Acidentes e Desastres

Tragédia em Borba. Terceiro dia de buscas termina sem sucesso e pelo menos quatro vítimas continuam por encontrar

Ao final do terceiro dia de buscas em Borba, continua por recuperar o corpo de uma vítima mortal e não há ainda sinal dos pelo menos três desaparecidos. Governo aguarda resultado de inquérito.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Terminaram esta quarta-feira sem sucesso as buscas na pedreira junto à antiga estrada nacional 255, que ruiu na segunda-feira entre Vila Viçosa e Borba, no distrito de Évora. As autoridades partiram para este dia na expectativa de conseguir retirar da água do poço da pedreira o corpo da segunda vítima mortal confirmada — o cadáver da primeira já havia sido retirado ao início da tarde de terça-feira — mas tal não foi possível, apesar de a localização do corpo já ter sido identificada.

As duas vítimas mortais confirmadas eram os ocupantes de uma máquina escavadora que operava na pedreira. Além destas duas, há três pessoas desaparecidas, que seguiam em viaturas que circulavam na estrada no momento em que aquela formação rochosa ruiu. Não foram ainda encontrados sinais que permitam saber onde estão estas pessoas.

Na conferência de imprensa em que fez o ponto de situação do dia, o comandante distrital de operações de socorro de Évora, José Ribeiro, disse que a Proteção Civil vai precisar de “tempo” para as operações. “Não vale a pena dizer que vamos ter um golpe de sorte que nos vai resolver o problema complexo que temos pela frente, pois as condições realmente são muito difíceis”, afirmou o comandante.

Durante esta noite, a operação de drenagem da água da pedreira vai continuar, monitorizada por alguns elementos da Proteção Civil. Na manhã de quinta-feira, esta operação será reforçada e as buscas serão retomadas, desta vez com recurso a equipamento “diferenciado”, propriedade da Marinha Portuguesa, que permitirá preparar os passos seguintes nas buscas.

Governo ordenou inspeção. Costa aguarda resultados

O dia começou com a notícia de que o Ministério do Ambiente e da Transição Energética ordenou “que, no prazo de 45 dias, a Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT), proceda a uma inspeção ao licenciamento, exploração, fiscalização e suspensão de operação das pedreiras situadas na zona onde ocorreu o acidente do dia 19 de novembro”.

Foi também nesta quarta-feira que António Costa quebrou o silêncio sobre o caso — até agora, ainda não tinha falado sobre o assunto — para dizer que “o Governo não sabia” dos riscos naquela região. “A Direção-Geral de Energia e Geologia já fez declarações públicas dizendo que tinha dados que não indicavam risco relativamente àquela situação. O risco verificou-se que existia e foi ordenado inquérito para ver se há falha na parte que respeita ao Estado”, disse António Costa aos jornalistas.

O primeiro-ministro insistiu que “o que compete ao Estado relativamente a esta situação é só o licenciamento e fiscalização do funcionamento de pedreiras”, pelo que deverá aguardar pelo resultado das investigações. “Não nos compete, naturalmente, comentar atos de responsabilidade de outras entidades. O ministro do Ambiente ordenou, e bem, que relativamente àquilo que nos compete, que é fiscalizar e licenciar a atividade das pedreiras, se verifique o que é que aconteceu, ou se aconteceu alguma coisa, que tenha contribuído para aquele desastre, aquela tragédia”, disse o primeiro-ministro.

Já o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que na terça-feira tinha feito uma visita relâmpago ao teatro de operações, voltou a falar esta quarta-feira sobre a tragédia, recordando que passou por aquela estrada “dezenas de vezes”. “Quando passava ali passava, naturalmente, como qualquer pessoa que anda numa via pública, na expectativa de que a administração pública garanta a segurança dos cidadãos”, disse aos jornalistas.

Partidos políticos querem respostas

Juntaram-se esta quarta-feira ao debate público em torno da tragédia algumas vozes críticas da parte dos partidos políticos. A líder do CDS, Assunção Cristas, afirmou que “esta é uma situação em que o Estado certamente falhou”, restando saber se é “uma falha do Estado central ou local”. “Espanta-me que, aparentemente, todos soubessem e que só agora o primeiro-ministro e o Governo digam que estão a averiguar”, disse Cristas.

Também o Bloco de Esquerda se posicionou, requerendo “com a máxima urgência” as audições dos ministros da Economia e do Ambiente no Parlamento. “Consideramos que a Assembleia da República não pode também passar ao lado desta questão e, com esse objetivo, apresentamos hoje um requerimento na comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas no sentido de chamar aqui à Assembleia da República o Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia, a Agência Portuguesa do Ambiente, o ministro do Ambiente e Transição Energética e o ministro Adjunto e da Economia”, anunciou o deputado do Bloco de Esquerda Heitor de Sousa.

A tragédia de Borba foi também o pretexto para uma das primeiras posições públicas da Aliança, o recém-formado partido de Pedro Santana Lopes, que associou a falta de recursos do Estado “à política que o Governo, em obediência cega a Bruxelas, tem seguido de cativações, unicamente com o objetivo de cumprir os valores nominais do défice”.

Esta quarta-feira foi celebrado o funeral da vítima que já foi retirada do fundo da pedreira, Gualdino Pita, de 49 anos, que trabalhava ali há vários anos. Também esta tarde foi celebrada uma missa no Santuário do Senhor Jesus dos Aflitos, em Borba, presidida pelo arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho.

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