Lopetegui podia ter começado melhor no Real Madrid. E nem falamos da entrada em falso com a derrota aos pés do rival madrileno na Supertaça Europeia. Recuamos um pouco, ao início do Mundial. Aí, quando Lopetegui era técnico da seleção espanhola, não era contestado, mas estava longe de ser consensual. Mas nem os mais acérrimos críticos do espanhol que passou pelo FC Porto em 2014/15 e saiu a meio da temporada seguinte esperavam o desfecho a que se assistiria: perante a saída de Zidane, o Real Madrid anunciou a contratação de Lopetegui em vésperas da estreia espanhola no Campeonato do Mundo.

A notícia caiu que nem uma bomba na imprensa espanhola, no seio dos 23 eleitos que se encontravam na Rússia, questionou de alto a baixo a estrutura da Federação Espanhola e, na perspetiva merengue, deixou os adeptos que se habituaram a ver Cristiano Ronaldo em campo a pensar em como seria lidar com Lopetegui no banco. E não pela qualidade do técnico espanhol, longe disso, já que Lopetegui é bem visto no seu país pelo trabalho bem feito nos escalões de formação das seleções espanholas e acima de tudo pelos Campeonatos da Europa Sub-19 conquistados em 2011 e 2012, e Sub-21, ganho em 2013.

O Real Madrid até esteve a ganhar na estreia de Lopetegui no banco, mas o Atlético acabou por virar o jogo para 4-2 e conquistar a Supertaça Europeia (Créditos: Getty Images)

O que não caiu bem nos adeptos madrilenos foi o timing do anúncio, o vazio deixado numa seleção que rapidamente agarrou Hierro para o lugar de técnico principal, mas que nunca mais foi a mesma, e a prestação na Rússia deixou-o bem patente. Lopetegui tem algo a provar a um Real que viu sair o melhor jogador do mundo, não viu ainda um substituto à altura e procura a esperança que encontrou na parceria Zidane/Ronaldo em Lopetegui/todo o plantel do Real Madrid.

É que substituir Ronaldo não se avizinha fácil e Lopetegui já fez saber que conta com todo o grupo para repetir as conquistas europeias do passado recente e voltar aos títulos internos que vão alternando (com ligeiro pendor para os blaugrana) entre Madrid e Barcelona. E, se a Supertaça Europeia disputada na Estónia e perdida para o Atlético de Madrid não foi o início desportivo desejado, a verdade é que já passou. O Atlético venceu por 4-2, o Real sentiu a falta de Ronaldo, mas ainda não se ouviu ninguém a pedir o regresso de Zidane.

Lopetegui tem crédito e começava a gastá-lo na estreia no Santiago Bernabéu, no primeiro jogo da Liga Espanhola, frente ao vizinho Getafe. Mostrava que não tinha ficado satisfeito com a derrota inaugural e fazia mexidas no onze, mas não as que se esperavam: ainda não foi desta que Courtois se estreou, com o belga sentado no banco e Keylor Navas na baliza; no meio-campo, Modric continuou sentado, mas ganhou a companhia de Casemiro, substituído no onze por Dani Ceballos, jovem criativo merengue. Na frente de ataque continuavam Bale, Benzema e Asensio, assim como na defesa Marcelo, Nacho, Sérgio Ramos e Carvajal parecem ter lugar cativo, com Varane ainda fora devido à presença prolongada no Mundial.

E foi da cabeça do lateral direito espanhol que começou a ser escrita a estreia de Lopetegui na Liga Espanhola e o triunfo do Real na primeira jornada: cruzamento de Bale, desvio de Soria e Carvajal, de cabeça, a fazer um chapéu de fazer sorrir qualquer adepto presente no Bernabéu. Adeptos mas não o treinador, já que Lopetegui assistiu ao primeiro golo do Real na partida e no Campeonato sentado, sem reação, sem um sorriso. Mas terá ficado certamente, senão satisfeito, pelo menos, aliviado.

Os merengues iam dominando a partida e demonstravam bom futebol, mas pouca pontaria, com Bale e Asensio a porem à prova Soria por várias vezes, quase tantas como aquelas em que erraram o alvo. Perto do intervalo, quase que houve uma grande penalidade sobre Benzema, mas afinal o francês estava fora de jogo e tudo chegou ao descanso com 1-0 para o Real e uma estreia no Campeonato bem melhor do que a Supertaça Europeia.

Mas era preciso recordar que, nesse encontro da Estónia, foi exatamente no segundo tempo que o Real se perdeu e viu o Atlético de Madrid tomar conta do jogo, ganhando vantagem já no prolongamento. Como mais vale prevenir do que remediar, Bale decidiu acrescentar um ponto a este conto inaugural de Lopetegui e, assistido por Asensio, atirou a contar para o 2-0, que permitia ao técnico espanhol respirar de alívio, ainda que, pouco tempo depois, já aparecesse novamente nas câmaras a gritar para corrigir posicionamentos.

Pelo meio, saltou. Quase festejou, mas o tiro de Asensio embateu no poste e a festa não aconteceu. Mas não foi por isso que o ambiente no Bernabéu deixou de estar animado, com os madrilenos que encheram o histórico recinto do Real a mostrarem que tinham saudades de ver a sua equipa em ação.

À passagem da hora de jogo, só dava Real e o Getafe contava quatro amarelos, os únicos da partida. O encontro estava controlado, o terceiro golo da equipa da casa estava mais perto do que o primeiro dos forasteiros, mas nem por isso Lopetegui descansava e eram muitas as indicações que passava para o interior do terreno.

É verdade que o Getafe quase reduziu quando faltavam 15 minutos por jogar, mas também é verdade que foi numas das poucas ocasiões de perigo que criou durante todo o encontro. O Real Madrid pós-Zidane e Ronaldo é, desde já, mais solidário defensivamente, defendendo num bloco mais coeso. Por aí se explica a falta de oportunidades do Getafe e a segurança defensiva do Real Madrid, sempre sob o olhar atento de Lopetegui, que pedia atenção a Sérgio Ramos, a oito minutos do final. Com mais ou menos desconcentrações, os merengues conservavam a vantagem de 2-0 e levaram os primeiros três pontos da Liga para casa. 

Sem Cristiano, as atenções das bancadas viram-se cada vez mais para Bale, que, na estreia na Liga, correspondeu. O extremo galês cedeu o lugar a Lucas Vásquez ao minuto 77, com um golo e uma meia assistência (a meias com Soria, guardião do Getafe) e alimenta as esperanças dos adeptos do Real, que à falta de substituto exterior, encontram em Bale o sucessor natural de Ronaldo.

Tal como Lopetegui sucedeu a Zidane, com o objetivo de continuar a escrever uma história colocada a um patamar muito elevado. Se o espanhol terá mais ou menos êxito do que o francês, não é possível dizer. O que é certo é que a estreia na Liga já foi melhor do que o encontro da Supertaça. E depois de perder Ronaldo e o primeiro troféu da época, tudo o que sejam melhorias é um bom sinal para o Real Madrid.