Benjamin Griveaux, porta-voz do governo francês, foi na tarde de sábado retirado de um edifício do governo francês, em Paris, quando um grupo de manifestantes do oitavo protesto dos “coletes amarelos” (em francês, “gilet jaunes”) invadiu as instalações usando uma retroescavadora, avança o Le Parisien. Eram 16h30 quando quinze pessoas — umas vestidas de amarelo, outras de preto — arrombaram a porta do ministério com uma máquina de construção. À BFMTV, Benjamin Griveaux disse que saiu pelas traseiras do edifício. Ninguém ficou ferido.

Num dia em que o protesto dos “coletes amarelos” atingiu números recorde, o presidente francês Emmanuel Macron garantiu que a “justiça será feita” face à “extrema violência” contra a República. Na rede social Twitter, o presidente francês notou como “mais uma vez, uma extrema violência atacou a República — os seus guardiões, os seus representantes, os seus símbolos”, depois de manifestantes terem tentado forçar a entrada em vários ministérios, em Paris. “Os que cometem estes atos esquecem o coração do nosso pacto cívico. Justiça será feita”, garantiu Macron, apelando a que todos voltem ao caminho de promoção do debate e do diálogo.

Durante o dia de sábado houve vários protestos a decorrer em cidades como Paris, Toulouse e Bordéus, tal como referia a cadeia pública francesa France Info. Montpellier, Lyon, Le Mans, Caen e Reims foram outros sítios marcados pelos protestos dos “coletes amarelos”. O Le Parisien contabilizou 50 mil manifestantes em todo o país, um número recorde. Cento e uma pessoas foram detidas e 103 interrogados. Um total de 3.600 agentes policiais patrulharam as ruas.

Apesar de este sábado ter mobilizado um número recorde de “coletes amarelos”, o ministro do Interior disse que “cinquenta mil são um pouco mais do que uma pessoa por comuna em França”. “Essa é a realidade do movimento dos ‘coletes amarelos’ hoje: pode-se ver que não é um movimento representativo em França”, afirmou Christophe Castaner, que também condenou os confrontos que surgiram à margem das manifestações.

Em Paris, durante a tarde sábado, registaram-se confrontos entre manifestantes e polícia. Nas pontes sobre o rio Sena, entre a praça Châtelet e as redondezas do edifício do poder municipal parisiense (o Hôtel de Ville), alguns manifestantes atiraram garrafas e pedras à polícia e as autoridades responderam com granadas de gás lacrimogéneo. A fúria dos “coletes amarelos” foi contida quando chegaram ao local reforços da unidade especial da polícia francesa CRS, segundo o jornal francês Le Monde.

As estações de metro Franklin Roosevelt, Assemblée Nationale e Miromesnil foram fechadas e a autoestrada A7 foi bloqueada no centro de Lyon. Foram montadas barricadas junto à igreja de Boulevard Saint Germain e alguns jornais locais chegaram a confirmar a existência de carros a arder nessa região. Outros dois carros arderam na rua Balzac, em Paris. Foi por essa altura que Christophe Castaner, ministro do Interior, publicou uma primeira mensagem no Twitter: “Com as tensões e a violência em Paris, reuni os representantes de nossas forças de segurança para uma videoconferência com os presidentes de Câmara. Peço a todos responsabilidade e respeito pela lei”.

A tensão, as chamas e o cheiro a queimado aumentaram pelas 16h15 locais (15h15 em Lisboa) na margem sul do rio Sena, em Paris. Os agentes dispersaram as centenas de manifestantes da zona junto ao museu de Orsay, mas os “coletes amarelos”, que têm exigido mudanças de políticas, deslocaram-se para a restante margem esquerda do rio Sena. Ao longo da avenida Saint Germain, as chamas eram visíveis, à medida que os manifestantes ateavam fogo a caixotes do lixo e a veículos. Apesar de estarem no local, os bombeiros não conseguiram desempenhar as suas funções,porque os manifestantes enchiam a artéria.

Conforme se testemunhava no local, a maioria dos manifestantes era jovem e estava encapuzada. Apesar de o trânsito continuar a circular e as portas dos restaurantes e cafés permanecerem abertas, o ambiente vivido assemelhava-se a uma “batalha campal”, devido aos arremessos de gás lacrimogéneo, de granadas de fumo e de very lights (foguetes incendiários). Da parte da polícia, a resposta foi dada com recurso a canhões de água.

Às 14h de Paris (13h portuguesas), estavam já concentrados 4 mil manifestantes, que marchavam em direção à Assembleia Nacional de França, edifício equivalente ao parlamento português. Um manifestante de 32 anos, que utilizava óculos de proteção e um cachecol a proteger a metade inferior do rosto lamentou-se após os confrontos, em declarações à agência de notícias France-Presse: “Atiram-nos logo gás diretamente”.

Indiferentes às concessões do executivo Emmanuel Macron, que anunciou o aumento do salário mínimo (suportado pelo Governo francês) e o travão às intenções de aumento do preço dos combustíveis, os “gilet jaunes” franceses planeiam prosseguir com as manifestações durante este ano, pedindo ainda a saída de Emmanuel Macron.

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Em Bordéus, a concentração aconteceu na praça de la Bourse e em Toulouse no Capitólio local (principal edifício do poder municipal da cidade) e na praça Thomas Wilson. Na rede social Twitter, um utilizador publicou um vídeo alegadamente feito no dia de sábado em que se vê a polícia a atirar gás lacrimogéneo a manifestantes em Montpellier. Em Rouen terá acontecido o mesmo.

Os protestos têm diminuído de intensidade nas últimas semanas mas deverão continuar: às 12h de sábado (11h em Portugal continental), uma das manifestantes mais mediáticas do protesto dos “coletes amarelos” franceses gritou ao megafone: “Vamos protestar aqui todos os sábados, vamos continuar a fazê-lo em 2019”.

Segundo refere a France Info, alguns manifestantes tentaram evitar o cerco da polícia, que tem intensificado a monitorização. A estratégia que estará a ser equacionada é a remoção dos coletes, para que os manifestantes possam passar despercebidos nas ruas e sejam impossíveis de diferenciar de outros cidadãos comuns.

Na passada quarta-feira, as autoridades francesas detiveram Éric Drouet, um dos principais instigadores do movimento “coletes amarelos”, por organizar um evento sem autorização prévia

Detido em Paris um dos principais instigadores do movimento ‘coletes amarelos’