Kathryn Mayorg, a norte-americana que acusa Cristiano Ronaldo de violação e de dez outros crimes, permaneceu em silêncio durante mais de nove anos, mas o movimento #MeToo contra o assédio e abuso sexual terão dado coragem para falar sobre o que aconteceu num hotel de Las Vegas a 12 de junho de 2009. A situação foi investigada — e denunciada — pela revista alemã Der Spiegel. A 30 de setembro, Christoph Winterbach, editor de desporto na Der Spiegel e membro da equipa de investigação do Footballs Leaks, conta como decorreu o processo e apresenta alguns documentos numa série de 25 publicações no Twitter.

O jornalista lembra que Kathryn Mayorg fez queixa de violação logo em 2009, mas nunca referiu quem teria sido o agressor, alegadamente por recear represálias pelos fãs do futebolista português. Os advogados da vítima terão então optado por um acordo em vez de uma acusação.

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“Tínhamos centenas de documentos de fontes diferentes: e-mails, relatórios médicos e da polícia. Juntámos a história”, conta Christoph Winterbach. “Trabalhámos durante semanas nessa história no ano passado, viajámos para Las Vegas, tentámos falar com Mayorga (ela não falou), confrontámos o Ronaldo (ele negou), publicámos três artigos. Depois do primeiro texto, a agência de Cristiano, a Gestifute, publicou uma declaração perturbadora.”

O jornalista rejeita as acusações da Gestifute de que não tinham documentos assinados e de que não podiam implicar o Cristiano Ronaldo, como mostra na publicação do Twitter com imagens dos documentos.

A Gestifute terá acusado as notícias da Der Spiegel de serem ficção, mas, diz o jornalista, nunca apresentaram provas das suas alegações. “Não temos razões para achar que não são autênticas. Verificámos meticulosamente antes de publicar. Sempre.”

A equipa da Der Spiegel terá tentado contactar Cristiano Ronaldo depois de Kathryn Mayorga ter começado a falar sobre o assunto e, especialmente, depois de terem na sua posse uma troca de perguntas-respostas entre Cristiano Ronaldo e os advogados. “A senhora C alguma vez levantou a voz, gritou, berrou?”, terão perguntado os advogados. “Ela disse que não e pára várias vezes”, terá respondido Cristiano Ronaldo.

“Ninguém nos disse que era falso. Teria sido melhor para ele e para os advogados terem respondido. Não fizeram”, diz Christoph Winterbach. O jornalista diz que a estratégia tem sido ameaçá-los com processos antes de os textos serem publicados. “Mas deixem-me explicar como é que trabalhamos: temos pessoas que verificam todas as palavras em todos os artigos. Não podemos escrever nada sem fundamentação, porque eles retiram isso do artigo se não conseguires prová-lo. Só aprovam o artigo se conseguirem verificar as nossas fontes. Valorizamos os factos.” Além disso, a equipa editorial é apoiada por uma equipa de advogados que garante que não cometem nenhum erro quando a história tem uma acusação a alguém.

Christoph Winterbach acrescenta que esta história não foi feita de ânimo leve, levou várias semanas e uma equipa de 20 pessoas a trabalhar no assunto. “Sabemos o que estamos a fazer.” Depois, o jornalista lembra que o discurso dos advogados mudou, já não dizem que é mentira, dizem que faz parte da vida privada de Cristiano Ronaldo e que por isso não pode ser publicado. “Se não tivéssemos este direito [de publicar esta história], quando é que seria possível publicar sobre alegações de violação?”