Chelsea Manning, a ex-analista de informação ao serviço do exército americano, veio falar publicamente sobre a sua readaptação ao mundo após sete anos de prisão. O seu trabalho enquanto analista, relacionado com o uso de informação para traçar perfis dos soldados inimigos, permitiu-lhe ter um vasto conhecimento do potencial das tecnologias e da forma como esta pode ser usada para fins menos ortodoxos.

Refere-se ao Facebook como uma poderosa ferramenta para perfilar e marcar indivíduos, afirmando que não há diferença entre o setor privado e o militar:

“Poder-se-ia facilmente transformar o Facebook nisso. Não precisávamos de alterar a sua programação, apenas o motivo pelo qual temos e usamos o sistema”, disse em entrevista ao The Guardian.

Manning parece ainda encontrar-se no início de um processo para entender a consequência dos atos que levaram à sua prisão, refletindo como em 2010, com 22 anos de idade e apresentando-se como homem, fez download e tornou público, através do WikiLeaks, 750 mil documentos sigilosos e confidenciais que revelaram documentos diplomáticos secretos americanos, bem como os registos de guerra do Iraque e do Afeganistão. Quando foi apanhada, foi julgada e condenada a 35 anos de prisão, embora tenha estado presa por apenas 7 anos da pena que lhe foi atribuída, uma vez que um dos últimos atos de Barack Obama foi conceder-lhe liberdade.

O significado e as consequências das suas ações não foram ainda esquecidas, pois esta é uma situação tão complexa e irresoluta quanto o carácter de Chelsea Manning que faz, por um lado, com que uns a considerem uma heroína que veio denunciar as hipocrisias do governo americano no que toca a diplomacia internacional, e por outro lado, que a considerem uma traidora da sua pátria que infringiu o Ato de Espionagem.

Chelsea Manning, a ex-militar transgénero que ajudou a Wikileaks, é candidata ao Senado

“Eu não me arrependo das minhas decisões”, diz Manning. Afirma não desejar alterar a forma como tudo aconteceu, ou as suas atitudes passadas, considerando que tudo estava de alguma forma predestinado a acontecer. “O que eu realmente tento dizer às pessoas é que se eu tivesse feito algo diferente, eu teria sido uma pessoa completamente diferente; Eu não posso olhar mais para trás”, recorda.

Mas Chelsea Manning refere que há factos sobre os quais ela não pode falar, nem sabe como os contar: “Eu não tenho uma história na minha cabeça”, diz surpresa, “Algumas das quais (histórias) eu não pude falar. Da ‘solitária’, eu não posso falar. Eu não estou pronta para falar sobre isso. Eu bloqueei isso. Eu simplesmente não posso…”

“Eu não sei. Eu só me lembro do café da manhã, almoço, jantar, dormir, café da manhã, almoço. Penso regularmente nisso porque o que eu me lembro é que a rotina era a peça central do meu castigo”, diz, encolhendo os ombros.

No seu julgamento, em 2013, a juíza reconheceu oficialmente os abusos a que tinha sido submetida durante o período que esteve em prisão preventiva, e embora tenha reduzido o tempo da sua sentença, Manning passou meses na prisão solitária, referindo que a sua vida ficará com marcas permanentes. “Está tudo lá sempre que acordo”, “Não há um dia em que eu acorde e não tenha lembranças da minha experiência [de prisão] levando-me constantemente a falar do que passei.”