Rui Rio

Análise: Da maçonaria à falta de ética. Os golpes de Rio e os ataques mais duros a Luís Montenegro

2.128

Maçon, irresponsável, imaturo, inconsciente. Se Montenegro havia sido duro no dia anterior, Rui Rio carregou nas tintas para responder e atacou o adversário forte e feio.

MÁRIO CRUZ/LUSA

Não há dúvidas de que esta semana foi de ouro para os viciados em política. Graças ao PSD, nestes últimos dias foi só pegar no balde das pipocas e ficar a assistir no sofá. A matiné desta tarde foi oferecida por Rui Rio, pouco mais de 24 horas depois de Montenegro ter declarado aberta a guerra. Na verdade, não havia alternativa e o presidente do PSD teria de responder rapidamente ao repto lançado pelo adversário, sob pena de parecer ainda mais fragilizado. Como se esperava, não aceitou ir para diretas, com o argumento de que é um líder legitimado e que o partido não pode andar ao sabor dos caprichos de um dirigente que não quis avançar quando tinha margem para isso. Criticou o timing do adversário, agora que os portugueses dão sinais de “insatisfação” e o governo revela “erosão e desgaste” (e ignorou que as sondagens colocam o PSD em níveis historicamente baixos). Ao “golpe palaciano”, Rio tentou responder com um golpe de mão, e surpreendeu com o anúncio de uma moção de confiança. Esta é a lista dos ataques mais duros de Rui Rio na resposta a Luís Montenegro. O terreno da batalha segue agora para um Conselho Nacional que há-de estar para breve e onde a direção nacional começa a fazer contas na esperança de finalmente dar o golpe de misericórdia aos “irresponsáveis”.  (Já agora, hão-de aparecer mais referências a golpes neste texto. A lista começa com uma e termina com outra. Fica o aviso.)

Golpes Palacianos

Foi o primeiro ataque, não só a Montenegro como aos seus apoiantes dentro do PSD. Não é uma acusação nova, mas a metáfora escolhida por Rui Rio é talvez mais rigorosa do que aquela que havia sido escolhida por alguns que lhe são próximos. Desde quinta-feira que se ouvia dos apoiantes de Rio que aquilo que o ex-líder da bancada parlamentar está a fazer é um “golpe de estado”. Na verdade, se é para usar este argumento, que se use “golpe palaciano” onde a deposição é habitualmente feita por forças pertencentes à mesma casa, ao mesmo governo – ou ao mesmo partido. Obviamente que o que mais interessa aqui é a componente do golpe, para tentar colar Montenegro a um usurpador que quer enfraquecer a liderança e age sem respeito pela legitimidade dos orgãos eleitos e pelo regular funcionamento das instituições.

Espetáculo deplorável de guerrilha interna

É a primeira vez que Rio admite publicamente, e numa declaração ao país, aquilo que verdadeiramente achou do discurso de Luís Montenegro no último congresso do PSD. Foi nessa altura que ficou o aviso de que se um dia se quisesse candidatar, avançaria sem pedir licença a ninguém. Foi também nessa altura que desferiu um primeiro ataque público a Rui Rio – um discurso que ajudou a aquecer um congresso relativamente morno. Quase um ano depois, e com a candidatura de Montenegro concretizada, Rio abre o livro: foi “o primeiro ato do espetáculo”, feito ainda sem que o presidente recém-eleito ou os orgãos nacionais tivessem sequer tomado posse, feito “sem qualquer motivo” que o justificasse a não ser a “ambição pessoal”, a “afronta” a Rio e à “direção democraticamente eleita”. Como reagiu Rio nessa altura? “Estranhei esta postura eticamente questionável. Mas agora tudo está claro.”

O capricho ilegítimo

É nesta fase que Rui Rio responde diretamente ao pedido de Montenegro para que convoque eleições diretas já. “A minha resposta é não”. E para a justificar, o presidente do partido alega a falta de legitimidade de quem não quis candidatar-se quando era o tempo para isso, de quem não o fez por razões “puramente táticas” e que agora quer “condicionar os calendários do partido à sua própria agenda pessoal”. Sem surpresa, Rio reduz Montenegro ao papel de militante (embora “destacado”) e pergunta-se porque é que o país e o partido hão-de “padecer” porque este militante “tem agora vontade de ser presidente do PSD”. Um capricho, portanto, de “gente irresponsável”, que não mede “a verdadeira consequência dos seus atos”.

A maçonaria

Golpes de estado, palacianos, de mão, de misericórdia. Faltava qual? O golpe baixo. E aqui está ele. Numa simples frase, Rio lembra a todos os que o ouvem a polémica em que Montenegro esteve envolvido em 2012 por causa da alegada presença a uma loja maçónica. Rio falava de “permanentes manobras táticas ao serviço de interesses individuais ou de grupos” e depois aproveitou o embalo para espetar a faca: “Sejam estes mais às claras ou mais escondidos sob o manto de um qualquer secretismo.” A sala, com muitos apoiantes convocados no próprio dia por Salvador Malheiro, aplaudiu.

A moção de confiança

No próximo Conselho Nacional hão-de contar-se espingardas, o tempo é de “clarificação”. A apresentação de uma moção de confiança seria a única forma de Rui Rio ir a jogo sem arriscar eleições já e tentar tirar trunfos a Montenegro. Justifica a opção por ter aquilo que, do seu ponto de vista, falta ao adversário – sensatez, sentido de Estado e de responsabilidade: “O PSD tem um líder eleito (…) Jamais tomará a decisão aventureira de colaborar numa caminhada insensata para o abismo”. Para quem já tinha posto a circular que tinha as assinaturas suficientes para convocar a reunião de conselheiros para decidir uma eventual moção de censura, o líder do partido tinha preparada uma tirada em tom paternalista: “Se os contestatários não conseguirem reunir as assinaturas para a apresentação de uma moção de censura, eu próprio facilito-lhes a vida e apresento no âmbito da mesma disposição estatutária uma moção de confiança”.

Santana e o serviço a Costa

Pode Santana Lopes servir de arma de arremesso? Pode, claro. E Rio mostrou como: “Infelizmente persistem os que preferem a guerrilha permanente à unidade do partido, apesar de o seu candidato, em que tudo apostaram, já nem sequer estar no PSD”. Quanto a António Costa, se o ex-líder da bancada parlamentar do PSD tinha acusado Rio de “complacência” para com o primeiro-ministro, o presidente do partido devolveu o ataque (não é a primeira vez que a direção do partido o faz). Acusa Montenegro de lançar confusão e instabilidade como “não há memória” e depois acrescentou: “Para quem se diz preocupado com o tipo de oposição que fazemos, é difícil imaginar melhor serviço ao PS e ao governo do que este”. Mais: “Lançar o PSD numa nova disputa interna à porta de eleições é fazer o jogo do PS e prestar serviço de primeiríssima qualidade a António Costa”.

Sá Carneiro

Para o final do discurso estava reservado o ataque mais fino do ponto de vista simbólico. Rui Rio acusava os adversários de estarem a agir apenas “pela tentativa de manutenção dos seus lugares nas próximas listas do partido”. Tentava assim esvaziar todos os argumentos apresentados no dia anterior por Luís Montenegro para justificar o anúncio de candidatura à liderança num ano com agenda carregada de eleições. O rival explicou-se durante 15 minutos, Rio resumiu tudo a “interesses pessoais”. E para classificar quem age assim, citou a referência fundadora do partido, Francisco Sá Carneiro: “Política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”. A bandeira da “ética” tem dado algumas dores de cabeça a Rui Rio, mas o presidente do partido voltou a usá-la sem pudor, desta vez para atacar Montenegro. E fê-lo socorrendo-se de um homem que mexe com a alma do PSD. Rio pegou na seta, colocou-lhe veneno na ponta e disparou-a num gesto preciso e eficaz: num golpe de mestre.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: pbenevides@observador.pt
China

Vamos mesmo ignorar isto? /premium

Sebastião Bugalho

A Europa assumiu pela primeira vez que o expansionismo da China representa uma ameaça para o continente e os jornais portugueses, que tão competentemente cobriram a visita de Xi, não fazem perguntas?

Governo

Quem quer casar com um governante?

Luís Reis

Se Soares foi Presidente-Rei, Costa revelou-se Primeiro-Ministro-Rei chamando o seu reduto doméstico a participar no governo dos súbditos, um nepotismo rosa instalado e a preparar a sucessão dinástica

Eleições Europeias

A mudança (que se impõe) na Europa

Rodrigo Saraiva

Ao invés do que supus, Macron tem desperdiçado as oportunidades para ser um agente da mudança. Aquilo que era um aparente europeísmo tem vindo a mostrar-se um eurocentrismo com toques de egocentrismo.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)