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Liga Europa

Um Submarino que foi melhor do que um barco que não teve marinheiro (a crónica do Sporting-Villarreal)

O Villarreal não vencia há dez jogos mas veio a Alvalade derrotar o Sporting. Os leões, em dia mau de Bruno Fernandes, perderam e colocaram em risco a passagem aos oitavos da Liga Europa.

Bruno Fernandes esteve esta quinta-feira muito abaixo dos níveis habituais (e o Sporting sentiu em demasia esse apagão)

LUSA

Marcel Keizer tem-se esforçado para garantir que o Sporting não depende de Bruno Fernandes – ainda que o médio seja o jogador em melhor momento de forma nos leões, tenha já 20 golos esta temporada e seja o principal responsável pelo adiar de uma crise iminente que o Sporting está a sentir a chegar desde que conquistou a Taça da Liga. Na antevisão da receção ao Villarreal, e depois de uma semana em que Bruno Fernandes marcou duas vezes ao Benfica e ainda bisou frente ao Feirense, o treinador leonino explicou que “entende a pergunta” mas recusou a premissa. “O Sporting não é Bruno Fernandes e mais 10. Mesmo os jogadores mais talentosos não fazem tudo sozinhos”, disse Keizer.

Ainda assim, na hora de escolher o onze inicial que iria jogar os 16 avos de final da Liga Europa, o técnico holandês deixou transparecer exatamente a ideia contrária. Depois de na mesma conferência de imprensa ter deixado claro que a prioridade do Sporting não é a competição europeia e que não é “obrigatório” os leões conseguirem o apuramento para os oitavos de final, Keizer fez aquilo que aparentou ser uma poupança e uma gestão de esforço e mudou mais de meia equipa. Bruno Fernandes, porém, o mais utilizado da equipa e o jogador com mais minutos nas pernas, manteve-se no onze. Face ao último jogo, a vitória fora frente ao Feirense, saíram Renan, Ristovski, Tiago Ilori, Borja, Gudelj, Wendel e Diaby; entraram Salin, Bruno Gaspar, André Pinto, Petrovic, Miguel Luís, Jovane e Raphinha. Contas feitas, somente Bruno Fernandes, Bas Dost, Coates e Acuña (ainda que este último tenha passado de extremo para lateral) resistiram à razia.

Ficha de jogo

Sporting-Villarreal, 0-1

Primeira mão dos 16 avos de final da Liga Europa

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Clément Turpin (França)

Sporting: Salin, Bruno Gaspar (Ristovski, 27′), Coates, André Pinto, Acuña, Miguel Luís, Petrovic (Wendel, 70′), Raphinha, Bruno Fernandes, Jovane (Luiz Phellype, 70′), Bas Dost

Suplentes não utilizados: Renan Ribeiro, Tiago Ilori, Diaby, Gudelj

Treinador: Marcel Keizer

Villarreal: Andrés Fernández, Mário Gaspar, Álvaro, Funes Mori, Víctor Ruiz, Pablo Fornals (Iborra, 80′), Carlos Bacca, Manu Trigueros (Cáseres, 62′), Alfonso Pedraza, Javi Fuego, Samu Chukwueze (Raba, 74′)

Suplentes não utilizados: Asenjo, Ekambi, Santi Cazorla, Quintillà

Treinador: Javier Calleja

Golos: Alfonso Pedraza (3′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Acuña (6′ e segundo amarelo e vermelho aos 77′), a Miguel Luís (15′), Raphinha (45+2′), Bruno Fernandes (90+3′), Luiz Phellype (90+4′)

Do outro lado, aparentemente, estava um Villarreal à procura de motivos para sorrir. Os espanhóis estão na penúltima posição da Liga espanhola, com mais dois pontos do que o último, e não venciam há dez jogos consecutivos. Javier Calleja, despedido em dezembro devido aos maus resultados, regressou ao “Submarino Amarelo” apenas 50 dias depois e voltou a tentar recuperar uma equipa onde nada parece correr bem esta temporada. As competições europeias, onde o Villarreal ainda não perdeu, parecem ser o balão de oxigénio de uma segunda metade de época que será feita, inevitavelmente, a lutar pela manutenção no principal escalão do futebol espanhol. Mas para esse balão de oxigénio continuar a crescer, era preciso ser melhor do que o Sporting na eliminatória a duas mãos – algo que o Villarreal cedo mostrou que queria.

Logo aos três minutos, numa altura em que ainda nenhuma das equipas tinha esboçado qualquer intenção mais ofensiva, Chukwueze rodou sobre Acuña na direita do ataque espanhol, venceu o argentino na velocidade e cruzou atrasado para uma grande área recheada de defesas às aranhas; a bola bateu em André Pinto, bateu em Coates e ficou redonda à espera de Alfonso Pedraza, que embalado a partir de trás rematou certeiro para a baliza de Salin. Três minutos de jogo e o Villarreal já ganhava em Alvalade, com um golo do extremo espanhol de 22 anos que marcou pela segunda vez esta temporada. O Sporting de Keizer entrava nas rondas a eliminar da Liga Europa praticamente a perder e era necessária uma reação.

É nestas alturas – em que é preciso reagir, recuperar, pressionar, criar – que o Sporting tem delegado em Bruno Fernandes a função de tudo fazer. O médio é normalmente o responsável por reagir, recuperar, pressionar e criar e, ainda que nem sempre esse esforço culmine em vitórias, tem pelo menos resultado no menor dos males. Mas esta quinta-feira, em que até foi dia de S. Valentim, Bruno esteve pouco apaixonado pela bola e ela também demonstrou pouco amor por ele: o médio português rematou e tentou assistir mas esteve longe dos habituais níveis exibicionais durante a primeira parte. Como não podia deixar de ser, ainda que Marcel Keizer não o admita, o Sporting ressentiu-se e esteve desligado da partida até faltarem dez minutos para o intervalo. Do outro lado, contudo, o Villarreal baixou linhas e juntou blocos logo depois do golo de Pedraza e ficou à espera da equipa portuguesa. Tirando arrancadas de Fornels e contra-ataques, os espanhóis nada mais fizeram até ao final do primeiro tempo e foram para o intervalo com apenas 39% de posse de bola e um remate enquadrado (o do golo).

O Sporting, que ainda antes da meia-hora foi obrigado a realizar uma substituição devido a uma lesão muscular de Bruno Gaspar (entrou Ristovski), tinha mais bola mas não conseguia transformar esse controlo em ocasiões de golo. Faltava ligação entre o meio-campo e o ataque, faltava critério no passe e faltava tentativa e objetivo – tudo isto apesar de Miguel Luís e Bruno Fernandes, que mesmo alguns pontos abaixo do normal continuava muitos pontos acima de todos os outros. O jovem médio português, que não jogava desde o dia 3 de janeiro, foi o elemento mais coerente e constante do primeiro tempo e venceu os cinco duelos aéreos que disputou: em comparação, Wendel, o habitual titular no meio-campo leonino desde que Keizer substituiu José Peseiro, ganhou apenas um durante toda a temporada. Os leões aceleraram nos últimos dez minutos da primeira parte e aproximaram-se da baliza de Fernández por intermédio de um cabeceamento de Petrovic e um remate de Jovane. Contudo, foram para o intervalo a perder em casa e com apenas um remate enquadrado feito à baliza adversária.

Na segunda parte, ao contrário daquilo que seria de esperar, o Villarreal voltou com mais vontade de fazer o segundo golo do que o Sporting de fazer o empate. Bruno Fernandes continuava apagado, Ristovski e Acuña não tinham influência suficiente nos corredores laterais, Raphinha cometia vários erros e Bas Dost permanecia perdido, como, aliás, tem estado nas últimas partidas. Jovane e Miguel Luís, os dois miúdos, eram os mais inconformados com o resultado negativo e, enquanto um segurava o meio-campo com muita certeza e acerto, o outro procurava fugir da ala para terrenos interiores e tentar remates de longe. Até aos 69 minutos, a melhor ocasião de golo do Sporting na segunda parte era uma arrancada do central Sebastián Coates pela direita do ataque, que terminou com um remate cruzado e rasteiro que Fernández aliviou para pontapé de canto.

Mas essa altura também serviu como aquilo que parecia ser uma espécie de ponto de viragem no jogo. O Sporting percebeu que tinha normalmente vantagem no duelo individual e que podia provocar o confronto direto e forçar entradas na grande área: aos 69 minutos, Raphinha teve a melhor ação desde o início do encontro e descobriu espaço na esquerda do ataque, cruzando para Bas Dost já no interior da área. O avançado holandês rematou de primeira para uma grande defesa de Fernández e Marcel Keizer reagiu com as entradas de Luiz Phellype e Wendel para as saídas de Petrovic e Jovane (que, quando saiu, liderava em remates, cruzamentos, dribles e passes). Os leões continuaram por cima, remeteram o Villarreal ao seu meio-campo defensivo, Raphinha ainda acertou no poste no seguimento de um canto mas Marcos Acuña foi o responsável por um segundo ponto de viragem.

Aos 77 minutos, com o Sporting com o controlo do jogo e mais perto do empate do que o Villarreal do segundo golo, Acuña fez uma falta imprudente e viu o segundo cartão amarelo – depois de ter visto o primeiro logo aos seis minutos, por protestos. O lateral argentino foi expulso e deixou a equipa de Alvalade reduzida a dez unidades e com necessidade de defender os últimos quinze minutos com André Pinto sozinho no meio e Wendel recuado para a esquerda, já que Coates passou o derradeiro quarto de hora na frente de ataque. Os esforços do central uruguaio, que se juntou a Dost, Luiz Phellype, Raphinha e Bruno Fernandes nas últimas tentativas desesperadas de chegar ao golo do empate, não foram suficientes para evitar a derrota caseira frente ao penúltimo classificado da Liga espanhola.

O Villarreal não vencia há dez jogos mas veio a Lisboa ganhar ao Sporting e marcar um importante golo fora que poderá ser decisivo para resolver a eliminatória. Os leões precisam de ganhar em Espanha, na segunda mão, para carimbar o apuramento para os oitavos de final da Liga Europa. Marcel Keizer continua sem querer admitir que o Sporting é “Bruno Fernandes e mais 10”. Mas a verdade é que, no dia em que o número 8 esteve menos inspirado, menos decidido, menos fraturante, o Sporting perdeu e nunca esteve realmente interessado em evitar esse resultado, saindo do relvado sob uma chuva de assobios e lenços brancos. O Submarino Amarelo, mesmo a afundar, foi mais forte do que o barco leonino que esta quarta-feira não teve marinheiro.

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