O futebol é um mundo ingrato. Um mundo onde em espaço de semanas ou até dias uma equipa pode deixar de ser uma das melhores do mundo e entrar automaticamente numa crise de resultados e exibições. Há duas semanas, o Real Madrid conquistou um título. E nem sequer foi um título qualquer: os merengues venceram o Mundial de Clubes pelo terceiro ano consecutivo e pela quarta vez em cinco anos (o mesmo percurso conseguido na Liga dos Campeões), tornando-se o clube mais bem sucedido da história da competição. Este domingo, porém, perderam em casa com a Real Sociedad, caíram para o quinto lugar da Liga espanhola (atrás do Alavés, do Sevilha e do Atl. Madrid) e estão já a dez pontos do líder Barcelona.

A crise em Madrid, contudo, está longe de estar apenas relacionada com resultados, exibições e lugares na tabela. A crise em Madrid é global e começou com a forma como Julen Lopetegui chegou ao comando técnico da equipa, sendo dispensado da seleção espanhola ainda antes do início do Mundial da Rússia, continuou com a maneira como o treinador foi despedido e deu lugar a Santiago Solari, arrastou-se com a nega de Antonio Conte e a permanência do técnico argentino depois de uma boa série de vitórias e culminou na derrota deste domingo – que trouxe críticas diretas de Modric, um estádio anormalmente longe de estar cheio e Gareth Bale a deixar o Santiago Bernabéu antes ainda do apito final.

O Real Madrid entrou na partida quase a perder, com um golo de Willian José logo aos três minutos, e, apesar de ter passado grande parte do jogo no meio-campo defensivo da Real Sociedad – muito graças a uma boa exibição de Vinícius Júnior, titular em vez de Isco –, não conseguiu concretizar o maior fluxo ofensivo e acabou mesmo por sofrer o segundo golo já aos 83 minutos. A expulsão de Lucas Vázquez, quando os merengues ainda perdiam pela margem mínima, veio dificultar uma tarefa que já era difícil e um jogo onde o árbitro foi protagonista, já que mereceu várias críticas por parte de adeptos, jogadores e treinador do Real Madrid por não ter consultado o VAR num lance onde se reclamava penálti a favor dos blancos: segundo o jornal Marca, o Real vai avançar com uma queixa formal para a Real Federação Espanhola de Futebol.

No final do jogo, Luka Modric foi a cara e a voz da desilusão merengue. O médio Bola de Ouro explicou que o problema do Real Madrid “não é só” a falta de eficácia – a equipa tem 26 golos em 18 jogos, enquanto que o Barcelona tem 50 em tantas outras partidas. “Falta-nos unidade em campo, marcam-nos golos em todos jogos e nós não marcamos. Há falta de concentração no início dos jogos. Não podemos cometer erros no princípio de todas as partidas e isso é falta de concentração. Temos que o evitar de futuro”, afirmou o jogador croata, recordando que o Real tem sofrido muitos golos nos primeiros minutos dos jogos, algo que dificulta desde logo a forma como a equipa ataca a partida (sofreram aos sete minutos com o Levante, 2′ com o CSKA, 11′ com o Barça, 1′ com o Atl. Madrid, 4′ com o Villarreal e agora 3′ com a Real Sociedad).

Modric foi a voz do desagrado do balneário merengue mas as críticas não foram bem recebidas por todos os companheiros

“O que é que podemos dizer? Que está tudo a correr bem? Não podemos dizer que está tudo a correr bem, que fizemos um bom jogo e não tivemos sorte. Não, não é isto. Temos de nos sentar, falar uns com os outros, é complicado para todos, temos de nos juntar mais e falar para sairmos desta situação. Isto dói-nos. Se quando as coisas correm bem há motivos para isso, também os há quando as coisas correm mal. Temos de ser claros: isto não é falta de sorte. Criamos muitas oportunidades, mas a bola não entra e sofremos muitos golos”, acrescentou Modric, que foi a prova de que o ambiente que se vive no balneário do Real Madrid está longe de ser o melhor.

Além de retirar todo o tipo de responsabilidade a Solari, já que o treinador “não pode marcar golos”, o croata assume que um grupo de jogadores está em subrendimento e inclui-se nesse conjunto: “Muitos jogadores não estão a render ao seu melhor nível, eu à cabeça, tenho de melhorar e estou aqui para assumir a responsabilidade”. O capitão Sergio Ramos, contudo, apresentou um discurso mais conciliador e lembrou que “dos problemas nascem sempre soluções”. “A equipa precisa de uma mudança, de uma reação. A equipa não tem falta de vontade ou de motivação. Temos uma equipa com fome e pelo menos a mim doem-me as pernas de correr hoje. Vamo-nos embora nesse sentido, com a consciência tranquila porque deixámos a alma em campo. Há duas semanas ganhámos um título. Se achasse que não vínhamos aqui ganhar ficava em casa com os meus filhos”, atirou o jogador espanhol.

E se a crise merengue se agravou com a derrota deste domingo, a verdade é que muitos adeptos demonstraram o seu desagrado ainda antes do apito inicial. Numa das assistências mais fracas dos últimos anos, apenas 53.412 espetadores assistiram ao Real Madrid-Real Sociedad: e se em Portugal estes seriam números para lá de satisfatórios, é preciso recordar que o Santiago Bernabéu tem capacidade para mais de 80 mil pessoas e está normalmente muito perto da lotação esgotada. E enquanto uns não foram ao estádio, outros saíram ainda antes do final do jogo. Já durante a madrugada desta segunda-feira, surgiram fotografias que mostram Gareth Bale a abandonar o Bernabéu quando a equipa ainda perdia por 0-1, por volta dos 78 minutos. O galês não fez parte da convocatória de Solari, por se ter lesionado na jornada passada, e não ficou no camarote para assistir ao jogo até ao final.

O Real Madrid, que entretanto confirmou a contratação do jovem Brahim Díaz ao Manchester City, está a atravessar o período menos concretizador desde há quase 30 anos (é preciso recuar até 1991/92 para encontrar uma equipa merengue com menos do que 26 golos em 18 jornadas). Com o resultado deste domingo, a equipa de Santiago Solari somou a nona derrota desde o início, igualando com 29 jogos o mesmo número de partidas que perdeu em 62 encontros da época passada.