Kevin Spacey não fazia qualquer publicação nas redes sociais desde 30 de outubro de 2017. Na altura, o ator norte-americano emitiu um comunicado onde pedia desculpa a Anthony Rapp, o primeiro jovem a acusá-lo de assédio sexual, e revelava pela primeira vez que é homossexual. Passou mais de um ano. Esta segunda-feira, véspera de Natal, Kevin Spacey decidiu voltar à ribalta e reaparecer: mas a maneira como o fez está a ser criticada e encarada com espanto e surpresa — até por outros atores de Hollywood.

No mesmo dia em que se soube que foi formalmente acusado de agressão sexual a um jovem de 18 anos, no Estado do Massachusetts, Kevin Spacey publicou um vídeo com o título “Deixem-me ser franco”, uma brincadeira com o nome da personagem que interpretava na série de sucesso “House of Cards”, Frank Underwood — o ator de 59 anos foi despedido da série da Netflix pouco depois de o escândalo de assédio sexual ser conhecido, mas decidiu agora voltar a interpretar a personagem para o vídeo. Durante o discurso, Kevin Spacey parece debruçar-se sobre dois tópicos: o facto de a personagem que interpretava na série ter morrido, para justificar a saída do ator; e todos aqueles que o criticaram e atacaram depois das notícias que o envolviam em casos de assédio.

“Eu sei o que é que vocês querem. De certeza que eles nos tentaram separar mas aquilo que nós temos é demasiado forte, demasiado poderoso. Afinal, partilhámos tudo, eu e vocês. Eu contei-vos os meus segredos mais profundos e mais obscuros. Mostrei-vos exatamente aquilo de que as pessoas são capazes. Choquei-vos com a minha honestidade. Acima de tudo, desafiei-vos e fiz-vos pensar. E vocês confiaram em mim, ainda que soubessem que não o deviam fazer. Por isso nós não acabámos, digam o que disserem. E, além disso, eu sei o que vocês querem. Vocês querem-me de volta”, afirmou o ator, que saiu da série e deixou o lugar de protagonista para a atriz Robin Wright, que interpretava o papel da mulher de Frank Underwood.

Kevin Spacey acrescenta ainda que “alguns acreditaram em tudo e estão só à espera, com a respiração calma, de ouvir uma confissão”. “Estão a morrer para me ouvir declarar que é tudo verdade e que tive o que merecia. Não era tão fácil? Se tudo fosse assim tão simples. Só que eu e vocês sabemos que nunca é assim tão simples, nem na política, nem na vida. Mas vocês não acreditariam no pior sem provas, pois não? Não saltariam para julgamentos sem factos, pois não? Fizeram-no? Não, vocês não. Vocês são mais inteligentes do que isso”, sentenciou o ator, sempre sob a voz da personagem de “House of Cards”.

O vídeo publicado esta segunda-feira por Spacey já motivou muitas críticas e frases de surpresa e incredulidade — na sua maioria, de outros atores. Jon Favreau, ator que entrou na série “Friends” e em vários capítulos da saga “Os Vingadores”, recorreu ao Twitter para reagir à publicação de Kevin Spacey e perguntou se o ator “usa a equipa legal de Donald Trump”. Patricia Arquette, conhecida por protagonizar a série “Medium” e vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária em 2015, afirmou que “nenhum dos homens que eram crianças na altura em que foram vítimas de agressões sexuais apreciaram o vídeo estranho de Kevin Spacey”. Já Rosanna Arquette, irmã de Patricia e também ela atriz, foi mais longe e defendeu que o ator “perdeu a cabeça”. “Que vídeo absurdo. Isto é só o princípio. Existem muitas mais vítimas. O que as pessoas não percebem é que a verdade vai acabar por vir ao de cima. Os homens maus e mentirosos podem acabar depois de todos, mas acabam”, escreveu a atriz de “Pulp Fiction” e “Crash”.

Kevin Spacey vai ser formalmente acusado dos crimes de agressão sexual e ofensas corporais pelos procuradores locais de Cape Cod and the Islands, no estado do Massachusetts (EUA). O ator de 59 anos deverá comparecer perante um juiz no dia 7 de janeiro para responder por acusações de agressão sexual e lesão corporal ao filho de uma jornalista televisiva de Boston.

O procurador Michael O’Keede anunciou esta segunda-feira que Spacey será formalmente acusado no Tribunal de Nantucket a 7 de janeiro. Em causa está uma alegada agressão sexual a um jovem de 18 anos, filho da jornalista Heather Unruh, do canal de televisão WCVB-TV. “Fico contente por saber que o caso está a avançar no sistema judicial”, comentou a mãe da alegada vítima ao Boston Globe.