O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, considerou no sábado “absolutamente inaceitável” a divulgação de fotografias dos fugitivos do Tribunal de Instrução Criminal do Porto capturados pela PSP. Pouco tempo depois, o Sindicato Vertical de Carreiras da Polícia (SVCP) reagiu no Facebook com imagens de idosos alegadamente agredidos e a seguinte mensagem: “Por favor, Sr. Ministro do MAI, senhores da Amnistia Internacional, Sr.ª Câncio e todos os demais….indignem-se”. Ao Observador, o vice-presidente do sindicato afirma mesmo que o ministro preferiu “diminur e enxovalhar” os polícias em vez de os defender.

Ministro considera “absolutamente inaceitável” divulgação de fotografias de suspeitos detidos

A montagem fotográfica anda a circular nas redes sociais e junta as imagens de idosos alegadamente agredidos à fotografia do ministro da Administração Interna, que na sexta-feira determinou a abertura de um inquérito às circunstâncias em que ocorreu a fuga dos três homens e a divulgação de fotografias das suas detenções. A PSP também já tinha anunciado a abertura de um inquérito para apurar “se houve, ou não, falhas” policiais na fuga e na divulgação das imagens.

Sindicato diz que Cabrita devia ter defendido “os seus homens”

Numa declaração por escrito enviada ao Observador, o vice-presidente do SVCP Vítor Pereira afirmou que Eduardo Cabrita, “ao invés de tomar uma posição de partida, que seria a de defesa dos ‘seus homens’, isto é, dos profissionais da Polícia que ele tutela, decide desde logo em diminuí-los e em enxovalhá-los afirmando que ‘os polícias não respeitaram o Estado de Direito'”. “Não deveria esperar pelo resultado do inquérito da IGAI para posteriores declarações”, questiona.

Vítor Pereira compara também o caso ao roubo de armas em Tancos, dizendo não compreender as “cautelas” tidas pelo Governo “ao proferirem declarações políticas sobre os militares” e que, diz, “não são as mesmas em relação à PSP e aos seus profissionais”.

“Claro que esta posição não nos surpreende, pois ao longo dos tempos os profissionais da PSP foram-se habituando a este tipo de atitudes, e como epígrafe desta afirmação, lembram-se do Ministro do MAI que escreveu ‘Esta não é a minha Polícia’?”, disse, referindo-se ao livro do ex-ministro da Administração Interna de António Guterres, Alberto Costa.

O dirigente sindical lamenta ainda que Eduardo Cabrita, quando disse que a divulgação das fotografias é “inadmissível”, o tenha feito “num tom que não deixa qualquer dúvida de que exige que ‘rolem cabeças'”. “Se o Sr. Ministro Eduardo Cabrita afirma isto, ou seja, parte de um princípio (de uma verdade) que foi um polícia a tirar aquelas fotos e a partilhar as mesmas sem qualquer réstia de dúvida e se assim pensa, porque razão ordenou a abertura de um inquérito?”, pergunta.

No sábado, o diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal, Pedro Neto, “lamentou muito” a divulgação das mesmas fotografias. “Não acrescenta nada ao processo de justiça que está a ser realizado. Esta fotografia não acrescenta nada, pelo contrário, humilha as pessoas e fere-as na sua dignidade humana”, afirmou o responsável.

Pedro Neto lembrou ainda que, em Portugal, é o tribunal o órgão que faz justiça, no caso de haver condenação. “Tudo o resto é espetáculo e é indigno”, lastimou.

MAI abre inquérito sobre fuga de três homens do tribunal e divulgação de fotografias

A jornalista Fernanda Câncio também foi visada na publicação do SVCP. A jornalista do Diário de Notícias criticou que o sindicato tivesse partilhado as fotos de idosos esmurrados depois de ter partilhado as imagens de suspeitos algemados e esmurrados.

Numa outra publicação, Fernanda Câncio lembra a posição do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, de 2016, sobre a divulgação de imagens de detidos à guarda da PSP por parte de órgãos de comunicação social. O Sindicato dos Jornalistas considera que as “fotos humilham, desnecessariamente, as pessoas em causa”, e que “o jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado”. “A divulgação destas fotos não acrescenta nada em termos informativos e só inflama discursos de ódio e de justiça popular”, continua o sindicato.

Os três suspeitos de dezenas de furtos a idosos no Grande Porto fugiram do Tribunal de Instrução Criminal (TIC) na quinta-feira à tarde, depois de um juiz de instrução lhes decretar prisão preventiva. Os detidos aproveitaram para fugir no momento em que a polícia os encaminhava para as celas do TIC do Porto, onde havia uma carrinha que os levaria até ao estabelecimento prisional de Custóias.

As autoridades desencadearam de imediato uma operação de captura, alertando então que os foragidos eram considerados perigosos e podiam estar armados. Os arguidos são dois irmãos gémeos, de 34 anos, e o sobrinho de 20 anos, todos com antecedentes criminais.

A PSP pediu que a população fornecesse “informações úteis com vista à localização e captura dos fugitivos” à Divisão de Investigação Criminal da PSP do Porto. Foi com base nessas pistas que as autoridades descobriram o paradeiro dos homens e realizou a detenção, na sexta-feira pelas 17h30, num parque de campismo em Gondomar, tendo em sua posse 40 mil euros em notas de 500 euros.

Apanhados num parque de campismo os três detidos que fugiram do tribunal no Porto

Depois da detenção, os suspeitos foram levados para Custóias conforme o plano inicial. Agora, poderão vir a ser transferidos para Monsanto, uma prisão de alta segurança, por causa do risco de fuga, segundo o Jornal de Notícias que cita uma fonte dos Serviços Prisionais.

A detenção inicial dos três suspeitos resultou do trabalho de cerca de oito meses de investigação. Numa publicação anterior no Facebook, o SVCP critica que o excelente trabalho de investigação, se tenha esfumado com a fuga dos criminosos do TIC do Porto. O sindicato diz que há “uma ‘campanha concertada” que visa unicamente denegrir a imagem da instituição PSP e a dos seus profissionais”.

“Para trás e esquecidos ficaram oito meses de trabalho árduo, no qual os agentes envolvidos se entregaram de alma, coração e corpo. Deixaram para trás família e amigos, abnegadamente com o único escopo de devolver tranquilidade e sossego às vítimas e à população. Para trás ficou o sofrimento inculcado nas vítimas e só passou a interessar o ‘erro’ e a ‘negligência’ dos polícias que ‘deixaram fugir’ aqueles criminosos”, escreve o sindicato na publicação.

Atualizado às 20h05 com as declarações do responsável do SVCP