Lehmann, Lauren, Touré, Campbell, Cole, Ljungberg, Vieira, Silva, Pirès, Bergkamp, Henry. Em abril de 2004, ao empatar a duas bolas em White Hart Lane com o Tottenham, o Arsenal confirmou a conquista da Premier League. A temporada terminaria sem qualquer derrota para o Campeonato, algo que não acontecia desde que o Preston North End da temporada 1888/89 acabou o ano sem perder nenhum dos 27 jogos da Liga e da Taça de Inglaterra. Estes onze jogadores, de Lehmann a Henry, tornaram-se Os Invencíveis. Passaram quase 15 anos – e o Arsenal não mais voltou a ser campeão inglês.

Patrick Vieira era o capitão de equipa. Thierry Henry era a principal figura. Arsène Wenger, no banco, era o francês que tornou francófono um clube de Londres e, para além do médio e do avançado, tinha ainda Robert Pirès no onze titular e Wiltord, Cygan, Clichy e Aladière sentados no banco. Juntos, no Highbury Stadium, Vieira e Henry conquistaram duas Premier Leagues, duas Taças de Inglaterra e duas Taças da Liga. O médio foi o primeiro a sair, em 2005, rumo à Juventus; o avançado ficou mais dois anos, perdeu uma final da Liga dos Campeões para o Barcelona e juntou-se aos catalães no ano seguinte. Foram ambos capitães de equipa, Vieira primeiro, Henry quando Vieira saiu, e aprenderam com Wenger os princípios táticos, a paciência, o critério e a atenção ao jogador que hoje aplicam nas respetivas equipas. Esta quarta-feira, a partir das 18h, os antigos colegas, companheiros e amigos voltam a encontrar-se – mas, desta vez, em lados opostos da barricada. Vieira enquanto treinador do Nice; Henry enquanto treinador do Mónaco.

Vieira, Pirès, Henry, Ashley Cole e Gilberto Silva: cinco dos elementos fulcrais dos “invencíveis” do Arsenal de 2003/04

A parceria – ou o bromance, como lhe chama esta terça-feira a Eurosport, uma junção das palavras romance e bro, que simboliza a relação próxima entre dois amigos – começou ainda antes de se encontrarem em Londres e de canhão ao peito. Os dois franceses, que têm pouco mais do que um ano de diferença, já tinham conquistado juntos o Campeonato do Mundo de 1998, enquanto substitutos de uma equipa que tinha Deschamps, Desailly, Zidane e Karembeu, e o Campeonato da Europa de 2000, enquanto indiscutíveis ao lado do mesmo Zidane e do mesmo Deschamps. Enquanto representantes de uma geração da seleção francesa que não teve par até à atual, Vieira e Henry foram apenas alguns dos jogadores que acabaram por se tornar treinadores – numa generalização que se estende a outras seleções que participaram naquele Europeu de Inglaterra, incluindo a portuguesa. Ora, Portugal foi eliminado precisamente por França, na meia-final do Euro 2000, ao perder 2-1 graças a uma grande penalidade de Zidane, já no prolongamento, depois de Nuno Gomes e Henry terem marcado um golo para cada lado. Olhando para as duas equipas que se enfrentaram naquele 28 de junho de 2000, o número de jogadores que são atualmente treinadores é impressionante.

Juntos, médio e avançado conquistaram um Campeonato do Mundo e outro da Europa com a seleção francesa

Dos 44 jogadores, titulares e suplentes, franceses e portugueses, que estavam convocados para aquele França-Portugal a contar para as meias-finais do Campeonato da Europa de 2000, 22 já foram ou são atualmente treinadores. Ou seja, metade. De entre os nomes mais sonantes e óbvios de um lado e de outro, como Zidane, Laurent Blanc, Sérgio Conceição e Paulo Sousa, é preciso não esquecer Anelka, Ulrich Ramé, Abel Xavier e Rui Jorge. E Nuno Capucho, claro, que enquanto treinador do Varzim visitou o Dragão em outubro do ano passado e protagonizou, em conjunto com Sérgio Conceição, um reencontro semelhante àquele que Vieira e Henry vão ter esta quarta-feira.

O Nice de Patrick Vieira está no oitavo lugar do Campeonato francês, a lutar pelas posições europeias e com apenas menos quatro pontos do que o terceiro classificado Lyon; já o Mónaco de Thierry Henry está no penúltimo lugar, a meros três pontos da última posição e a lutar pela manutenção no principal escalão do futebol francês. Um começou a treinar no New York City nos Estados Unidos; o outro orientou os juniores do Arsenal para depois passar dois anos enquanto adjunto de Roberto Martínez na seleção belga. Esta quarta-feira, no Stade Louis II, estarão frente a frente, em lados opostos, bancos opostos e enquanto adversários. Mas a sombra de Arsène Wenger estará presente no Mónaco e em tudo aquilo que Vieira e Henry fizerem.