Portugal é o melhor país da Europa para quem vive emigrado (apesar dos cães que ladram) /premium

06 Setembro 2018874

Estudo da InterNations, a maior comunidade de expatriados do mundo, volta a destacar qualidade de vida em Portugal. Mas também há problemas: desde as perspetivas de carreira até aos cães que ladram.

Um paraíso para as famílias com uma excelente qualidade de vida.” Em meio-tweet, este é o retrato de Portugal feito por quem vive no país como expatriado (alguém que cresceu num país, mas que vive noutro por razões profissionais ou pessoais). Portugal volta em 2018 a ser eleito um dos 10 melhores locais do mundo para quem vive emigrado: desceu ligeiramente, de 5º lugar para 6º no ranking global elaborado pela InterNations, a maior comunidade de expatriados do mundo. Contudo, tal como na edição anterior, Portugal tem a melhor pontuação entre os países europeus. A qualidade de vida, a segurança e a facilidade de adaptação — e, claro, o clima — são algumas das categorias em que Portugal brilha. Mas também há problemas: as perspetivas de carreira são pouco animadoras, os impostos pesam, a burocracia incomoda e há quem se queixe dos cães que passam a noite a ladrar.

Portugal fica, em 2018, na 6ª posição do ranking global que inclui 68 países. Melhor do que terras lusas só Bahrein (1º), Taiwan (2º), Ecuador (3º), México (4º) e Singapura, que ultrapassou Portugal e tomou o 5º lugar. O restante top 10 é preenchido por Costa Rica (7º), Espanha (8º), Colômbia (9º) e República Checa, em 10º lugar. Portugal volta a ocupar, portanto, um “impressionante” 6º lugar, “estando entre os 10 melhores em três sub-índices, incluindo um quinto lugar para a facilidade de adaptação e um segundo lugar para a qualidade de vida“, refere a InterNations no relatório a que o Observador teve acesso.

InterNations abriu delegação no Porto em abril

A InterNations abriu escritório no Porto no início deste ano, tornando Portugal o terceiro país onde tem delegação. Além da sede, em Munique, já existiam delegações em Vilnius, na Lituânia, e em Madrid, Espanha. “O ecossistema de startups, que está em crescimento no Porto, bem como a presença crescente de empreendedores internacionais fazem [do Porto] a localização perfeita para expandir o nosso negócio”, comentou, em abril, Philipp von Plato, um dos dois co-fundadores da InterNations. O escritório fica no parque de ciência e tecnologia da Universidade do Porto, a UPTec.

O Expat Insider resulta de uma sondagem a que responderam 18.135 expatriados de 178 nacionalidades, que vivem espalhados por 187 países ou territórios. “Tivemos respostas de todos os cantos do mundo, desde mais de 1.600 participantes na Alemanha até um na Gronelândia e outro na Guiné Equatorial”, explica ao Observador Malte Zeeck, um dos dois co-fundadores da InterNations, uma rede global de expatriados que já tem 3,2 milhões de membros e que nasceu com a intenção de ajudar as pessoas a tomarem decisões como saber para que país devem emigrar, se devem ou não aceitar uma proposta de emprego vinda de fora ou, outro exemplo, em que país seriam mais felizes depois de ter filhos ou após a reforma.

A InterNations nasceu, também, porque Malte Zeeck, jornalista, sentiu na pele a “solidão” que muitas vezes sente quem muda de país e tem de “começar tudo, novamente”, ou seja, criar novas rotinas, fazer novos amigos e adaptar-se a uma cultura diferente. E, como o estudo de 2018 volta a reforçar, Portugal é um dos países mundiais onde essa adaptação é mais fácil — ou, talvez, menos difícil. “Depois de Portugal ter sido considerado o país mais acolhedor do mundo em 2017, 87% dos expatriados descrevem a atitude da população local como amigável em relação aos residentes estrangeiros em 2018. São sete pontos percentuais a menos que o ano passado (94%), mas ainda são uns incríveis 21 pontos a mais que a média global, que é de 66%”, aponta o estudo.

Fonte: InterNations Expat Insider 2018

Melhor qualidade de vida do que em Portugal? Só em Taiwan

O 6º lugar de Portugal no índice geral baseia-se numa ponderação de seis sub-índices.

Portugal continua no "top 10", pelo segundo ano

Com todas as componentes ponderadas, Portugal baixou um lugar no ranking global — de 5º para 6º lugar — mas continua no top 10 pelo segundo ano consecutivo. O país tem tido bons resultados sobretudo nos últimos dois anos, porque em 2014 estava na metade inferior da tabela (41º), em 2015 melhorou para 20º lugar e em 2016 voltou a piorar, para 28º lugar do ranking.

Onde Portugal tem os melhores resultados é na qualidade de vida, onde fica em 2º lugar e só é superado por Taiwan. Este é um índice que inclui variáveis como as opções de lazer, a saúde e bem-estar, a segurança e aspetos ligados à felicidade pessoal. Portugal “é um país muito seguro. As pessoas são fantásticas e ajudaram-nos em todos os aspetos, sem reservas”, comentou um participante no inquérito que veio da África do Sul. Um outro, norte-americano, apaixonou-se pelo país: “adoro tudo! É o melhor sítio do planeta. Bem, pelo menos, refiro-me a Lisboa”.

Além de atribuírem uma pontuação e fazerem uma apreciação qualitativa, os inquiridos são convidados a dar opiniões por escrito, pequenas frases que expliquem melhor porque é que deram esta ou aquela nota. A InterNations partilhou com o Observador algumas dessas opiniões sobre Portugal: “toda a gente adora crianças, a cultura é muito orientada para a vida familiar. E também adoro o clima mais quente, comparado com o Reino Unido”, de onde este inquirido é natural.

98% dos inquiridos sentem-se seguros

Portugal classifica-se entre os 10 melhores países em termos de segurança pessoal: quase todos os expatriados (98%) estão satisfeitos com este fator (a média global é de 82%). A larga maioria dos expatriados em Portugal (98%) também considera o país bastante pacifico (contra 78% globalmente), e mais de três quartos (77%) dão-lhe a melhor classificação possível (vs. 43% globalmente). Graças a estes resultados impressionantes, Portugal ocupa o segundo lugar no fator tranquilidade, ultrapassado apenas por Luxemburgo.

Portugal teve, no ano passado, a melhor qualidade de vida a nível global mas acabou por ser, este ano, ultrapassado por Taiwan, onde 96% dos inquiridos se dizem satisfeitos com o custo e acessibilidade dos serviços de saúde e 97% dizem-se satisfeitos com o sistema de transportes. A apreciação do sistema de saúde em Portugal também é positiva (86% dizem bem do sistema de saúde) mas Portugal não passa do 15º lugar no que diz respeito aos transportes e à facilidade de andar de um lado para o outro, pelo que no índice da qualidade de vida acabou por perder o lugar mais elevado do pódio.

No sub-índice de facilidade de adaptação, Portugal também tem um bom resultado: é o 5º melhor país entre os 68 contemplados no relatório. “Os portugueses não poderiam ser mais amigáveis e prestáveis”, comentou um outro inquirido, também oriundo do Reino Unido. Os estrangeiros mostram sentir-se bem-vindos, sentem uma atitude amigável por parte dos residentes e têm facilidade em fazer amigos. Só sentem um pouco mais de dificuldades com a língua local (20º lugar para Portugal), tanto no sentido de ser possível viver no país sem falar a língua oficial como no sentido da facilidade com que se aprende a língua local.

Impostos, burocracia, habitação cara e outras coisas “diabólicas”

“Compreender a língua local é difícil”, comenta um nativo do Cazaquistão que destaca esse ponto como a principal “pedra no sapato” da vida em Portugal. É um caso raro, porque a maioria dos inquiridos opta por criticar, sobretudo, questões relacionadas com a burocracia e o custo de vida.

Um participante britânico diz que “os salários em Portugal, as taxas de imposto sobre o rendimento e as taxas de pagamento da segurança social, todas estas coisas são diabólicas” em Portugal. Um finlandês queixa-se de algumas das mesmas coisas: “não gosto do custo da habitação, da burocracia, do serviço aos consumidores que, por vezes, é de bradar aos céus. Também não gosto dos impostos elevados e da total ausência de serviços de aconselhamento vocacionados para novas empresas e novos empresários”.

Uma crítica curiosa, deixada por um sueco, fala sobre o ruído durante a noite. “Não gosto do facto de haver cães a ladrar em todo o lado. Pergunto: serão cães que estão presos em terraços ou quintais e nunca são levados a passear?”

"Não gosto do facto de haver cães a ladrar em todo o lado. Pergunto: serão cães que estão presos em terraços ou quintais e nunca são levados a passear?"
Expatriado sueco a viver em Portugal

No que diz respeito às finanças pessoais e custo de vida, 62% dos expatriados dizem-se globalmente satisfeitos com a sua situação financeira, e cerca de três quartos dizem que o seu rendimento disponível chega para cobrir o custo de vida (em linha com a média global). Portugal aparece em 11º no sub-índice de custo de vida mas não passa do 45º lugar no que diz respeito às finanças pessoais, o que inclui uma apreciação sobre os salários que se pagam no país.

Esse resultado está ligado à outra rubrica onde o país tem espaço para melhorar: a categoria geral de trabalhar como estrangeiro. Aí, Portugal passa para o fundo da tabela: 48º lugar. Aqui estão incluídos o 62º lugar nas perspetivas de carreira e o 50º lugar na satisfação global com o trabalho que se faz. Os resultados também não são melhores quando se fala em segurança do posto de trabalho: a apreciação feita pelos inquiridos coloca Portugal em 53º lugar, o que também estará relacionado com o 44º lugar de Portugal quando se pergunta sobre as perspetivas para a evolução da economia do país, como um todo.

“As coisas têm melhorado um pouco a este nível — Portugal está em 48º lugar mas estava em 60º há cinco anos. Trabalhar em Portugal, enquanto expatriado, está lentamente a melhorar um pouco, mas de um modo geral continua a não ser muito animador”, comenta Malte Zeeck, em conversa telefónica com o Observador. O co-fundador da InterNations salienta um outro fator: em média, a nível global, 25% das pessoas consideram as economias onde estão em situação “excelente”, ao passo que em Portugal apenas 3% dizem isso“.

O estudo revela que perto de dois em cinco (37%) expatriados estão descontentes com as suas perspetivas de carreira, o que representa doze pontos acima da média global (25%). “Existem poucas
oportunidades profissionais”, diz um expatriado britânico, enquanto outro expatriado do Zimbabué lamenta “a falta de ofertas de emprego”.

“Adoro o mar, as pessoas e a História”, afirma uma participante francesa no inquérito da InterNations.

A única subcategoria em que Portugal não está tão mal, neste índice, diz respeito ao equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar: estava em 54º em 2016, melhorou para 19º em 2017 e nesta última edição do ranking conseguiu o 12º a nível global.

E, por falar em vida familiar, essa é uma área onde Portugal também brilha: entre os 50 países onde houve quórum para fazer um índice para vida familiar, Portugal ficou em 9º lugar — “uns impressionantes 94% disseram-se globalmente satisfeitos com a sua vida familiar, contra uma média global de 79%”. Portugal atrai um número acima da média de pessoas e casais reformados, confirma este estudo, mas isso não impede o país de ser um dos 10 melhores para viver em família.

Quais são os países piores para um expatriado viver? E quais estão a cair mais rapidamente no ranking?

Portugal “é um país onde facilmente me sinto em casa, até mais do que no meu país de origem”, comentou um britânico a viver em Portugal. A declaração pode ser interpretada à luz dos bons resultados de Portugal neste estudo, mas não será totalmente alheio ao ambiente que o Reino Unido vive na iminência da saída da União Europeia, o chamado Brexit.

Pela primeira vez, o Reino Unido caiu para o grupo dos 10 piores países para viver, do ponto de vista dos expatriados. A culpa não é só do clima: as principais críticas feitas ao país são o custo de vida, os preços das creches e escolas — além destes fatores, os expatriados consideram a população local especialmente pouco amistosa e um quinto dos expatriados a viver em Terras de Sua Majestade não se sentem em casa e duvidam que isso algum dia vá acontecer.

“O Brexit e os comportamentos extremistas estão a modificar um país que, outrora, era muito aberto e muito acolhedor”, disse um dos inquiridos, um italiano. E mesmo nas questões económicas e de carreira, muito está a mudar: o país está a meio da tabela (32º lugar) quando se fala em perspetivas de carreira e satisfação com o trabalho.

Outro país que vai de mal a pior é o Brasil. Do 62º lugar do ano passado derrapou para o 65º lugar nesta edição, sendo difícil escolher as categorias em que o “país-irmão” está a ter um pior desempenho. Na facilidade de adaptação surge um pouco menos mal na fotografia, em 39º lugar, mas em tudo o resto — qualidade de vida, segurança, custo de vida — o Brasil é um dos piores países do mundo para quem vai trabalhar, estudar ou, simplesmente, viver para fora do seu país de origem. No que diz respeito à vida familiar, o Brasil ocupa o 50º lugar… em 50 países, sobretudo devido aos receios em relação à segurança dos filhos.

Os piores três países do índice geral são, porém, o Kuwait, a Arábia Saudita e a Índia. Dentro da Europa, a Itália aparece em 61º e a Grécia em 60º — apesar de serem países com clima agradável, também o Chipre não passa do 30º lugar e Malta está em 20º lugar a nível global, essencialmente porque, nas palavras de um inquirido, “a corrupção parece endémica a todos os níveis” na sociedade.

Na outra ponta da tabela, o Bahrein conseguiu defender o primeiro lugar que já tinha tido na edição do ano passado, graças aos excelentes resultados na categoria “trabalhar no estrangeiro” e “facilidade de integração” (1º lugar nos dois). Sete em cada dez expatriados no Bahrein dizem-se contentes com a carreira (contra uma média global de 55%), e 81% acham fácil a integração no país.

Quanto a Taiwan, além do primeiro prémio na “qualidade de vida”, mais de três quartos dos expatriados dizem-se satisfeitos com a segurança do posto de trabalho. A subida mais impressionante no ranking, contudo, pertence ao Ecuador, que tinha sido o 25º e saltou para o 3º lugar, numa recuperação que poderá estar relacionada com o tremor de terra que aconteceu no país em 2016 e que matou quase 700 pessoas e feriu vários milhares. Passado algum tempo após esse desastre natural, quem vive no Ecuador vê boas perspetivas de carreira e acha a integração muito fácil.

E… os expatriados portugueses? O que dizem?

O relatório da InterNations concentra-se nos melhores países para viver, mas também faz a análise inversa, ou seja, por origem dos inquiridos. A conclusão a que se chega a respeito dos expatriados portugueses é que estes têm saudades de casa.

Da mesma forma que os expatriados tendem a avaliar negativamente as perspetivas de carreira em Portugal, é fácil perceber o porquê de 45% dos expatriados portugueses se terem mudado para o estrangeiro por motivos laborais (bastante acima da média global de 31%). Uma vez emigrados, os expatriados portugueses estão bastante satisfeitos com as suas perspetivas de carreira (67% versus 55% globalmente) e com a segurança no trabalho (67% versus 59% globalmente) no seu novo país de residência.

“As oportunidades de negócio são ótimas, e é fácil encontrar um emprego”.
Expatriado português a viver na China

Porém, em contraponto, 44% dos portugueses espalhados pelo mundo acham difícil fazer amigos locais, mais oito pontos percentuais mais do que a média global, que é de 36%). Um expatriado português considera que “a dificuldade em fazer amigos e as pessoas frias” são os aspetos mais negativos da sua vida na Bélgica.

“Talvez seja a falta de vida social que leve 62% destes expatriados a acreditar que vão regressar a casa em algum momento (versus 43% globalmente) – e perto de metade acha muito provável que isso aconteça (versus 31% globalmente), conclui a InterNations.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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