Um ex-militar da guerra civil moçambicana e agora sapateiro nas principais avenidas de Maputo, está atento a um dos temas mais debatidos no país, o caso das dívidas ocultas do Estado, e diz que é favor do seu pagamento: “Dou nota mil pela ideia”, afirma Bernardo Sadariano à Lusa, enquanto remenda uma sandália, encostado à parede do Instituto Comercial de Maputo.

O passado nas Forças Armadas e de Defesa de Moçambique (FADM) – de 1986 até à desmobilização, em 1994 -, faz com que leve a sério os riscos de uma invasão pelo mar, razão que levou à constituição da empresa pública de segurança marítima Proindicus, uma das envolvidas no escândalo das dívidas não declaradas de dois mil milhões de dólares (16% do Produto Interno Bruto).

Só que uma auditoria divulgada em 2017 demonstrou que nem aquela, nem as outras duas empresas que receberam o dinheiro (Ematum e MAM) algumas vez serviram para o que deviam.

“Foi um bem, só que a transação não correu como mandam os trâmites”, interpreta o ex-militar, agora sapateiro.

O destino do dinheiro continua por apurar, mas os credores querem-no de volta e o Governo de Moçambique anunciou no dia 06 de novembro que chegou a acordo com parte deles para lhes pagar, contando com receitas que vai obter a partir da exploração de gás natural em 2022.

Fernando Buacala, jurista com o qual a Lusa se cruza noutra rua de Maputo, entende que o pagamento deve ser realizado porque se trata de um compromisso que o país assumiu.

“Em nome da solvabilidade, que o país atualmente não tem, [o acordo] é uma boa ideia. Mas o tempo [de amortização] é demasiado longo”, observa, acrescentando que a legalidade ou não do ato não impede que se pague.

Ângelo Muchanga, estudante, entende que um acordo é necessário para que o país volte a ter credibilidade junto dos seus parceiros internacionais – e se as receitas do gás servem para “sanar algumas necessidades”, essa pode ser uma delas.

João Mata apresenta-se como guia espiritual e, embora concorde com o pagamento da dívida, entende que se deviam usar as receitas do gás para resolver problemas da população moçambicana.

“Quando se faz um empréstimo e penhoro os meus bens, quem vai sofrer são os meus filhos”, exemplifica.

“Esta de ir ao gás, não me parece boa ideia, pois não houve acordo com a oposição e a sociedade civil”, acrescenta.

Simão João, guarda num dos bancos da praça, vai mais longe e pede que se encontrem os responsáveis pela dívida.

“Deviam procurar essas pessoas” em vez de onerar as contas públicas, logo, “os moçambicanos, que nem sabem como a dívida foi feita”, diz.

Simão não tem dúvida: as receitas do gás devem ser usadas para outros projetos.

Lúcia Macuácua, auditora, defende também que cada um deve arcar com as suas responsabilidades, ou seja, “quem pediu emprestado, deve pagar. Se usou indevidamente, deve pagar”.

Alda Langa, professora do Instituto Comercial de Maputo, diz mesmo que não faz sentido os moçambicanos pagarem por algo que nunca viram.

“Mas vamos dizer que estamos a pagar o quê”, questiona.

Ao lado, Lurdes Zita, doméstica, conclui que a dívida já está a ser paga, por todos, devido ao alto custo de vida dos últimos anos.