Há um terceiro bebé geneticamente modificado pelo cientista chinês He Jiankui, confirmou o governo provincial de Guangdong esta segunda-feira, noticiou a Agence France Presse. A grávida desde terceiro bebé, assim como as gémeas da primeira experiência, encontram-se sob observação médica.

O cientista chinês, He Jiankui, que está desaparecido desde dezembro passado, criou polémica com o seu projeto de modificação genética. Dessa experiência nasceram dois bebés com ADN manipulado. Jiankui alterou os genes de dois embriões para torná-los imunes ao vírus da imunodeficiência humana (VIH). As gémeas, Lulu e Nana nasceram após uma fertilização in vitro feita a partir de embriões editados antes de serem implantados no útero da mãe. Mas apenas uma delas está imune ao vírus.

He Jiankui anunciou, no ano passado à Associated Press, em vésperas da Segunda Cimeira Internacional sobre Edição Genética Humana em Hong Kong, que havia “outra provável gravidez”. Nessa mesma semana, o cientista, tinha outro discurso marcado da mesma cimeira, mas nunca chegou a aparecer.

O seu desaparecimento ocorreu depois de a Comissão de Saúde Nacional da China ter aberto uma investigação às experiências do cientista. Este tipo de estudos, a alteração genética aplicada a humanos, é proibido na maioria dos países, incluindo na China. Por isso o governo chinês suspendeu as atividades do cientista pouco depois de o estudo ter sido anunciado publicamente.

De acordo com Reuters, após a investigação da Task Force Investigation da província de Guangdong, a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul (SUSTech), na cidade de Shenzhen, afirmou em comunicado no seu site que o Jiankui tinha sido demitido:

Com efeito imediato, a SUSTech rescindirá o contrato de trabalho com o Dr. Jiankui He e encerrará qualquer uma de suas atividades de ensino e pesquisa na SUSTech”, dizia o comunicado.

A investigação que ultrapassou os limites de ética

He Jiankui “ultrapassou os limites éticos à fim de procurar fama e lucro pessoal”, disse a Comissão de Saúde da China no relatório citado pela Reuters, esta segunda-feira. Jiankui “angariou fundos e reuniu cientistas estrangeiros por conta própria”, concluiu depois um relatório. Durante a realização do projeto, o investigador usou a “tecnologia sem garantia de segurança e eficácia” e “falsificou documentos de revisão ética” de modo a conseguir voluntários para a sua pesquisa. Foram descobertos oito casais voluntários, mas um deles acabou por desistir durante o processo.

A alteração genética é vista como um grande potencial por parte de alguns investigadores. Contudo, todos demonstram preocupação em relação à segurança e a tecnologia de alteração dos genes CRISPR-Cas9, que Jiankui usou durante o procedimento. O cientista utilizou esta tecnologia para eliminar o vírus VIH.

Os resultados ao longo prazo, também inquietam os investigadores: “A edição de embriões humanos é prematura: os efeitos a longo prazo ainda não são claros”, afirma o especialista em modificação de genes e tecnologia CRISPR na Universidade de Tecnologia de Queensland, Dr. Dimitri Perrin. Os especialistas alertam para a importância de proteger as pessoas e “impedir a exploração de populações vulneráveis”, disse Clovis Palmer, chefe do Laboratório de Imunometabolismo e Inflamação do Instituto Burnet (ONDE).

O especialista em tecnologia genética e cancro da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de New South Wales, Darren Saunders, questiona a atitude dos cientistas envolvidos no projeto do Jiankui: “Os cientistas estavam a trabalhar fora dos limites éticos e regulatórios”. No entanto, o professor Saunders aplaudiu as autoridades chinesas: “É realmente encorajador ver a ação rápida das autoridades chinesas e enviar uma declaração clara de tolerância zero para esse comportamento imprudente e perigoso”.