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Como 164cm e 50 e poucos quilos de talento vergaram o Sporting em Portimão. Eis Nakajima, o japonês que queria jogar no FC Porto

Dois golos e duas assistências já seriam um registo impressionante para qualquer jogador, mas frente ao Sporting ainda o são mais. O Portimonense foi mais do que Nakajima, mas a estrela foi ele.

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André Vidigal / Global Imagens

André Vidigal / Global Imagens

A primeira época de Shoya Nakajima no futebol português já tinha deixado a salivar os adeptos do clube algarvio e alguns entusiastas do futebol português. No ano passado, o “baixinho” franzino de 24 anos e 1.64m de altura, que pesa pouco mais de 50 quilos, marcou dez golos. Não se destacou, contudo, apenas por isso: muitas vezes com a bola colada no pé direito, sempre de cabeça erguida e sorriso na cara, a mover-se entrelinhas e a tabelar com os colegas, jogou e fez jogar os colegas no apoio ao ponta-de-lança Fabrício, ajudando o clube algarvio a assegurar um 10º lugar no campeonato, na época de regresso do clube à primeira liga.

Nos últimos meses, a imprensa desportiva apontou novos destinos ao “pequeno imperador”, como também é chamado, falando do interesse de clubes como o FC Porto, o Shakhtar Donetsk de Paulo Fonseca e os turcos do Galatasaray na contratação do avançado. Terá sido o preço que afastou interessados: no início deste ano, o presidente da SAD do Portimonense Rodiney Sampaio revelou, numa entrevista ao jornal O Jogo, que só aceitava vender Nakajima por dez milhões de euros e que a cláusula do avançado dobrava, a partir de 31 de janeiro, para os 20 milhões de euros. Acresce que, no verão passado, o Portimonense vendeu o avançado Fabrício (16 golos) ao Urawa Reds do Japão. Segurar Nakajima tornou-se imperativo, apesar do avançado já ter proferido o desejo de “futuramente jogar no FC Porto”, por ser fã das “características e estilo de jogo” dos dragões.

Este domingo, em Portimão, Rodiney Sampaio e o treinador da equipa, António Folha, tiveram a prova de que segurar Nakajima no clube foi mesmo a decisão mais acertada. Com dois golos e duas assistências, Shoya Nakajima foi o homem do jogo e foi decisivo para que o Portimonense tivesse conquistado esta noite a sua segunda vitória no campeonato, em sete jogos realizados. Uma vitória que permitiu à equipa algarvia fugir aos lugares de despromoção, agora ocupados por Tondela, Nacional e Desportivo das Aves.

Montero marcou o golo, mas não conseguiu evitar a derrota da equipa. Aqui observa, impotente, os festejos do Portimonense. @ Filipe Farinha/Lusa

Resumir a vitória do Portimonense ao Sporting por 4-2 à exibição de Shoya Nakajima seria redutor. A verdade é que a equipa orientada por António Folha foi, durante longos períodos, mais perigosa e mais acutilante que o Sporting de José Peseiro. Montada num 4x4x2 que só com o tempo conquistou Folha, já que na pré-temporada optou por um sistema de três centrais de que só abdicou devido às lesões dos defesas Marcel e Jadson, o Portimonense surgiu com uma defesa e um duo de meio-campo consistentes. Apesar do talento dos elementos mais ofensivos, que originou os quatro golos, esse suporte foi importante para que a equipa saísse sempre a jogar de forma apoiada, permitindo ao quarteto Paulinho, Bruno Tabata, Nakajima e Jackson Martínez liberdade para espalharem o perfume do seu futebol.

O jogo até começou equilibrado, com o Sporting a tentar controlá-lo com bola, acelerando-o na frente por Jovane Cabral e apostando nas subidas de Acuña e sobretudo Ristovski para se chegar à frente. Cedo se percebeu, contudo, que o Portimonense não tencionava remeter-se à defesa. A equipa algarvia pressionava alto, jogava com uma defesa em bloco médio, com os jogadores muito juntos e a tentarem trocar a bola de pé para pé. O “segredo” da vitória passou muito por essa atitude, por a equipa “não ter medo”, como afirmou Folha, perto de duas horas depois, na flash interview.

Durante 25 minutos, não se viu grande perigo junto às balizas, porque as duas equipas pareciam ter na boa organização defensiva o antídoto para a criatividade dos atacantes — Bruno Fernandes, Jovane, Raphinha e Montero de um lado, Paulinho, Tabata, Nakajima e Jackson do outro. Mas, dividindo a posse de bola, o Portimonense dava sinais de perigo, sobretudo através da prestação ofensiva e defensiva de Nakajima, a receber a bola em zonas interiores, a segurá-la e a trocá-la com qualidade com os colegas, mas também a pressionar o duo de meio-campo dos leões, composto por Battaglia e Gudelj.

No corredor direito, Bruno Tabata, um dos jovens talentos do futebol português (canhoto, com apenas 21 anos), criava muitos problemas a Marcos Acuña, médio do Sporting adaptado a lateral-esquerdo. Aos 26′, Tabata trocou mesmo as voltas ao lateral, simulando uma finta de corpo e deixando-o para trás com um drible. Seria Coates, no interior da área, a evitar o golo, intercetando um cruzamento tenso de Tabata que ia direitinho para Jackson (isolado no segundo poste)

O aviso estava dado e o primeiro golo chegaria quatro minutos depois, à meia hora. Com o primeiro tento, iniciava-se o “show Nakajima”. Depois de uma corrida desenfreada de Wilson Manafá no corredor esquerdo, jogador que nos escalões de formação do Sporting era lateral-direito e extremo-direito, mas que saiu pela porta pequena e no Portimonense joga na defesa e no corredor contrário, Nakajima recebe a bola e, de primeira, devolve a Manafá, percebendo que o lateral já corria na desmarcação. Isolado em direção à baliza, mas com ângulo apertado, Manafá deixou Coates aproximar-se, travou repentinamente e puxou a bola para o pé esquerdo para o direito. Com a lentidão na rotação do uruguaio, Manafá pôde armar o remate de pé direito e atirar junto ao poste mais próximo. De nada valeram os reflexos de Salin: era impossível reagir com rapidez suficiente ao remate do jogador do conjunto algarvio, a tão curta distância.

Parecendo atordada e nervosa com o golo sofrido, a equipa do Sporting não conseguiu empurrar o conjunto algarvio para os últimos 30 metros e só num livre causou algum perigoso, através de um cabeceamento de Coates. O Portimonense continuava confiante no seu 4x4x2, com Pedro Sá e Lucas Fernandes (médio-centro brasileiro de 21 anos formado no São Paulo, que fez a sua estreia como titular no Portimonense e demonstrou qualidade técnica e boa gestão dos ritmos do jogo) a superiorizar-se a Battaglia e Gudelj.

A mobilidade e qualidade técnica do trio que jogava atrás do ponta-de-lança Jackson Martínez, mais fixo no ataque, continuava a dar sinais de perigo e, mesmo à beira do intervalo, aos 45′, Nakajima recebeu dentro de área e rematou forte para dentro da baliza de Salin. Na tentativa de defesa, o guarda-redes francês bateu com a cabeça no poste e teve de ser substituído e transportado para o hospital. Apesar do oportunismo e prontidão de remate de Nakajima, a defesa do Sporting não fica isenta de culpas: deu espaço ao avançado japonês dentro de área e este revelou-se letal.

Salin bateu com a cabeça no poste, perdeu os sentidos e foi Coates que fez a primeira assistência

À entrada para a segunda parte, Raphinha, por problemas físicos, era substituído por Nani. O extremo português até entrou bem no jogo, dando à equipa capacidade para segurar e conservar a bola no meio-campo do Portimonense, trazendo calma e ponderação ao ataque do Sporting. O primeiro sinal de perigo dos leões, contudo, veio de Bruno Fernandes, que apesar de ter estado apagado como tem sido habitual neste início de temporada, recebeu a bola no flanco esquerdo aos 51 minutos, fletiu para dentro e fez um remate potente que rasou o poste esquerdo da baliza do Portimonense. Seria também ele que, pouco depois, ofereceria uma bola de golo a Jovane Cabral. Este não respondeu da melhor forma ao cruzamento do médio português e atirou para fora, já no interior da área.

O Sporting não se conseguia superiorizar ao Portimonense, aparentando nervosismo e falhando passes (por exemplo, por Battaglia e Jovane Cabral) que dificultavam o fio de jogo da equipa. Fredy Montero, ainda assim, reduziria para 2-1 aos 63 minutos, após jogada de insistência de Acuña no flanco esquerdo e cruzamento atrasado de Nani, a que Montero só teve de encostar.

Trocando o extremo Paulinho pelo médio Dener, conferindo consistência ao meio-campo mas mantendo a veia ofensiva da equipa (pouco depois de uma primeira troca por troca no meio-campo, de Marcel por Pedro Sá), Folha assegurava que o Portimonense cotninua competitivo. A equipa não se remetia à defesa e conseguia congelar o jogo do Sporting, trocando a bola a meio-campo e desferindo contra-ataques oportunos, aqui e ali.

Nada fazia prever, nessa altura, o que se veio a passar de seguida, nos últimos 20 minutos. E o que se passou foi Shoya Nakajima: o japonês primeiro ameaçou num grande lance individual que terminou em remate de Bruno Tabata de fora da área, de seguida fez o seu segundo golo com um remate de fora da área na ressaca de um canto, só não fez o hat-trick aos 85′ porque Renan se lhe opôs e, após Coates reduzir de cabeça para o 3-2 (segunda assistência de Nani no jogo), isolou em contra-ataque, com um único toque, o avançado João Carlos, que, vindo do banco, teve tempo e espaço para decidir como desviar a bola com sucesso de Renan para o 4-2 final.

Se a grande expectativa desta noite ia para as exibições de Jovane Cabral e Jackson Martínez, o primeiro porque relegou Nani para o banco de suplentes e o segundo porque não era titular num jogo oficial há dois anos, desde outubro de 2016, um e outro viram Nakajima roubar-lhes o protagonismo. Jovane tentou sempre agitar o jogo do Sporting, mas sem sucesso — e foi perdulário. O antigo avançado do FC Porto Jackson, por sua vez, começou bem, mostrando capacidade técnica e atlética para segurar a bola e combinar com os colegas, mas com o passar dos minutos perdeu frescura física e foi aparecendo cada vez menos em jogo.

Nakajima, por sua vez, foi letal e durou os 90 minutos: começou como o pensador do futebol ofensivo do Portimonense, ligando setores e fazendo tabelas, e acabou como estrela maior, a marcar, assistir e resolver. Saiu de sorriso rasgado, a agradecer o prémio de melhor em campo da transmissora do jogo (SportTv) e quem sabe com a convicção de que está agora mais perto de jogar num clube com outras ambições competitivas. Quem sabe o FC Porto, onde já disse querer jogar e que, até esta noite, tinha sido o único dos três grandes a quem marcara, na época passada, num jogo de má memória (derrota por 5-2) para o Portimonense.

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