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Cientista diz que fogo no Museu do Rio era expectável. Governo de Temer acusado de não dar dinheiro à cultura

Este artigo tem mais de 3 anos

Cientistas entraram no edifício em chamas para salvar objetos, mas ficaram quase todos perdidos. Uma investigadora no museu diz que incêndio era expectável. Há quem culpe Temer por desinvestimento.

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Getty Images

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Quando os bombeiros chegaram às portas do Museu Nacional do Rio de Janeiro não havia água no edifício para combater as chamas, apesar de o parque da Quinta da Boa Vista ter um lago ali perto. Enquanto os bombeiros esperavam pelos carros carregados de água, um incêndio de grandes dimensões ameaçava as duas centenas de história da mais antiga instituição científica do Brasil. Quem todos os dias trabalhava ali dentro não suportou a espera: os investigadores arriscaram a própria vida, saltaram as barreiras de segurança delineadas pelas autoridades e entraram no edifício na esperança de salvarem 20 milhões de artigos de botânica, zoologia, paleontologia, geologia, antropologia e documentos históricos. Mas de pouco serviu: o Museu Nacional do Rio de Janeiro sucumbiu ao fogo. E agora “não há muito que fazer”.

Eram 19h30 no Rio de Janeiro, mais quatro horas em Lisboa, quando isto aconteceu, conta ao Observador Mariana Galera Soler, investigadora brasileira na área da museologia que está neste momento em Portugal a terminar o doutoramento na Universidade de Évora. Em junho deste ano, Mariana esteve no Museu Nacional para revisitar a exposição “Conchas, Corais, Borboleta”, a mesma que tinha estudado em 2013 quando redigiu a tese de mestrado: “Voltei lá para observar as alterações à coleção nos últimos quatro anos. O Museu Nacional tinha acabado de receber 20 milhões de reais e andava a repensar ideias para novas exposições e planear uma estratégia de restauro e conservação. Havia uma nova esperança dentro da instituição”, recorda Mariana. Um mês depois, essa esperança foi dizimada pelo fogo.

Para a investigadora brasileira, natural de São Paulo, é “um absurdo” dizer que não houve perdas humanas agora que o Museu Nacional ficou completamente destruído: “É verdade que não morreu ninguém com o incêndio e ainda bem. Mas com isto morreu um pouco de cada brasileiro: na Europa os primeiros museus são históricos ou de arte, mas no Brasil são os de história natural. E isto põe muitas vidas em suspenso. Há muito estudantes em desespero que só pensam no que vão fazer agora porque perderam todos os documentos para as teses, até os computadores”, sublinha Mariana Soler.

A investigadora até vai mais longe: “O Museu Nacional é das primeiras referências da América Latina. A proporção deste incêndio afeta o mundo todo. Havia lá exemplares de espécies novas que ainda não tinham sido descritas, algumas delas nem sequer podem ser recuperadas porque viviam em sítios que já não existem”. Todos os insetos que estavam guardados dentro do Museu Nacional foram perdidos. A coleção que Mariana Soler estudou também foi destruída porque estava na região mais afetada do edifício. Os artigos que se salvaram estavam armazenados em infraestruturas anexas ao edifício principal, incluindo alguns que testemunham a ligação histórica entre Portugal e Brasil e a passagem da família Bragança por aquelas bandas.

De Luzia aos dinossauros, o que se perdeu no Museu do Rio?

Mas a maior de todas as perdas foi o importante acervo de coleções de antropologia: “As coleções de antropologia biológica foram completamente destruídas. Estou a falar das coleções biológicas, como a Luzia [fóssil mais antigos das Américas] e outros fósseis que testemunham e evolução humana. Mas também se perderam as coleções de antropologia social, as que se referem às tribos indígenas mais antigas do Brasil e que testemunham a origem do país. Estamos a falar de objetos feitos de palha, de barro, de penas, tudo materiais mais sensíveis que sucumbiram ao incêndio. Por razões históricas, algumas dessas tribos foram massacradas, então há uma parte gigantesca da cultura indígena brasileira que desapareceu para sempre. Não pode ser recuperada nunca mais”, explica a cientista ao Observador.

Os espaços dedicados à botânica, aos invertebrados e à paleonteologia foram os mais poupados, mas Mariana Soler diz que mais de 2.800 animais, entre insetos, aranhas, escorpiões e conchas, ficaram destruídas pelo incêndio — também a biblioteca de antropologia e o arquivo do Museu ficou reduzido a cinzas. No meio delas ficou também parte da história de Portugal, recorda ela: “Havia ainda algum mobiliário no interior do Museu Nacional, objetos de ensino da Realeza, algumas pinturas e peças arquitetónicas modificadas no palácio original para receber a Família Real”. No fundo, é a segunda vez que o Brasil sente a perda de uma parte da sua história: em 1978, há quatro décadas, um incêndio em Lisboa consumiu o Museu de História Natural e destruiu coleções que testemunharam os primórdios da colonização do Brasil pelos portugueses.

Investigadores denunciaram falta de condições de manutenção

À semelhança do que aconteceu esta madrugada no Rio de Janeiro, também esse fogo arruinou livros, documentos de pesquisa e teses de doutoramento. Na altura, os primeiros indícios recolhidos pelas autoridades apontavam para uma situação de fogo posto, que acabou por se verificar quando o grupo de extrema-esquerda Comandante Zebra reivindicou a autoria do crime. Sobre o fogo que consumiu o Museu Nacional quarenta anos mais tarde, Mariana Soler diz que nenhum dos investigadores desconfia de fogo posto: “Este é um prédio bicentenário praticamente sem condições de manutenção. Os investigadores denunciaram essas circunstâncias várias vezes ao longo dos anos, mas este é um processo muito burocrático. A verba chegou em junho, mas ainda não tinha havido tempo de por nada em prática”. Mas também ninguém estranha o sucedido: “Nas salas de exposição isso não acontece, mas nas salas onde se guardam as coleções há fios expostos nas paredes. Era fácil haver um acidente grave ali”, descreve ela.

Incêndio. O que falhou no Museu Nacional brasileiro que o fogo destruiu

Nas redes sociais, no entanto, já se começam a apontar dedos. Tem circulado uma ilustração no Facebook com Michel Temer a virar costas ao museu em chamas com uma garrafa de combustível na mão com o rótulo “PEC 241”: “O incêndio no Museu Nacional foi criminoso e o bandido chama-se Michel Temer com a sua PEC [Proposta de Emenda Constitucional] que impõe um teto aos gastos. O museu pedia socorro pelo risco de incêndio desde maio e há duas semanas sofria picos de energia. Como dizia Darcy Ribeiro, o descaso com a educação, a ciência e a tecnologia no Brasil não é uma crise e sim um projeto”.

Sobre o incêndio, o atual presidente do Brasil disse ser “incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional”: “Hoje é um dia trágico para a museologia do nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para a nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros”. Mariana Soler considera que essas declarações são feitas de “reducionismos”: “Não Temer, não é um dia trágico só para a museologia brasileira. É desolador para quem é brasileiro, que assistiu ao vivo à sua história virar cinzas. Não se trata de ‘um monte de bichos empalhados’ ou ‘o acaso resolveu uma dívida do colonialismo’. Reducionismos assim são de uma ignorância sem tamanho. Trata-se do muito pouco que tínhamos de registo da nossa história ter sido perdida. É a história contada pelos objetos que é silenciada. Teses e artigos em repositórios podem ser recuperados (não todos, pois os arquivos históricos também arderam), mas as coleções carregam em si histórias únicas, pelos objetos que são, pelas histórias de coleta e chegada na instituição, pelas histórias de quem trabalhou e trabalha com eles. É desse buraco que se trata. Essa será mais uma das veias e feridas abertas na América Latina“.

Acusações políticas a Temer: “canalha usurpador” que não dá dinheiro à cultura

Em busca de responsabilidades na origem do incêndio, a comunidade científica aponta dedos aos políticos. Walter Falceta, ex-editor do jornal O Globo, escreveu: “É o triste resultado das políticas criminosas da direita brasileira, sempre empenhada em sucatar o património público. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que administra o museu, é vítima deste processo de desmonte do Estado. Vilipendiada, desrespeitada e empobrecida, é símbolo deste momento triste, em que vigora a Nova Ditadura. Há tempos, professores, pesquisadores e até visitantes suplicavam por apoio para a preservação do edifício e de seu riquíssimo acervo. Consertos urgentes eram realizados por meio de ‘vaquinhas’. Uma delas foi para remontar a reprodução do Maxakalisaurus (o Dinoprata), dinossauro que habitou as terras onde hoje se assenta o Brasil”, denuncia.

Walter Falceta acrescenta: “Neste Brasil de pesquisadores humilhados, a única educação que recebe investimento é aquela que forma mão de obra adestrada, abobada e acrítica para as mega-corporações. Neste ano, o canalha usurpador que ocupa o Planalto destinou um bilhão de reais para o Rio de Janeiro. Nenhum centavo deste lote maldito foi destinado às universidades e às instituições culturais. A aplicação serviu apenas para armar as tropas que assassinam a população humilde nos morros e periferias. Pobre Brasil. A culpa é sua, que se deixa enganar. A culpa é sua, que se omite”.

O jornalista sustenta a denúncia com outros exemplos de instituições públicas reduzidas a cinzas por falta de investimento: “Parte da história do Brasil (e do mundo) está virando cinzas. Na verdade, é o resultado das políticas neoliberais que desprezam tudo que é público. O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, foi destruído por um incêndio. O Museu do Ipiranga está fechado, em ruínas. Agora, as chamas consomem o Museu Nacional e 200 anos de esforços de pesquisa e catalogação científica. Uma vergonha para o nosso país, que destrói parte da história do Egito, da África negra, das culturas mediterrâneas e dos povos indígenas brasileiros”.

A página de Facebook “Xadrez Verbal”, que escreve sobre política e história, tem sido muito partilhada nas páginas de redes sociais da comunidade científica brasileira. E comparou o incêndio a um ataque do Estado Islâmico: “Qualquer destruição de património histórico é inaceitável, não apenas quando cometida pelo Estado Islâmico contra algo ‘pagão’. Esse património pertence a todos, e são os pedaços de quem somos, um a um, sendo arrancados. O Brasil renega a sua História, não encara as suas cicatrizes, recusa-se a reconhecer o seu passado, repete erros já cometidos, travestidos de soluções inéditas. Enquanto isso, as possíveis respostas são apagadas, destruídas pelo fogo”. Também essa página dá exemplos desses “erros”, numa publicação que vai com 5.400 partilhas: “Museu Nacional, Instituto Butantan, Museu de Ciências Naturais, Museu da Língua Portuguesa, entre outros, são consumidos pelas chamas. O Museu Paulista, da Independência, está fechado há cinco anos, por risco de desabamento, e assim ficará por pelo menos mais quatro. Para os exemplos mais recentes, sem esquecer que o próprio Estado brasileiro destruiu muitos de seus arquivos”.

Nem só dos cientistas vêm as críticas à classe política brasileira: os próprios políticos têm recorrido às redes sociais para apontar culpas uns aos outros. Manuela d’Ávila, jornalista e política filiada ao Partido Comunista do Brasil, escreveu no Twitter: “Não quer que a tragédia do Museu Nacional aconteça com o Museu Nacional de Belas Artes, com a Biblioteca Nacional, com o Arquivo Nacional? Vote num candidato que vá revogar a PEC do tecto dos gastos”. Essa mensagem foi apagada, mas depois ainda acrescentou o tweet: “A crónica de uma morte anunciada.  O regime do golpe, que corta verbas da educação, da saúde, da cultura, para garantir os interesses dos bancos precisa acabar”. Gleisi Lula Hoffmann, presidente nacional do Partido Trabalhista, também publicou uma imagem do orçamento para o Museu nos últimos anos com a descrição: “O museu é mais uma vítima do golpe, da turma do austericídio: PSDB, Bolsonaro e et caterva! É uma tristeza ver isso”.

Tanto o site “BR18″como o jornal O Globo falam de “politização do incêndio do museu por petistas“: “Enquanto o prédio do Museu Nacional ainda ardia em chamas, políticos e candidatos utilizaram a tragédia para fazer ataques ao governo, ao teto de gastos e ao impeachment de Dilma Rousseff e até para pedir votos. A iniciativa, em maior parte protagonizada por políticos de esquerda, teve forte reação contrária nas redes sociais”, noticiam os meios de comunicação social.

Mariana Soler, que já conversou com outros colegas do Museu Nacional, diz que “há um clima desolador” entre a comunidade de cientistas brasileiros: “Não há muito a fazer. Não há dinheiro no mundo nem mobilização que possa compensar isto. Nem que todos os museus do mundo se juntassem num esforço coletivo sem precedentes podíamos voltar atrás. É uma grande revolta com um sistema que não se preocupou historicamente com a sua conservação. Não há projeto possível para recuperar o que se perdeu. Não há volta a dar“.

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