Rui Rio continua como líder do PSD e mais legitimado do que quando começou esta última batalha interna. Ganhou com a maioria dos votos, numa votação secreta e com um gravitas político que os opositores diziam que não tinha. Depois de 11 horas de Conselho Nacional, a moção de confiança apresentada pelo presidente do PSD foi aprovada com 75 votos a favor, 50 contra e um voto nulo. Arrastaram-no para esta discussão os que o acusavam de ser o Dupond de António Costa e, por ironia, Rui Rio acabou por revelar uma das qualidades mais atribuídas ao primeiro-ministro: a habilidade política.

Quando o ameaçaram com uma moção de censura, antecipou-se com uma moção de confiança. Quando o desafiaram para diretas, escolheu campo e bola e marcou um Conselho Nacional. Quando o acusavam de preparar golpe ao impedir o voto secreto, pediu ele mesmo aos conselheiros para aprovarem essa forma de votação, quando já sabia que o tabuleiro estava mais do que inclinado para o seu lado.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os críticos queriam clarificar e foi Rio quem clarificou. Reforçou-se com o que os apoiantes chamaram de “golpe de Estado”. Ganhou uma desculpa, que não tinha, para afastar os opositores das listas de deputados. Obrigou aquilo que chamava de conspiração de corredores e de jornais a estar à vista de todos.

No Conselho Nacional desta quinta-feira conseguiu que os críticos — em vez de dedicarem todo o discurso a atacar a sua estratégia — tivessem de perder vários minutos (quer no espaço mediático, quer nas intervenções do Conselho Nacional) a discutir uma questão jurídica que Rio, numa intervenção de dois minutos, transformou em questão meramente política. Teve ainda o mérito de transformar um Conselho Nacional — embora aqui tenha de dividir os louros com os críticos — numa espécie de Congresso à antiga, quando eram eletivos e cheios de golpes e contra-golpes políticos.

Antes de tudo isso houve uma discussão que durou mais de nove horas e que tirou o foco da moção de confiança em si mesma. Em vez de se discutir o que se votava, o tempo foi em grande parte ocupado a debater como se votava. Argumento jurídico, atrás de argumento jurídico. O grande debate foi: a moção de confiança ao líder devia ser votada de braço no ar ou em voto secreto? Na verdade, houve as duas formas. E com uma sublime ironia: o voto secreto foi aprovado de braço no ar. No fim, ganhou Rui Rio.

“Partido estava adormecido e hoje está mais vivo do que nunca”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Sem Montenegro no hotel, foi Hugo Soares o rosto do Montenegrismo. Assim que Mota Pinto decidiu sujeitar a metodologia de voto a votação dos conselheiros, Hugo Soares (defensor do voto secreto) apareceu aos jornalistas a lembrar que o parecer do Conselho de Jurisdição era claro quanto à interpretação do regulamento: se requerido por um décimo dos conselheiros, a votação devia ser secreta. “Lamentavelmente o Conselho de Jurisdição teve de abandonar a sala porque o presidente da Mesa não acatou com a decisão e exigiu que fosse o CN a decidir”, disse, enaltecendo ainda assim a postura de Rui Rio, que acabou por apelar ao voto secreto. “Só lamento que tenha sido preciso uma noite inteira para isto”.

“É lamentável haver decisões de braço no ar para decidir a metodologia da votação”, disse, para a seguir rematar com uma frase de balanço: “O partido estava adormecido e hoje está mais vivo do que nunca”, disse, recusando que tal afirmação fosse uma pré-admissão de derrota. Mas a derrota acabaria por se confirmar.