Carlos Cruz cumpriu três anos e três meses de prisão efetiva (de uma pena de seis) pelo crime de pedofilia, no âmbito do Processo Casa Pia, após ter sido condenado em todas as instâncias em Portugal. Mas o antigo apresentador quer ser julgado novamente, uma vez que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem — para o qual recorreu — considerou que não pôde apresentar em tribunal todas as provas para a sua defesa. A revelação foi feita no sábado, numa entrevista de vida dada ao programa de Fátima Lopes “Conta-me Como És”, na TVI.

“Quero ser julgado outra vez”, disse Carlos Cruz a Fátima Lopes, acrescentando que não quer ver ignorada “a verdade que está lá no processo”. “Onde está escrito, aliás, que não há prova nenhuma de eu ter cometido nenhum crime”, refere. Em declarações ao Observador, o advogado de Carlos Cruz, Ricardo Sá Fernandes, confirmou que o pedido vai mesmo ser entregue ao Supremo Tribunal de Justiça. E tem um prazo: até ao final do ano.

Ricardo Sá Fernandes explica a estratégia da defesa. “Em casos excecionais pode haver uma revisão do processo e essa revisão do processo pode ter vários fundamentos. No caso do Carlos Cruz, o fundamento é a condenação do Estado português por não ter respeitado os seus direitos de defesa no processo. Esse é um dos fundamentos possíveis, não é automático mas é um dos possíveis”, contou ao Observador.

E revela os próximos passos: “Nós agora vamos requerer ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) que o nosso pedido seja deferido. Se isso acontecer, se o STJ entender que há motivos para que o julgamento seja repetido, o julgamento será repetido relativamente à matéria pela qual o Carlos Cruz foi condenado, que foi por dois crimes cometidos numa casa na Avenida das Forças Armadas [Lisboa]”.

Se o tribunal entender que aquela violação dos direitos de defesa compromete, como na nossa ótica comprometeu, um julgamento justo, isso implica uma repetição do julgamento”.

Carlos Cruz venceu parcialmente o recurso no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, no âmbito do processo Casa Pia. Mas só no ponto em que alegou que o Estado português violou os seus direitos de defesa por ter recusado a admissão de novas provas submetidas na altura pela defesa.

Ainda assim, os juízes do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem consideraram que Carlos Cruz teve um julgamento justo, negando o pedido de condenação ao Estado português, proposto pela defesa do antigo apresentador. A única queixa atendida foi a queixa em que Carlos Cruz considerava ter sido prejudicado em sede de recurso por lhe ter sido negada a apresentação de novas provas. Mas mesmo neste ponto a vitória foi tangencial: apenas quatro, em sete juízes, lhe deram razão.

O tribunal europeu limitou-se a admitir que os seus direitos de defesa possam ter sido prejudicados, mas que tal não prejudicou o julgamento como um todo.

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Esta não foi uma entrevista fácil.

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O processo Casa Pia e as duas filhas

Na entrevista de vida ao programa, Carlos Cruz admitiu que foi um marido e um pai ausente, justificando essa ausência com o seu vício por trabalhar. “Fui mais ausente do que queria graças ao trabalho, acho que é uma doença que eu tenho, faz-me confusão estar parado”. Ainda assim sublinhou que sempre se preocupou com o bem estar da família.

A sua relação com a filha Marta não era uma relação próxima, realçou. Mas que o facto de ter ido para casa da filha depois de sair da prisão, em 2016, fortaleceu a relação. “Tive a oportunidade de — quando saí da Carregueira, do hotel onde estive a morar durante uns tempos — de ir para casa da Marta. Estive um ano a viver diariamente com a Marta”.

Foi muito reconfortante aquele ano, por causa dos remorsos que eu tinha por ter sido um pai ausente… Descobrimos — nunca lhe disse isto — mas descobrimos que nos amamos muito“, afirmou.

A filha Marta também participou no programa, recordando, num vídeo, o momento em que Carlos Cruz lhe contou que estava a ser acusado de pedofilia. “No momento em que o meu pai me diz que estavam a comentar do que é que ele poderia vir a ser acusado, eu tinha 17, 18 anos. Ele chamou-nos lá a casa, a mim e ao meu irmão, e disse-nos. Eu não consegui expressar nenhum sentimento, acho que na hora nem chorei, subi para o quarto. Acho que nessa altura deveria ter-lhe dito alguma coisa, mas não disse”.

Para Carlos Cruz, a sua filha Marta foi tão vítima do processo como ele próprio. “A experiência que eu passei: ter estado preso por uma coisa criada, inventada, construída para me manterem preso e para me condenarem, tudo isso me provocou revolta, por incapacidade de levar a verdade às pessoas. A Marta foi também outra vítima deste processo“, desabafou.

Quanto à filha Mariana, só quando fez seis anos é que Carlos Cruz resolveu começar a contar todo o processo em que foi condenado. Carlos Cruz contou a forma como transmitiu a informação à filha: “Há umas pessoas que dizem que o pai fez umas coisas feias e que se portou mal, mas isso é mentira. Vais possivelmente ouvir falar disso. Há uns rapazes que mentiram à polícia e dizem que o pai fez coisas que não fez“.

O ex-apresentador de televisão Carlos Cruz, condenado no âmbito do processo Casa Pia, é cumprimentado pelo seu advogado, Ricardo Sá Fernandes, após ter saído em liberdade condicional do Estabelecimento Prisional da Carregueira, no dia 7 de julho de 2016. JOÃO RELVAS/LUSA

O antigo apresentador contou a Fátima Lopes que a sua filha mais nova viveu com o processo sem grandes traumas, mas que hoje já tem mais consciência: “Ela sabe exatamente tudo e eu quero que ela saiba”.

Era expectável que Mariana falasse também ao pai nesta entrevista de vida. A adolescente, emocionada, disse que o pai é o seu maior orgulho e contou como foram os primeiros dias do pai em liberdade condicional: “Quando ele saiu foi sem dúvida o melhor dia da minha vida com ele. Foi naquele momento que, depois de tudo, consegui sentir que ele está em casa outra vez e pude dar-lhe um abraço gigante. Senti que ele estava de volta. Foi sentir que, depois de tudo, foi reconhecido que ele não é o que dizem“, desabafou a jovem.

Carlos Cruz no lançamento da sua autobiografia “Uma Vida”, a 22 de março de 2016. MANUEL DE ALMEIDA.

“O Carlos era um furacão, mas tornou-se mais tolerante” – Raquel Rocheta

Também Raquel Rocheta, ex-mulher de Carlos Cruz, participou na entrevista. Num pequeno vídeo, recordou a vida em conjunto com o antigo apresentador: “Desde do momento em que nos conhecemos, foram os anos melhores cinco anos da minha vida“.

Mas nem tudo foi fácil. “O Carlos era um furacão, mas tornou-se numa pessoa muito mais tolerante, muito mais apagado”, disse a ex-mulher de Carlos Cruz.

Hoje sou uma pessoa completamente diferente, muito melhor, tenho a certeza. Muito obrigado por tudo, és um grande homem“.

Já Carlos Cruz reconhece que Raquel Rocheta foi uma das suas grandes paixões da sua vida. Também ela é uma vítima do processo Casa Pia. “Infelizmente é uma das grandes vítimas do processo Casa Pia. Pelo que sofreu, pelos sacrifícios que teve de fazer para me apoiar… A nossa filha tinha 10 meses quando eu fui preso em Quarteira“.

Admite que tem pena que a sua relação com Raquel tenha terminado: “não era justo para ela e talvez nem fosse justo para mim, porque era uma segunda preocupação que eu tinha. A nossa separação foi de mútuo acordo, numa conversa à mesa, sozinhos”.

“Eu vejo o meu regresso à televisão como uma impossibilidade”

Um eventual regresso ao pequeno ecrã parece posta de parte, admite Carlos Cruz: “Vejo o meu regresso à televisão como uma impossibilidade. Este peso que tenho em cima de mim, do processo, inibe as pessoas de me convidarem. As pessoas têm medo de reações. É preciso coragem para me convidar”.

Mas aceitaria se alguém tivessem coragem de o convidar, salientou: “Sim, sim mas agora não há condições a não ser alguém com capacidade enorme de desafiar alguns poderes”. E conclui a entrevista com uma projeção para o futuro: “Haverá um dia, depois da minha morte, em que se descobrirá a tremenda fraude e o embuste que foi criado“.

No verão de 2002 começam a surgir as primeiras suspeitas do envolvimento de Carlos Cruz numa rede de pedofilia. Era o início do processo Casa Pia. Cumpriu dois terços de uma pena de seis anos de prisão por crimes de pedofilia no âmbito do processo. A 7 de julho de 2016 foi libertado do Estabelecimento Prisional da Carregueira, para passar ao regime de liberdade condicional.