Ao terceiro dia de greve de fome, Carlos Ramalho, presidente do Sindicato Democrático dos Enfermeiros Portugueses (Sindepor), suspendeu a greve depois de receber uma chamada da ministra da Saúde, Marta Temido, a anunciar que o Governo pretende retomar as reuniões negociais com as estruturas sindicais dos enfermeiros. “A senhora ministra [da Saúde, Marta Temido] telefonou-me e também recebi aqui [no jardim] um elemento do ministério que me veio comunicar isso”, disse Carlos Ramalho à agência Lusa.

“Estamos satisfeitos, era isso que nós queríamos, retomar as negociações, dialogar, mas o que pretendemos é uma negociação séria”, salientou. Carlos Ramalho disse que os sindicatos querem “uma negociação onde de facto as duas partes falem francamente, num diálogo aberto, e negociarem isso. Pode haver cedências de ambas as partes, mas também tem de haver concessões”.

Ao início da manhã, com uma voz pesada e algumas paragens no raciocínio, Carlos Ramalho ia contando como passou mais uma noite junto ao Palácio de Belém. “Desculpe lá, é que estou muito cansado“, dizia o enfermeiro ao Observador após a segunda noite em greve de fome e a dormir numa tenda perto da Presidência da República e ainda antes de saber que o ministério da Saúde iria retomar as negociações com os enfermeiros. O enfermeiro e presidente do Sindepor disse que o seu principal inimigo continuava a ser a temperatura: “Mais uma noite muito fria. Custa muito, o frio, principalmente nos pés“. Enquanto Carlos Ramalho prossegue a sua “luta pessoal” em Belém, o sindicato continua a guerra jurídica com mais um requerimento para o Supremo Tribunal Administrativo a contestar os argumentos do Governo.

Carlos Ramalho dormiu numa tenda, mas teve por perto enfermeiros que lhe fizeram companhia e que “dormiram ao relento”. Um desses enfermeiros, conta, “veio de Braga, passou aqui a noite, e agora vai voltar ao trabalho”. No dia anterior, teve a visita de um colega da Madeira. Sobre a dureza do protesto, o dirigente sindical diz que “os enfermeiros estão habituados a sofrer”. Sobre o seu estado de saúde diz que tem “um cansaço grande e sinais de alguma debilidade física, o que é normal.”

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Desde as lulas recheadas — que comeu na quarta-feira minutos antes de iniciar a greve de fome — o presidente do Sindepor não voltou a ingerir mais nada a não ser “água, chás com mel, bebidas açucaradas e comprimidos para a circulação [sanguínea]”. Os dias de Carlos Ramalho são passados a atender chamadas de colegas (de apoio) e de jornalistas (sobre o protesto e até quando vai continuar). Como carrega a bateria? “Os colegas vão trazendo power banks para carregar o telemóvel”. Para as necessidades básicas, Carlos Ramalho vai recorrendo aos cafés da zona, durante o dia, e à noite conta com uma importante oferta da PSP: “Os agentes disponibilizaram, gentilmente, [a casa de banho de] uma esquadra aqui próxima“.

O enfermeiro recebeu também visitas regulares da equipa médica da Presidência da República, com uma enfermeira que o visita “de manhã e à tarde a perguntar se está tudo bem”. Já quanto a uma visita do chefe de Estado, diz que ainda não teve “esse privilégio.”

Além de Carlos Ramalho, outro enfermeiro tinha avançado para uma greve de fome de 72 horas em frente à Assembleia da República, mas com o retomar das negociações também o levou a desistir da greve de fome. Duarte Barbosa, enfermeiro do Hospital de S. João no Porto, explicou à RTP que esta greve era um “grito de revolta perante o que tem acontecido, nos últimos tempos, aos enfermeiros.” O enfermeiro fez questão de passar por Belém para um abraço a Carlos Ramalho.

O enfermeiro Duarte Gil Barbosa está em greve de fome em frente à Assembleia da República. ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR,

Guerra entre enfermeiros e Governo segue nos tribunais

A 14 de fevereiro o Supremo Tribunal Administrativo aceitou a intimação do Sindepor que contesta a requisição civil decretada pelo Governo, que abrange quatro dos 10 hospitais onde decorre a greve em blocos operatórios, conhecida como “greve cirúrgica”. Ao executivo foram dados cinco dias para responder, o que já foi feito.

Nessa resposta, o Governo alegou que os serviços mínimos não foram cumpridos em cerca de 450 cirurgias durante a greve dos enfermeiros. Na sequência desta resposta do executivo, o Sindepor contra-atacou com um novo requerimento — noticiado pela TSF — a contestar a argumentação. Segundo a TSF, nessa resposta o sindicato acusa o Ministério da Saúde de manipular dados e distorcer informação. O Sindepor ala de cirurgias marcadas à pressa adiadas por ordem superior sem uma relação direta com a greve ou com o alegado incumprimento dos serviços mínimos.

O sindicato dá até o exemplo que aconteceu no Hospital de S.João, em que doentes não urgentes passaram a ser considerados prioritários por ordem do diretor de serviço. Há casos ainda em que as cirurgias não ocorreram por falta de comunicação entre cirurgiões ou até porque os pacientes não estavam em jejum.

A requisição civil decretada pelo governo a 7 de fevereiro tem, precisamente, por base o incumprimento dos serviços mínimos.