Donald Trump

Casa Branca usou um vídeo manipulado para excluir jornalista da CNN. A análise, segundo a segundo

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A administração Trump usou um vídeo modificado para atacar o jornalista da CNN. As imagens foram editadas para parecer que houve agressividade contra a estagiária que lhe ia tirar o microfone.

Captura de ecrã

A administração Trump utilizou um vídeo modificado pela Infowars, uma página de extrem direita dedicada a disseminar teorias da conspiração, para impedir o jornalista Jim Acosta de voltar a entrar na Casa Branca, desvenda o New York Times.

Sarah Huckabee Sanders, responsável pela gestão da imprensa dentro da Casa Branca, afirmou no Twitter que o repórter da CNN tinha sido banido “por colocar as mãos numa jovem mulher” que lhe tentava tirar o microfone, quando Donald Trump quis travar a intervenção de Jim Acosta. Pode ver as imagens partilhadas no Twitter de Sarah Sanders aqui em baixo.

Mas uma análise ao vídeo de 15 segundos difundido pela Casa Branca revela que a velocidade do vídeo foi parcialmente alterada para que o toque do jornalista no braço da estagiária parecesse mais agressivo do que realmente foi. Pode ver a análise do editor de vídeo Aymann Ismail mais aqui em baixo.

Hany Farid, especialista em análise forense de imagens digitais, disse à The New Yorker que o vídeo foi editado de três formas: nas partes em que a estagiária estica a mão para alcançar o microfone, o vídeo foi desacelerado e desfocado; nas partes em que o jornalista toca na mulher, o vídeo foi acelerado; e alguns frames foram repetidos quando há contacto físico entre eles.

Jim Acosta estava a questionar o presidente norte-americano sobre a fronteira sul dos Estados Unidos quando Trump quis calar o jornalista e disse: “Já chega”. Nesse momento, uma mulher — que Sarah Sanders afirmou ser uma estagiária — levantou-se para tirar o microfone ao repórter da CNN. Enquanto gesticulava ao discutir com Trump, Jim Acosta tocou no braço da mulher e disse: “Desculpe, minha senhora”. Veja as imagens reais no artigo aqui em baixo.

Mas no vídeo que a administração Trump usou para banir o jornalista, esse momento foi acelerado para criar a ilusão de que o toque parecesse mais brusco. Só desacelerando o vídeo para um quarto da velocidade é que a ilusão se dissipa, descobriu Aymann Ismail. Essa ilusão, segundo uma equipa de analistas do New York Times, foi criada e publicada por Paul Joseph Watson, colaborador do site de notícias falsas.

Nessa publicação Paul Watson afirma que “o Acosta usa claramente o braço esquerdo para fazer frente e confinar a mulher”. Mas para Sarah Burris, editora digital do blog de esquerda Raw Story, as imagens não são tão claras assim. Numa análise difundida nas redes sociais, Sarah Burris assinala a vermelho todos os pontos de contacto entre a funcionária da Casa Branca e o jornalista da CNN. Nos quatro momentos em que eles se aproximam, a editora de vídeo afirma que é a mulher que toca no jornalista e não o contrário.

Mas Hany Farid diz que é uma questão de perspetiva: “Se olharmos para vídeos originais de alta qualidade filmados de outros pontos de vista é possível ver com mais clareza que, embora houvesse algum contacto entre o repórter e o estagiário, ele não bateu nela quando a mão desceu”. À The New Yorker, Farid adjetivou o vídeo partilhado por Sanders de “enganoso”. Mas sublinhou: “Não vejo evidências inequívocas de que tenha sido manipulado”.

Entretanto, Paul Watson reagiu no YouTube às suspeitas de que tinha alterado o vídeo. “A comunicação social, sem nenhuma verificação dos factos, lançou uma conspiração a dizer que eu acelerei ou manipulei o vídeo de Jim Acosta de forma a distrair do comportamento dele. Isto é falso. Eu não manipulei nem acelerei nada. É tudo notícias falsas”, disse. Veja a reação no vídeo aqui em baixo.

Segundo Paul Watson “isto é tudo uma treta”: “Tudo o que eu fiz foi zoom. É virtualmente idêntico. Mas é 100% idêntico? Não. A compressão do vídeo vai resultar em que ele pareça marginalmente diferente”. O colaborador da Inforwars nega as acusações de manipulação: “Manipular significa mudar deliberadamente o significado do vídeo. Fazer zoom não é manipulação”. Paul Watson diz que, para ter acesso ao vídeo, descarregou um gif, exportou-o e converteu-o para formato mp4 e publicou no Twitter: “Isto não é manipulação”.

Tim Pool, um jornalista habituado a trabalhar com vídeos, defendeu Paul Watson no Twitter: “Todos os jornais que alegaram que o vídeo foi adulterado ou acelerado nem sequer se importaram em verificar os factos. Duas análises diferentes mostraram que era provavelmente apenas por problemas de compressão que os dois vídeos não estão sincronizados. É por isto que as pessoas não confiam na comunicação social, todos eles escreveram a história devido a boatos, não factos”.

Shane Raymond, jornalista do site Storyful, também explicou o seu ponto de vista no Twitter: “Imagens do incidente Acosta publicado pela Casa Branca contêm frames repetidos que não aparecem na transmissão C-SPAN em que foi baseado. Esses frames (13, 14, 15) fazem parecer que a mão de Acosta parou subitamente, como se tivesse acertado em alguma coisa. Depois desses frames repetidos, os vídeos estão fora de sincronia, com a versão da Casa Branca fracionada por trás”.

De acordo com o jornalista, “o vídeo compartilhado pela Casa Branca foi interpolado, o que pode explicar porque é que ele parece mais desfocado e pode não ser exatamente igual aos frames progressivos do C-SPAN”: “A interpolação também pode fazer com que os movimentos pareçam mais rápidos. No entanto, apesar de ter sido amplamente divulgado que o vídeo foi acelerado, passei pela gravação frame a frame e não encontrei sinais de que esse fosse o caso. Em vez disso, um frame apareceu três vezes seguidas”.

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