[este artigo foi atualizado após a vitória de Conan Osiris no Festival da Canção]

Quando, no ano passado, Conan Osiris ganhou o estatuto de revelação no cenário musical português, não foi só a miscelânea de sonoridades do álbum Adoro Bolos a chamar a atenção. O que para muitos pode ter parecido ruído, para outros, incluindo o músico autodidata, foi uma harmonização de som e imagem. Ou melhor, de música e guarda-roupa. Mesmo antes dos primeiros acordes, Conan Osiris, nome artístico de Tiago Miranda, cria impacto com o que veste. Na verdade, a fórmula é bem menos pensada. Das botas de cano alto, dos fatos de treino e dos macacões à bijuteria e aos robes e quimonos — tudo já fazia parte de uma coleção de referências pré-estrelato.

“Tanto posso ir ao clássico como a algo abstrato. Sou bastante aberto a abordagens desde que respeitem a minha noção de equilíbrio”, conta o próprio músico, de 30 anos, ao Observador, numa conversa sobre moda e estilo que aconteceu… por SMS. “Roupa desportiva é, sem dúvida, algo que tenho de ter. Acho que não conseguia viver sem fato de treino, honestamente”, continua. Não há um estilo que defina Conan Osiris, tão pouco uma alternância esquematizada de linguagens visuais — hoje é ranger pós-apocalítico, no dia seguinte o rapaz que, despreocupadamente, saiu de fato de treino para se posicionar na fila do pão; um toque nipónico pela manhã, um fato a meio da tarde e um track jacket dos anos 80 à noite.

Conan Osiris num concerto no Tivoli BBVA, em Lisboa, durante o festival Super Bock em Stock, em novembro do ano passado © Diogo Ventura/Observador

Ruben de Sá Osório é o amigo e o stylist por detrás da imagem de Conan. Correção: uma espécie de consultor e braço direito que abriu o leque de referências do cantor. “Ele foi aparecendo mais com o lançamento do álbum Adoro Bolos. É quando começa a ser chamado para programas de televisão e para algumas entrevistas e incorporar mais essa vertente da moda”, explica Ruben ao Observador. “O que fiz não foi propriamente desenhar um boneco. Também não estamos a construir uma imagem nova, simplesmente estamos a elaborar de forma mais minuciosa aquilo que ele já é”, conclui.

Em fevereiro de 2018, há precisamente um ano, Tiago já tinha revelado, ao Observador, parte deste trabalho de dupla com Ruben, o stylist. “[…] de vez em quando mostra-me alguns desfiles. Eu gosto disso, gosto de ver coisas criadas por outras pessoas mas com as quais me identifico de alguma forma”, resumiu. A relação com a moda começa mais atrás, com Silk, álbum de instrumentais lançado em 2014. Nele, incluiu várias faixas desenvolvidas para desfiles de criadores como Valentim Quaresma e a dupla Hibu. Em maio de 2018, Conan Osiris posou para a objetiva de Rui Palma, numa sessão fotográfica para o site da Vogue Portugal. O styling, assinado por Ruben, misturou peças Nike, Dino Alves, Lidija Kolovrat, Ermenegildo Zegna, Lacoste, Alexandra Moura e Adidas.

Misturar é, sem dúvida, a palavra chave, além de um gosto há muito adquirido por Tiago. “Um bocado como na música, ele mistura várias influências. Depois, tem um lado muito editorial, mais artístico, que torna as coisas mais interessantes”, explica Ruben. Para a revista Caras, em junho do ano passado, optou pelo lado mais clássico do guarda-roupa masculino, vestido por Luís Carvalho e calçado por Luís Onofre. Vale tudo, dos designers nacionais às marcas de desporto, das lojas de luxo às de roupa em segunda mão —  tudo é posto à consideração da noção estética do artista e do crivo do seu consultor.

O último resultado deste trabalho em dupla chegou na primeira semi final do Festival da Canção, quando Conan Osiris pisou o palco para interpretar o tema “Telemóveis” com um look Luís Carvalho. “Ele dá-me sempre liberdade para criar vários tipos de imagem. Vemos os dois as peças e como é que podem ser usadas. Aí posso estar como stylist, mas também como amigo. Ele tem uma sensibilidade visual bastante forte”, afirma Ruben. Enquanto isso, Tiago evoca outras memórias. “Os robes do Tivoli também foram muito especiais. Marcaram uma era e isso é sempre útil porque nunca me lembro de nada”, afirma o músico, ao referir-se às peças brancas e de toque acetinado que usou na última edição do Super Bock em Stock, ele e o bailarino João Reis Moreira. “Eu só visto as cenas e penso: ‘wow’, ‘népia’ ou ‘ok’. Só tem esses três níveis”, remata.

Ruben de Sá Osório e Conan Osiris nos bastidores da primeira semifinal do Festival da Canção

Apresentar-se com uma imagem disruptiva perante o público, traz uma dose de incompreensão (veja-se António Variações). Quer na música, quer na forma de se vestir, Ruben caracteriza o amigo como uma pessoa “com muita informação e muito complexa naquilo que faz”. Enquanto faz trabalhos para títulos como Vogue e GQ, depois de ter sido editor de moda da revista Parq durante um ano, a imagem de Conan Osiris é uma mistura de laboratório e recreio para o stylist. “Ele traz muita cultura visual e em Portugal, às vezes, somos um bocado fechados. Mas acho que estamos a mudar bastante rápido até”, explica Ruben.

Conan Osiris, em abril de 2018 © Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Para ele, a comparação entre Conan e Variações é mais ou menos óbvia, mas só porque, em Portugal, a amostra de artistas que arriscaram numa imagem diferente é evidentemente pobre. “Não acho que seja obrigatório, mas a verdade é que não tivemos mais pessoas a arriscar e a brincar com a aparência, o que também é complicado emocionalmente”, continua o Ruben. Da imagem ao som, Tiago estava predestinado a lidar com a incompreensão de alguns — acontece, por defeito, com tudo o que foge ao conceito vigente de normalidade. “Ele brinca com a imagem e não é de agora. Sempre soube lidar com as críticas, nunca tentou ser outra coisa”, conclui. Na realidade, o que é extravagância para uns, para outros, incluindo Tiago, é simplesmente normal. “Se disserem que pareço um carro ou um Pokémon ou um bebé que tomou banho já fico feliz. Dantes chamavam-me gótico e satânico. Metia graça”, resume o artista.