Enviada especial a Luanda

Na capital angolana, esta terça-feira é feriado: porque é Carnaval, é certo, mas bem podia ser porque o Ti Celito está a chegar. Não há trânsito nas estradas — o que é, diz quem sabe, uma raridade. O caminho que num dia regular de semana se faz em duas horas, esta segunda e terça-feira fez-se em 15 minutos. No táxi, explicam-nos que é por ser um dia ponte, outro dia feriado. No controlo de entrada de turistas, no aeroporto, dão-nos as boas-vindas ao país acompanhadas de votos de bom desfile de Carnaval. Está tudo a postos para a festa. E são logo duas no mesmo dia.

A televisão e os jornais há dias que antecipam o “grande” acontecimento. Pelo menos desde domingo, em Luanda, não é preciso ficar muito tempo diante de um ecrã de televisão de qualquer café, restaurante ou lounge de hotel para saber que Marcelo Rebelo de Sousa, o “ti Celito” como é carinhosamente tratado, está para chegar. A promo passa várias vezes na TPA, a televisão pública, nos intervalos entre programas. É anunciado um dossiê especial com tudo a que os dossiês especiais têm direito: reportagens, entrevistas, destaques e comentários. No “boneco”, vê-se Marcelo com o Presidente angolano, João Lourenço, em imagens sobretudo captadas durante a visita do angolano a Lisboa ou quando, em setembro de 2017, Marcelo esteve em Angola para a tomada de posse, mas também há imagens de Marcelo a…nadar.

“Os amigos querem-se juntos” e o combate à corrupção é para continuar apesar das “picadelas”. Palavra de João Lourenço

Também o Jornal de Angola desta terça-feira faz manchete com o acontecimento da semana: “Presidente português chega hoje a Luanda: Visita está à dimensão das relações especiais”, lê-se, num artigo onde o ministro angolano dos Negócios Estrangeiros deposita expectativas no reforço das relações bilateriais entre os dois países. Mais abaixo, na primeira página,  outra vez Marcelo: “Presidente português vai amanhã à Assembleia Nacional: deputados pedem facilidade na obtenção de vistos”. A atribuição de vistos a angolanos que queiram viajar para Portugal é um dos temas incontornáveis da visita. Esta segunda-feira, o chefe da diplomacia angolana, Manuel Augusto, mostrou-se optimista quanto aos avanços nesse sentido, embora tenha reconhecido que não pode haver reciprocidade direta porque Portugal está “condicionado” pelas regras do Espaço Shengen e da União Europeia.

As dívidas de Angola a empresas portuguesas também parecem estar no bom caminho. Pelo menos foi o que assegurou o próprio presidente angolano, João Lourenço, numa entrevista à RTP, esta segunda-feira: “A dívida é para ser paga”. Os pagamentos têm sido feitos “gradualmente” desde que João Lourenço fez a visita a Portugal, em novembro, e “nos próximos dias” haverá progressos, com equipas técnicas e ministeriais a trabalhar nesse sentido. Ou seja, tudo corre bem, sem “irritantes” e sem picos de tensão entre os dois países neste arranque da “era JLo” (sim, nos jornais em Angola o nome de João Lourenço aparece frequentemente na sua versão abreviada).

O vento ameaça puxar a chuva em Luanda — e isso só pode ser bom sinal. Em novembro, quando JLo visitou Portugal, foi recebido por uma chuva copiosa que só rebentou mesmo quando o chefe de Estado do país “irmão” pôs o pé na Praça do Império para dar início à visita oficial. Minutos depois, a chuva foi-se embora, e o sol voltou a brilhar. Por aquela altura, em Lisboa, comentava-se entre os jornalistas angolanos que aquele temporal só podia ser “bom presságio”, e o próprio Marcelo chegou a comentar a coincidência: “Hoje que o sol apareceu e a chuva passou exatamente no momento da chegada de vossa excelência, é altura de dizer bem-vindo: não iremos desperdiçar esta oportunidade única”. Se vai acontecer o mesmo em Luanda, não se sabe. A chegada do Presidente da República português está marcada para as 17h (menos uma em Lisboa), precisamente a hora prevista para começar o desfile carnavalesco.

Uma relação no “pico da montanha” mas com possibilidade de um deslize de terras chamado “Jamaica”

“No pico da montanha”. Foi assim que João Lourenço descreveu o estado das relações entre os dois países na entrevista à RTP. “Neste preciso momento as relações estão lá bem em cima. De qualquer forma, temos o dever de continuar a trabalhar no sentido, não diria de manter esse nível, mas de subir ainda mais”, disse, garantindo que o processo judicial que, em Lisboa, envolveu o ex-vice-Presidente anglano Manuel Vicente “não deixou sequelas”. Está tudo ultrapassado. Para João Lourenço, o diferendo com Portugal a propósito da investigação a Manuel Vicente, por suspeitas de corrupção, enquanto presidente da petrolífera angolana Sonangol, não foi mais do que um incumprimento de um acordo ao abrigo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que terminou com Luanda a reclamar receber o processo. Processo recebido, fim da história.

Angola quer fazer um reset para reiniciar uma relação “especial” com Portugal. E Portugal está de braços abertos. A propósito da visita de Marcelo a Angola, o ministro português dos Negócios Estrangeiros salientou no final da semana passada o trabalho feito no sentido da “excelência” do atual relacionamento entre ambos, que fecha um ciclo de três visitas emblemáticas. “É mais um passo no estreitamento do relacionamento bilateral entre Portugal e Angola e mais uma demonstração da excelência desse relacionamento”, disse Augusto Santos Silva, lembrando que, “num período de menos de meio ano“, realizaram-se três visitas de alto nível: a visita do primeiro-ministro, António Costa, a Angola, em setembro do ano passado; a do Presidente angolano, João Lourenço, a Portugal, em novembro, que convidou Marcelo a voltar depois de já lá ter estado na sua tomada de posse, em setembro de 2017.

Mas pode não ser assim tão simples: embora as relações estejam no pico da montanha, não é preciso muito para haver um pequeno deslize de terras. Foi o que aconteceu esta segunda-feira, a propósito do caso do “bairro da Jamaica”, nos arredores de Lisboa, que voltou a provocar um pequeno incidente diplomático — indicativo da fragilidade dos laços. Tudo começou com a conferência de imprensa do ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, onde revelou que, após os confrontos entre a polícia e os habitantes angolanos daquele bairro, Santos Silva tinha tido “a hombridade” de lhe “ligar, não só para apresentar desculpas, mas também para sublinhar a forma, com sentido de Estado, como as autoridades angolanas reagiram”. O momento seguinte foi de confirmação: o gabinete de Augusto Santos Silva confirmou ao jornal Expresso os contactos bilaterais, por telefone e presencial. “Em ambas as ocasiões, a mensagem do ministro dos Negócios Estrangeiros português foi sempre a mesma: lamentar a ocorrência daquele incidente; agradecer a forma como as autoridades angolanas — quer a Embaixada em Lisboa, quer o Ministério do Interior — reagiram; e comunicar que Portugal manteria Angola informada dos desenvolvimentos e conclusões dos inquéritos em curso em Portugal”, disseram.

Só havia um pequeno problema semântico: o que queria dizer a expressão “lamentar a ocorrência daquele incidente”? Queria dizer, como Manuel Augusto entendera, que o Governo português tinha mesmo pedido desculpas ao Governo angolano? Um esclarecimento (e um passo atrás): “O ministro dos Negócios Estrangeiros português não pediu desculpas pelo comportamento da polícia portuguesa. Disse, isso sim, que os resultados dos inquéritos em curso seriam comunicados às autoridades angolanas, logo que disponíveis”. Um pequeno irritante no pico da montanha, a que Marcelo não poderá fugir assim que aterrar em Luanda.

Parabéns a você, nesta data querida

Mas se Angola está em festa, a visita de Estado não podia começar sem uma. E não é só a de Carnaval. Marcelo Rebelo de Sousa chega esta terça-feira à tarde a Luanda, apesar de a visita só começar oficialmente na quarta-feira, para poder comparecer ao jantar de aniversário do homólogo angolano. João Lourenço faz 65 anos, e na entrevista à RTP, confirmou que “na política não há acasos” e que a ideia foi “juntar o útil ao agradável”, brincando inclusive com a “diferença de idades” entre os dois presidentes — numa alusão provocatória ao facto de ser mais novo do que Marcelo (que tem 70 anos).

Certo é que, já quando esteve em Lisboa, João Lourenço tinha dito que “Os amigos querem-se juntos e devem visitar-se mutuamente”, sublinhando que “alguma coisa terá falhado nesta busca de alimentar a amizade de dois países”, já que há nove anos que um chefe de Estado de Angola não visitava Portugal. Agora, as coisas estão a mudar, e prova é não só a visita oficial, mas sobretudo a visita oficiosa, bem a tempo de soprar as velas.

Marcelo em Angola. Uma aula, uma visita a Benguela e dois aniversários

E se a chegada antecipada de Marcelo para comemorar o aniversário de João Lourenço não foi nenhum “acaso”, o mesmo acontece com a celebração do aniversário dos três anos de Presidência de Marcelo, que vai ser assinalada em Luanda. “Foi uma opção intencional minha e foi possível conjugar o programa”, disse o chefe de Estado à agência Lusa, que o questionou sobre o significado de celebrar esse terceiro aniversário em Angola. Nessa tarde do dia 9 de março, sábado, Marcelo terá um encontro com membros da comunidade portuguesa em Angola, onde, segundo dados consulares de 2017, estão registados 135 mil cidadãos, a maioria com dupla nacionalidade. Vai ser a primeira vez que passa o aniversário do mandato com as comunidades portuguesas no estrangeiro — e Marcelo faz questão de sublinhar o gesto.

A visita acontece, precisamente, entre feriados. Ora do Carnaval, esta terça-feira, ora do dia internacional da mulher, na sexta-feira. Alguns portugueses terão aproveitado a ponte para rumar a Lisboa, mas tudo está a postos para receber o Presidente. Em declarações à Lusa, o politólogo angolano, Olívio Kilumbo, confirmou as elevadas expectativas, muito por causa da personalidade “diferente” do Chefe de Estado português: Marcelo Rebelo de Sousa “é uma figura incontornável, figura da liderança do século XXI, que são lideranças pragmáticas, menos formais do ponto de vista do contacto com as pessoas. Tem-se verificado que, mesmo na imprensa portuguesa, Marcelo é um ‘showman’ do ponto de vista da política. São políticos modernos que estão acima dos entraves que os formalismos das presidências exigem”, disse.

Ou seja, continuou, “é normal” que o “Ti Celito” seja popular em Angola, sobretudo devido à forma muito incomum de relacionar-se com as pessoas, os abraços, as “selfies” feitas em Luanda em setembro de 2017, durante a tomada de posse de João Lourenço. Agora o cenário já está montado, e está tudo preparado para o take 2. O carnaval Marcelo está prestes a chegar a Luanda.