, numa reunião do partido em Recife, no estado de Pernambuco.

A frase de Humberto Costa não surgiu por acaso. É que, quando lá chegou, de acordo com o Diário de Pernambuco, foi recebido a gritos de “golpista!” pelos camaradas de partido que não receberam de boa-vontade o afastamento da candidatura do PT à corrida para o cargo de governador em Pernambuco após uma decisão do núcleo nacional dos trabalhistas.

Dentro do PT, foram várias as reações a criticar o afastamento de Marília Arraes, candidata do PT em Pernambuco. “Peço a Deus e às forças do além, que eu não esteja entendendo bem que foi feito um acordo PT-PSB, que descarta a candidatura da Marília Arraes ao Governo Pernambuco, o grande quadro renovador da esquerda do nordeste! Aguardaremos”, escreveu o militante do PT Tarso Genro, célebre por ter sido governador do Rio Grande do Sul e ministro de Lula em três pastas (Educação, Relações Institucionais e Justiça).

Wadih Damous, deputado do PT, também acudiu ao Twitter para criticar a cedência estadual que cúpula dos trabalhistas fez para obter a neutralidade do PSB a nível nacional. “A decisão pró-PSB em Pernambuco dói na minha alma e na alma da militância. Em nome de um acordo regional, afasta-se uma liderança promissora como Marília Arraes. Um grave erro político”, escreveu esta quarta-feira.

Fora do PT, mas importante para esta história, também Ciro Gomes teceu várias críticas à decisão do partido de Lula de chegar a acordo com o PSB. Numa entrevista à Globonews, falou diretamente da sua desilusão com Lula — “tenho sentimentos de frustração, não sei o que fiz para merecer esse tipo de tratamento dele” — e criticou abertamente a decisão do PT de manter o ex-presidente como candidato:

“Eles não estão pensando no país. Querem perpetuar um projeto de poder. O comportamento do PT de insistir numa candidatura que tende a ser impugnada é hostil à sorte do povo brasileiro”.

Sondagens dão contas difíceis à esquerda sem Lula

Não é por acaso que o PT se quer agarrar à figura de Lula até quando der. A generalidade das sondagens prevê, no caso muito improvável de o ex-Presidente poder concorrer às eleições, uma vitória na primeira e na segunda volta das eleições de outubro.

Nas sondagens de julho, são apontados a Lula resultados oscilando entre os 29% e os 31% na primeira volta. E, numa segunda volta, apontam as sondagens, venceria contra três dos candidatos adversários que podem passar a uma segunda volta: Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (REDE).

O mesmo não se passa quando são colocadas outras opções mais realistas à esquerda. Nesse caso, a derrota é quase certa logo à primeira volta.

No caso de Fernando Haddad ser o candidato número 1 do PT, as sondagens de julho apontam para resultados entre os 2% e os 13%. Também à esquerda, Ciro Gomes surge entre os 4% e os 13%. No caso de uma segunda volta, apontam para já as sondagens, perderiam os dois contra Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin ou Marina Silva.