O que pode a revolução cubana ter em comum com um Chevrolet de 1959? À partida, nada. Mas para o ex-capitão da polícia cubana, Anselmo Ramírez, esta é a conjugação perfeita, já que envolve as suas grandes paixões. A memória da revolução não é indiferente ao antigo agente da Polícia Nacional Revolucionária, uma vez que dedicou largos anos da sua vida a ser guarda-costas de Juan Almeida, um dos comandantes históricos de Fidel Castro. Já o fascínio por carros antigos vindos da América levou-o a viver um dos grandes episódios da sua vida, que contou ao El País: percorreu a ilha de Cuba de uma ponta à outra em busca de um Chevrolet Impala de 1959, que encontrou em Havana, pintado de preto e em “perfeito estado”, nas mãos de uma jovem que acabaria por se tornar sua companheira.

É preciso recuar aos tempos em que Anselmo Ramírez, hoje com 60 anos, conseguiu adquirir o seu primeiro carro: um Chevrolet de 1956, então muito popular em Cuba. Apaixonou-se pelo modelo Impala, que tinha um design estilizado, e que era então o carro mais vendido nos Estados Unidos durante os anos 60. Aquele carro aparecia, assim, como um marco na revolução industrial automóvel, “com as suas grandes barbatanas modernistas projetadas para o exterior”. “Toda a gente na rua queria vê-lo”, recorda Ramírez ao diário espanhol.

O ex-capitão cubano não é religioso, mas acredita no poder de São Lázaro, o santo mais celebrado em Cuba, e a quem atribui a responsabilidade de hoje ainda estar vivo, depois de ter escapado a um trágico acidente em 2005. Ramírez tem o dia 4 de Junho desse ano bem presente na memória. Seguia ao volante do seu automóvel a 120km/h com os seus dois filhos, depois de beber cerveja e comer leitão assado com amigos. À saída de Havana, os travões falharam. O carro rodopiou no alcatrão molhado e acabou por chocar contra uma árvore, destruindo o Chevrolet por completo. Ramírez e os filhos não sofreram um único arranhão.

Acreditando ter sobrevivido por milagre, o antigo agente da polícia cubana mandou construir uma estátua de São Lázaro em tamanho real, levou-a para a rua, e velou-a durante toda a noite. Não só agradeceu por ter sobrevivido, junto com a sua família, como fez também um pedido especial: que o santo mais adorado pelos cubanos colocasse no seu caminho um novo Chevrolet Impala. E este foi o mote para uma aventura que só terminaria depois de Anselmo Ramírez percorrer a ilha inteira, desde as cidades mais conhecidas aos cantos mais remotos do país.

Depois de um falso alarme, o ex-capitão da Polícia Nacional Revolucionária começava a perder as esperanças e a dar como perdida a procura pelo carro. Foi então que, conta Ramírez ao El País, São Lázaro voltou a colocar-se no seu caminho. Depois de visitar Cuba de uma ponta à outra, o ex-capitão teve conhecimento de um Impala preto em Havana, com quatro portas e em “boas condições” — terá sido um dos últimos carros americanos que entraram no país. “Foi de um médico do hospital psiquiátrico que o comprou novamente em junho de 1959 e praticamente não o usava”, lembra Ramírez.

O Chevrolet Impala terá sido comprado por um emigrante cubano-americano de 60 anos, que registou o automóvel em nome de uma jovem amiga, e que terá tido problemas com a justiça, nunca mais voltando à ilha. O automóvel, de modelo Sedan V6, com motor Chevrolet 265, “estofos vermelhos e brancos e perfeitas condições”, deixou o antigo capitão da polícia muito impressionado. A jovem pediu-lhe dez mil dólares (mais de 8.700 euros) pelo carro, mas Ramírez só tinha sete mil para oferecer, implorando assim que lhe fosse dado um tempo para que conseguisse o dinheiro que faltava. Mais uma vez, Ramírez parecia cair nas boas graças de São Lázaro. A mulher confiou na sua palavra e deu-lhe o automóvel, que viria entretanto a ser pago na sua totalidade. Perante tal gesto, Ramírez e a jovem tornaram-se amigos, e, mais tarde, companheiros.

Anselmo Ramírez pertence atualmente a um clube de donos de carros clássicos em Cuba, o A Lo Cubano, composto por mais de 150 apaixonados por carros antigos, que só continuam na estrada graças aos esforços dos seus donos e de mecânicos que conseguem adaptar peças de outros veículos.

Os anos passaram e Ramírez conseguiu manter o seu Impala em bom estado. No entanto, esse amor tinha um elevado preço: entre arranjos e manutenção, contavam-se dois mil dólares de custos, “uma verdadeira fortuna em Cuba”. O ex-capitão viu-se então obrigado a deixar aquela sua paixão para trás, acabando por vender o automóvel. Mas, ao El País, rejeita a ideia de nostalgia: “É preciso saber o momento das coisas: assim como houve uma revolução que aconteceu apenas uma vez, o mesmo aconteceu com o Impala. Não faz sentido olhar para trás e lamentar por isso.”