Em 2018, Portugal era eleito um dos 10 melhores países para quem vive emigrado. A qualidade de vida, a segurança e a facilidade de adaptação eram apontados como fatores positivos para os expatriados (quem cresce num país mas que vive noutro, seja por razões pessoais ou profissionais). Mas se se dividir opiniões tendo em conta o género, o cenário torna-se bem diferente. Enquanto no ranking global, elaborado pela InterNations, Portugal ocupava o 6.º lugar em 68 países, a opinião das mulheres estrangeiras a trabalhar em território luso leva Portugal a ocupar os últimos lugares da tabela.

Para o fundador da InterNations e Co-CEO Malte Zeeck, os resultados do inquérito podem espelhar diferenças de género: “Os resultados (…) deixam-nos a questionar sobre se as mulheres têm as mesmas oportunidades do que os homens no que toca à conjugação da carreira no estrangeiro com a vida familiar”, resume. As mulheres inquiridas apontam, pelo menos, dois fatores: salários mais baixos do que ganhariam no seu país de origem e insatisfação no local de trabalho, algo que os homens não tinham destacado em igual medida.

O trabalho da InterNations, a maior comunidade de expatriados do mundo, juntou respostas de 8.855 mulheres expatriadas e concluiu que, na generalidade, as mulheres estão menos predispostas a ir viver para o estrangeiro (25%), em comparação com os homens (38%). E é maior a probabilidade de as mulheres emigradas serem solteiras e não terem filhos. O estudo surge a propósito do Dia Internacional da Mulher (comemorado a 8 de março).

Para encontrar Portugal no ranking, é preciso descer até ao fundo da tabela. Portugal está entre os piores países para as expatriadas trabalharem, ocupando o 41.º lugar em 57 países. No que diz respeito às perspetivas de carreira, apenas 38% das mulheres estão satisfeitas em trabalhar em solo luso (contra 42% dos homens). Sobre a segurança no trabalho, metade das mulheres inquiridas estão satisfeitas, comparativamente a 58% dos homens. Já o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional é o fator que reúne maior satisfação entre as inquiridas, com 72% das mulheres a admitirem que em Portugal conseguem esse equilíbrio, contra  74% dos homens.

Em sentido contrário, a República Checa (1.º), o Bahrain (2.º) e Taiwan (3.º) ocupam o pódio dos melhores países para as mulheres estrangeiras trabalharem. A estes três, juntam-se a Noruega (4.º), a Dinamarca (5.º), o Luxemburgo (6.º), a Nova Zelândia (7.º), a Holanda (8.º), Malta (9.º) e a Austrália (10.º) como os países onde as mulheres se sentem mais felizes com a sua vida profissional. Mas já lá vamos.

Apesar de ocupar o 41.º lugar do ranking dos melhores países para expatriadas trabalharem, Portugal subiu de posição quando comparado com anos anteriores, quando esteve entre os dez últimos lugares da tabela. De acordo com a InterNations, entre as razões para esta subida poderá estar o “alto nível de satisfação com as perspetivas de carreira” que Portugal oferece atualmente às mulheres. Se em 2017 apenas 26% diziam estar satisfeitas, em 2018 esse número subiu para os 38%.

“Burocracias, burocracias, burocracias”, destacam as imigrantes

O balanço é, apesar de tudo, positivo. E parece contrastar com os resultados apresentados no inquérito. Para Alina Di-Bella, imigrante mexicana, “Portugal é um país pequenino, mas que tem as vantagens de um grande país”. Trabalha como consultora numa empresa de tecnologia portuguesa, na área dos negócios internacionais, e diz que nunca sentiu discriminação.

Ao Observador, Alina conta que chegou a Portugal em 2016, depois de ter decidido ir viver para a Europa, ter enviado currículos para vários países e Portugal ter sido “o primeiro a responder e a mostrar interesse”.

Para esta imigrante, de 30 anos, são mais os pontos fortes do que os pontos fracos. Destaca o facto de ter aprendido uma nova língua, a “oportunidade de visibilidade internacional”, e o “desenvolvimento profissional e pessoal”. “Há muitas oportunidades de network, e Lisboa é uma cidade pequena, mas que está ao nível de outras grandes cidades do mundo”.

A maior desvantagem é “não haver voos diretos para o México”, além de as deslocações serem muito caras. “Se tivesse um ordenado da Alemanha, ia mais vezes ao México”, admite. Mas quando compara os salários em Portugal com os dos mexicanos, Alina refere que são “mais ou menos iguais”, mas sublinha que os custos em Lisboa são mais altos: “Eu pago por um quarto o que a minha irmã paga por uma casa inteira no México”.

Alina considera ainda que apesar de “muito afáveis”, os portugueses são algo “fechados”, e aponta principalmente as burocracias e alguma falta de comunicação como pontos negativos. Mas sempre se sentiu bem acolhida por Portugal, afirmando categoricamente: “Portugal acolhe bem os imigrantes, mas não sei se é igual para todas as nacionalidades”.

Miryam Laura Silva tem 43 anos e veio para Portugal há 21 anos, “por altura da Expo 98”. Como “tinha o dever de ajudar os pais”, decidiu sair do Peru. A escolha do país de acolhimento deu-se naturalmente, uma vez que o pai de Miryam já tinha vindo para a Europa trabalhar, acabando os dois por se fixar em Portugal.

“É um país mais tranquilo, com pessoas muito acessíveis, e a gastronomia é muito parecida com a nossa”, resume ao Observador. Atualmente a trabalhar numa empresa de roupa, no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, também diz que nunca sentiu discriminação de género no trabalho. A principal desvantagem encontrada por esta imigrante é transversal a todos os testemunhos ouvidos pelo Observador: as burocracias, ou seja, “a dificuldade e os tempos de espera em conseguir documentação”.

Mãe de dois filhos, de 14 e 12 anos, Miryam também destaca o bom equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Sente que existem diferenças salariais entre homens e mulheres, mas admite que “a mulher está a ganhar um papel mais preponderante, está a ser mais ouvida”. Comparativamente ao Peru, afirma que os salários são mais baixos no seu país de origem, e sente que em Portugal “há trabalho”, no entanto, é preciso “trabalhar para conseguir alguma coisa”.

Marta Thomé, 62 anos, mexicana, veio viver para Portugal por razões diferentes. “Estou apaixonada por Portugal”, conta ao Observador, mas foi outra a paixão que a fez abandonar o seu país. Conheceu o marido, português, em 2009, visitou Portugal em 2011, e em 2012 fixou-se no país.

O discurso, esse, parece não ser muito diferente dos já ouvidos. A trabalhadora independente, com um negócio no setor da gastronomia mexicana, destaca as burocracias como ponto negativo de trabalhar em Portugal: “As burocracias para um estrangeiro são mais demoradas”. Martha revela não sentir discriminação no mercado de trabalho entre homens e mulheres, e, com a felicidade própria associada às latinas, explica que está “muito feliz de estar aqui”.

Considera que os salários “são justos”, idênticos em relação aos praticados no México, mas que o custo de vida “aqui é mais alto”. Já a adaptação a um país novo, para Martha, foi “muito fácil”.

Ainda assim, nem tudo são rosas. A falta de proteção do imigrante é rapidamente apontada por uma ucraniana ouvida pelo Observador. Vive em Portugal desde 2000, tem 52 e é empregada doméstica. “É fácil arranjar emprego, se estivermos a falar de emprego não qualificado”, explica. Possui o estatuto de residente estrangeira e não pediu a nacionalidade portuguesa porque não quer. As desvantagens? São algumas: diz que “é muito fácil ser substituída” no mercado de trabalho e diz que não está protegida “do ponto de vista legal”. Ainda assim, esta imigrante ucraniana, que tem uma filha, sublinha a “hospitalidade” dos portugueses.

“Burocracias, burocracias, burocracias”. É assim que também Ulrika Karnland descreve aquilo que diz ser um dos piores fatores de adaptação dos estrangeiros em Portugal. Num vídeo partilhado no YouTube, a sueca refere os elevados tempos de espera para conseguir documentos oficiais. Porém, destaca o bom clima e a hospitalidade dos portugueses.

De acordo com o estudo da InterNations, os “baixos salários” em Portugal são um dos principais fatores negativos apontados pelas mulheres imigrantes. Em termos salariais, apenas 20% das inquiridas disse receber mais do que receberia numa posição idêntica no seu país de origem. Este número torna-se especialmente baixo quando comparado com as respostas em termos globais – 50% das mulheres dizem receber melhor no país para onde escolheram emigrar.

A satisfação com o trabalho também é mais baixa entre as mulheres a trabalhar em Portugal, com 53% das expatriadas a avaliarem o país positivamente, contra os 68% registados entre os homens.

Que motivos levam as mulheres a emigrarem?

As perspetivas de carreira, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e a segurança no trabalho foram fatores avaliados pela InterNations – que elaborou este ranking com base no inquérito Expat Insider 2018. Em termos globais, 28% das mulheres emigradas sublinha o amor ou o emprego/educação do respetivo companheiro como a principal motivação para se mudarem para o estrangeiro. Apenas 25% apontam razões relacionadas com a sua própria carreira. Em sentido contrário, os homens emigrados apontam sobretudo razões relacionadas com trabalho (38%) para emigrarem, contra apenas 13%, que referem razões amorosas.

Já o nível de educação parece ser o fator que aproxima os dois géneros em termos de números: à semelhança dos homens, as mulheres que trabalham no estrangeiro tendem a ter níveis altos de educação, com cerca de 9 em cada 10 mulheres (89%) e homens (85%) a serem, pelo menos, licenciados. Mas as diferenças entre entre homens e mulheres expatriados voltam a sentir-se se olharmos para as questões pessoais.

Segundo o inquérito da InterNations, 56% das mulheres a trabalhar no estrangeiro são comprometidas, o que representa 15 pontos percentuais abaixo da percentagem de homens expatriados que são comprometidos (71%). Já no que toca a filhos, 63% das mulheres expatriadas afirmam que não têm filhos, contra 47% dos homens na mesma situação.

República Checa é o melhor país para as mulheres emigrarem

O galardão de melhor país para as mulheres trabalharem é entregue à República Checa, que, em apenas um ano, subiu nada mais nada menos do que oito lugares no ranking. De acordo com a InterNations, 83% das mulheres imigradas disse estar feliz com os seus empregos – um valor bem acima do registado pelos homens (72%).

A conclusão é simples e surpreendente, tendo em conta os resultados globais: quando se trata de avaliar por géneros a vida dos expatriados em território checo, os resultados são inversos, ou seja, as mulheres avaliam o país mais positivamente do que os homens. Outro exemplo dessa realidade: as mulheres emigradas na República Checa tendem a estar mais satisfeitas com as perspetivas de carreira (73%) em relação aos homens emigrados (63%).

Porém, apenas 38% das inquiridas a trabalhar na República Checa disse que recebia mais do que no seu país de origem, comparado com 50% do total das mulheres a trabalhar no estrangeiro.

No segundo lugar do ranking, segue o Bahrein – que, em 2017, tinha sido votado como o melhor país para as mulheres estrangeiras trabalharem. O Bahrein perde assim o seu lugar no topo da tabela, mas continua a ser bem colocado no ranking (2.º lugar). Perto de 9 em cada 10 mulheres expatriadas (88%) estão geralmente satisfeitas com os seus empregos no Bahrein, comparando com os 62% registados pelas mulheres a nível global.

Já o Taiwan ocupa o último lugar do pódio, sendo que em 2017 se encontrava no 11.º lugar. De acordo com a InterNations, esta subida poderá ser justificada com a maior satisfação das mulheres com a carga horária no emprego (72% em 2018, contra 60% em 2017), bem como as perspetivas de carreira (66% em 2018, contra 59% em 2017).

Portugal: melhor país da Europa para emigrantes viverem

O ranking dos melhores países para as mulheres viverem no estrangeiro, seja por motivos pessoais ou profissionais, teve como base o inquérito Expat Insider 2018. Portugal ocupa o 6.º lugar em 68 países em termos globais; já com o foco na mulher expatriada, Portugal surge na posição 41 dos 57 países contabilizados – este último estudo não incluiu tantos países, “uma vez que nem todos os países registavam mulheres suficientes a trabalhar” para poderem ser representativos no ranking, explicou ao Observador a responsável pelo departamento de comunicação e relações públicas da InterNations.

Para elaborar o ranking conjunto – que depois se focou nas respostas das mulheres -, a InterNations questionou mais de 18 mil expatriados de 178 nacionalidades, que vivem espalhados por 187 países ou territórios. Foram avaliados seis sub-índices: qualidade de vida, facilidade de adaptação, trabalho no estrangeiro, vida familiar, finanças pessoais e custo de vida.

Apesar de em 2018 ter descido do 5.º para o 6.º lugar (ultrapassado por Singapura), Portugal continua a ser dos dez locais do mundo para quem vive emigrado. Algumas das categorias em que Portugal recebeu mais pontos foram a qualidade de vida, a segurança, a facilidade de adaptação e o clima. As “queixas” apontadas pelos estrangeiros que vivem em Portugal estão, mais uma vez, relacionadas com burocracias, mas também com perspetivas de carreira pouco animadoras e impostos pesados.