Era para ser uma tarde dedicada aos sem-abrigo, mas à hora marcada para Marcelo distribuir refeições pelos utentes do Centro Social S. Francisco Xavier da Cáritas de Setúbal, não se via praticamente ninguém. Passava pouco das 18h, e só quatro ou cinco pessoas se encontravam dentro das instalações do centro já a comer a sua refeição disponibilizada pelos serviços da Segurança Social. O Presidente da República, que faz da erradicação dos sem-abrigo uma bandeira do seu mandato, lá entrou e interrompeu a refeição de alguns para trocar umas palavras sobre a situação em que se encontram.

Mas se o objetivo era chamar a atenção para o problema das pessoas sem-abrigo que, segundo a presidente da câmara de Setúbal, ainda são cerca de 2.500 em fila de espera só naquele concelho, os holofotes mediáticos estavam mais virados para aquilo que o Presidente da República teria a dizer sobre o caso do momento: o assalto aos paióis de Tancos, o consequente encobrimento e o grande mistério — quem sabia ou não sabia da operação.

O passa-culpas e a troca de acusações vem longa e esta sexta-feira chegou a Belém, numa reportagem da RTP que apontava para o facto de ter havido contactos entre o diretor da Polícia Judiciária Militar e o chefe militar da Casa Militar da Presidência, contactos esses que o Presidente se apressou a desmentir. Primeiro, via jornais; depois, em indiretas no discurso de domingo na parada militar de celebração do fim da I Guerra Mundial. E esta segunda-feira a reforçar que não houve quaisquer contactos entre a PJ Militar e Belém, numa nota emitida pela Presidência da República, que Marcelo admite ter tido necessidade de escrever para apurar “a verdade dos factos”. Pelo meio, o primeiro-ministro António Costa falou para, de forma indireta, pedir ao Presidente para conter a sua ansiedade em torno do caso. Sobre o suposto incómodo entre governo e Presidência, contudo, Marcelo não quer dizer nada.

“Para já”, ou “neste momento”, Marcelo não tem “mais nada a acrescentar” ao que disse naqueles três momentos. Interpelado pelos jornalistas à entrada para uma reunião com os Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) do distrito de Setúbal, Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de sublinhar que a nota emitida esta segunda-feira pela Presidência serve para “esclarecer ponto por ponto as dúvidas que foram levantadas na sexta-feira passada”, na reportagem da RTP. “Na altura eu respondi de forma geral, mas a verdade dos factos era fundamental, e isso só foi possível fazer hoje, porque depois meteu-se o fim de semana”, começou por dizer. Depois, limitou-se a dizer que, “para já”, não vai dizer mais nada face ao que disse no sábado ao jornal Público — onde disse, naquilo que foi entendido como uma indireta ao Governo, que “se pensam que me calam, não me calam” –, e face ao que disse no discurso na parada militar: “Não toleraremos que se repita o uso das forças armadas ao serviço de interesses pessoais ou de grupo, de jogos de poder”. Tirando isso, nada mais.

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“Depois do que disse no sábado, ao Público, e ontem na cerimónia militar, neste momento não tenho mais nada a acrescentar. O que tinha a dizer disse sábado e disse ontem ao fazer um paralelo entre o que aconteceu há 100 anos e os riscos que o que aconteceu há 100 anos tem para os dias de hoje. Eu tenho falado muitas vezes disso, já falei no 25 de Abril, há ano e meio que ando a dizer, neste momento não tenciono acrescentar mais nada”, disse aos jornalistas em Setúbal.

A verdade é que Marcelo Rebelo de Sousa não gostou de ouvir dizer nesta sexta-feira que houve vários contactos entre Belém e o diretor da Polícia Judiciária Militar a propósito do caso do alegado encobrimento de Tancos. “Se pensam que me calam, não me calam”, tinha dito no sábado, dirigindo-se supostamente aqueles que que tentavam envolver a figura do Presidente da República naquilo que, nas palavras do próprio, não é mais do que uma “nebulosa” que serve apenas para distrair as atenções em vez de apanhar os responsáveis.

Questionado sobre a quem se estava a referir quando disse que o estavam a tentar calar, Marcelo fugiu à pergunta: “Já disse o que queria dizer, tenciono continuar a insistir e a exigir o que insisto e exijo há ano e meio”. Da mesma maneira também fugiu à pergunta sobre se sentia que estava a ser acusado e se havia incómodo entre o Governo e a Presidência: “Acho que, havendo factos, deve haver a verdade sobre os factos, por isso hoje essa verdade foi apresentada pela Presidência da República”. Nada mais — “para já”.

Na nota publicada no site da Presidência esta tarde, Marcelo desmentia categoricamente o conteúdo da notícia avançada esta sexta-feira pelo programa “Sexta às 9” da RTP. Na nota pode ler-se que o “Presidente da República nunca recebeu o Diretor da Polícia Judiciária Militar ou qualquer elemento dessa instituição”, e que durante a visita a Tancos a 4 de julho de 2017, “não teve qualquer reunião bilateral” com qualquer dos responsáveis presentes na visita. Mais: a Presidência rejeita que “algum membro da Casa Civil ou da Casa Militar” tenha falado ou escrito ao Presidente da República “sobre a operação da descoberta das armas de Tancos, antes de ela ter ocorrido. Nem tão pouco falou ou escreveu sobre a operação, depois de vinda a público, nomeadamente como sendo ou podendo vir a ser ilegal ou criminosa, incluindo quaisquer memorandos ou referências a reuniões com eles relacionados”. Ou seja, não não e não.

No comentário deste domingo na SIC, o conselheiro de Estado e antigo líder da bancada do PSD no tempo de Marcelo, Luís Marques Mendes, foi categórico ao afirmar que o caso Tancos tem colocado a descoberto o incómodo existente na relação entre o Presidente da República e o Governo. “O Governo nunca gostou de que o Presidente da República andasse a insistir na investigação do caso”. Mas Marcelo Rebelo de Sousa também não gostava de ver “a agressividade” do Executivo de cada vez que falava sobre o tema. A declaração ao jornal Público, diz Marques Mendes ter sido um recado para o primeiro-ministro. O comentador disse ainda acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa sente que o Executivo “está a tentar envolver a Presidência”. “Acha que o Governo está a ajudar à festa”, sintetizou Marques Mendes. A súmula destes sinais, “indicia a ideia de algum incómodo na coabitação”.

Incómodo esse que Marcelo, “para já”, recusou admitir que existia. Para já.