Além dos terrores bem reais que a assolam diariamente, do trânsito caótico à especulação imobiliária desenfreada, Lisboa vai agora viver, ao longo de seis dias (de hoje, terça-feira, até domingo, 9 de Setembro), os horrores sobrenaturais, psicológicos e policiais de ficção do MOTELX-Festival Internacional de Cinema de Lisboa, que cumpre a sua 12ª edição, com uma programação solidamente estabelecida em todas as habituais secções e actividades paralelas. E pela primeira vez, há duas longas-metragens portuguesas a concurso para o Prémio MOTELX-Melhor Longa de Terror Europeia/Mèliés d’Argent: “Inner Ghosts”, do luso-brasileiro Paulo Leite, e “Mutant Blast”, de Fernando Alle.

O convidado especial deste ano é o argumentista, actor e produtor australiano Leigh Whannell (“Saw-Intriga Mortal”, “Insidioso”), que vai mostrar a sua segunda realização, “Upgrade”. Os 200 anos da publicação de “Frankenstein”, de Mary Shelley, serão também assinalados, nomeadamente com um ciclo de filmes na Cinemateca, entre os dias 7 e 29. O festival decorre ainda na Cinemateca Júnior, Cinema São Jorge (a sua “sede”), e Museu Colecção Berardo. Aqui estão oito sugestões de filmes, escolhidas de entre a programação deste MOTELX 2018.

“Ghost Stories”

de Andy Nyman e Jeremy Dyson

Um filme de fantasmas sob a forma de uma antologia “circular”, modelo querido e tradicional do cinema fantástico e de terror inglês. Baseado na peça homónima de autoria dos dois realizadores, e tendo um deles, Andy Nyman, no papel da personagem-pivô da fita, “Ghost Stories” junta três casos sobrenaturais aparentemente inexplicáveis, que são investigados por um especialista em fraudes ligadas ao paranormal, o Prof. Goodman (Nyman): um velho asilo devoluto assombrado, um encontro com uma criatura demoníaca e um “poltergeist” que se manifesta na moderna casa de um corretor da bolsa. (Dia 8, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 16.20)

“Unsane”

de StevenSoderbergh

Rodado em apenas 10 dias num iPhone dotado da aplicação FiLMiC Pro, este “thriller” psicológico de Steven Soderbergh passa-se num asilo psiquiátrico onde uma jovem mulher (Claire Foy) foi internada contra sua vontade, após alguns episódios ligados a impulsos suicidas, na sequência de ser perseguida por um “stalker”. E este poderá tê-la seguido e conseguido arranjar um emprego na instituição, para a continuar a atormentar. Mas será que a jovem está mesmo em perigo, ou sofre de perturbações mentais e tudo não passa de um delírio associado a esta condição? (Dia 5, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 18.40)

“The Field Guide to Evil”

de vários realizadores

Este filme em episódios realizados por cineastas de todo o mundo, tem como base mitos, narrativas tradicionais e populares, contos de fadas e histórias do folclore de muitas latitudes, trabalhados em vários registos e formas (há inclusivamente um “pastiche” do cinema mudo, com intertítulos e tudo). Entre os realizadores encontramos o inglês Peter Strickland, os austríacos Veronika Franz e Severin Fiala, o turco Can Evernol, a alemã Katrin Gebbe ou o americano Calvin Reeder. Dos mesmo produtores de “The ABCs of Death”. (Dia 7, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 16.40)

“Verónica”

de PacoPlaza

O realizador espanhol de “Romasanta-Caça ao Lobisomem” e da trilogia “[Rec]” propõe aqui uma fita de terror ambientada em Madrid, no início da década de 90, e uma variação sobre um velho tema do género: “Nunca brinques com o sobrenatural”. Verónica é uma rapariga cujo pai morreu recentemente e que, com duas amigas que também perderam entes queridos, tenta contactar o Além numa sessão com uma tábua Ouija, durante um eclipse total do sol. A partir daí, Verónica começa a sentir uma presença sobrenatural maligna em casa, e a ter alucinações e visões. (Dia 8, São Jorge-Sala 3, 21.25)

“Mandy”

de Panos Cosmatos

Nicolas Cage é o principal intérprete desta fita, cuja banda sonora foi uma das últimas feitas pelo falecido compositor islandês Jóhann Jóhannsson. Passada nos anos 80, numa região isolada da Califórnia, “Mandy” tem Cage no papel de Red Miller, um lenhador apaixonado pela bela e enigmática rapariga do título (Andrea Riseborough). O líder de um culto satânico depravado convoca um grupo de demónios “bikers” que raptam Mandy, e Red, armado até aos dentes, vai em busca da sua amada, decidido a fazer um massacre entre os raptores, quer sejam de carne e osso, quer tenham vindo das profundezas do inferno. Paroxismos “gore” garantidos. (Dia 5, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 00.10)

“Gon-ji-am: Haunted Asylum”

de Jeong Beom-sik

Um festival de cinema de terror sem um filme da Coreia do Sul é como um bitoque sem ovo a cavalo. Se o primeiro filme fantástico de Jeong Beom-sik, “Epitaph” (2007), se passa num hospital durante a II Guerra Mundial e a ocupação japonesa da Coreia, “Gonjiam: Haunted Asylum” decorre nos nossos dias, num asilo psiquiátrico que encerrou em 1979, após o suicídio de mais de 40 pacientes e o desaparecimento do director (o estabelecimento existe mesmo e a fita foi lá rodada). Seis pessoas vão passar uma noite no asilo abandonado, com transmissão em directo para um programa na Net, ignorando que o seu  produtor pretende assustá-las. (Dia 7, São Jorge-Sala Manoel de Oliveira, 00.10)

 “Aparelho Voador a Baixa Altitude”

de SolveigNordlund

Um raríssimo filme de ficção científica português, baseado num conto de J. G. Ballard e rodado em 2002 por Solveig Nordlund, que aproveitou como cenário o já demolido complexo turístico de Tróia. O enredo passa-se num futuro distópico, em que a raça humana está á beira da extinção, porque poucas mulheres engravidam. E as que conseguem, dão à luz mutantes, logo eliminados pelo Estado. Mas uma mulher grávida e o marido decidem fugir e ter o bebé, porque pressentem que ele será normal. Com Margarida Marinho, Miguel Gulherme, Rui Morrison e Isabel de Castro. (Dia 9, São Jorge-Sala 3, 19.10)

“O Túmulo Vazio”

de Robert Wise

Rodado em 1945 e produzido por Val Lewton, este é um dos primeiros filmes de Robert Wise, inspirado por um conto de Robert Louis Stevenson. Edimburgo, 1831. Dois homens que fornecem cadáveres ilegalmente para as aulas de anatomia e as experiências científicas de um médico, começam a chantageá-lo. Entretanto, o melhor aluno e assistente deste procura ajudar o seu mestre. “O Túmulo Vazio” foi o último filme em que Boris Karloff e Bela Lugosi contracenaram, desempenhando os papéis dos dois ladrões de cadáveres, claro está. (Dia 14, Cinemateca-Esplanada, 22.30)