A manhã de quinta-feira não fazia prever grandes movimentações mas os jornais desportivos espanhóis acabaram por dar o toque de alarme quando, ao final da manhã, começaram a abrir liveblogs do Real Madrid. Santiago Solari deu o treino em Valdebebas de forma normal. Vinicius e Lucas Vázquez não marcaram presença por estarem lesionados, Gareth Bale, Reguilón e Keylor Navas fizeram trabalho específico de recuperação no ginásio, Marcos Llorente voltou aos trabalhos no relvado com os restantes companheiros. Até aqui, tudo normal. Mas era nas instalações do Santiago Bernabéu que tudo se estava a passar.

Com Emilio Butrageño, antiga glória do clube e atual diretor das Relações Externas, encarregado de tentar convencer Zinedine Zidane a regressar aos merengues (quase com um cheque em branco para revolucionar o plantel), o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, esteve reunido com José Ángel Sánchez, diretor geral dos blancos, para abordar a atual situação do futebol. E a ideia que estava em cima da mesa desde início era muito clara e passava pela saída imediata de Solari, que falhou todas as metas da temporada em pouco mais de uma semana. Ao final da noite, como explica a Marca, o argentino manteve-se no cargo e fará a próxima partida para a Liga, fora, com o Valladolid; a partir daí, pode abandonar o comando a qualquer momento.

Antes, uma notícia do As tinha marcado o dia, com a discussão acesa entre o líder do Real e o capitão de equipa, Sergio Ramos, no final da derrota caseira com o Ajax, a circular rapidamente entre vários órgãos internacionais. Em termos públicos, não houve qualquer reação dos merengues a isso. E Florentino Pérez, que à noite se deslocou ao WiZink Center para assistir ao encontro de basquetebol da EuroLiga (o equivalente à Champions) frente ao Fenerbahçe, também evitou comentários nesta fase. Para já, o grande problema é a alternativa a Solari, caso haja mais algum deslize na Liga; a partir daí, seja com Zidane, Mourinho ou um outro nome qualquer a assumir o comando técnico, existe todo um novo projeto a construir.

Ainda assim, o conceito de no news, good news não se aplica propriamente a Florentino Pérez e ao futuro na liderança do clube, naquela que foi a sétima temporada como presidente em que não conquistou qualquer título nacional ou europeu. E, de acordo com o El Confidencial, já existe um grupo de sócios “com importante património e contas sãs” no interior dos merengues a estudarem os primeiros passos para desafiarem a atual Direção. Facilidades, essas, não existem. Até pelas mudanças estatutárias que foram introduzidas no Real, num caso que se arrastou até ao “sim” do Supremo Tribunal de Espanha durante mais de três anos, depois de uma ação interposta por um grupo de 15 associados do clube.

A partir dessa decisão, tomada há cerca de um ano, uma pessoa que queira ser candidata à presidência do Real Madrid tem de cumprir dois requisitos: 20 anos de associado com idade para ser elegível (um aumento face ao que existia anteriormente) e uma garantia de 15% do orçamento com património pessoal. Ou seja, e olhando para os números do presente numerário, qualquer possível figura que surgisse precisava de 112 milhões de euros de “garantia”. Só para ser candidato num sufrágio eleitoral, existe ainda a necessidade de entrar com mais de um milhão de euros (1% do orçamento). Valores proibitivos que, na altura, foram justificados por Florentino como a única forma de garantir que o clube nunca caía nas mãos de um milionário.

Desde 2004, quando ganhou a Lorenzo Sanz nas eleições que marcaram o seu regresso ao Santiago Bernabéu, Florentino nunca teve sequer adversário nos sufrágios de 2009, 2013 e 2017. Em paralelo, e desporto à parte, este é um momento especial para o clube, que prepara o arranque das obras de remodelação no estádio que custarão 525 milhões de euros. Caso não existam eleições antecipadas, o próximo sufrágio vai acontecer apenas daqui a três anos, em 2021, quando o atual líder tiver 72 anos. E só mesmo alguém com o perfil do Florentino Pérez poderá chegar-se à frente para tirar Florentino Pérez do poder.