Pode não jogar por não estar bem fisicamente. Por não ter o melhor enquadramento tático no coletivo. Por não trabalhar como deveria nos treinos. No limite, por estar “de castigo”, depois de um par de reações menos católicas ao sair do banco ou durante uma substituição. Uma coisa é certa e poucos têm dúvidas sobre isso: Isco é uma das maiores mais valias do atual plantel do Real Madrid. Durante os últimos anos, mesmo sendo uma espécie de 12.º jogador da equipa, esteve sempre “ligado”; agora, ao ver que nem iria entrar nos 18 para a receção ao Ajax, entrou no carro de um desconhecido, como explica a Marca, e foi-se embora da concentração em Valdebebas, não seguindo no autocarro dos eleitos rumo ao Bernabéu ao contrário de Mariano.

Não foi por causa disso que os merengues sofreram uma das derrotas mais pesadas e humilhantes de sempre em casa na Europa. E dificilmente o rumo do encontro frente aos holandeses seria muito diferente com o internacional espanhol a jogar ao melhor nível. No entanto, este é mais um pequeno episódio que surge como exemplo paradigmático de uma temporada errática, que está a deixar marcas no clube e em termos desportivos – afinal, chegamos ao início de março e o Real já não tem objetivos para lutar na presente época. Por tudo isso, e até pela notória pressão que começa a sentir por parte da aficción e que já vem desde a saída de Ronaldo/entrada de Lopetegui, Florentino Pérez prepara uma autêntica revolução. Ou, pelo menos, tentará preparar.

O ABC desta quarta-feira foca-se nos pormenores que passaram ao lado das câmaras durante os 90 minutos para explicar o estado de ansiedade de uma equipa à beira do colapso. Uma bola dividida pouco depois do primeiro golo de Ziyech entre Kroos e Modric que mostrou como o alemão tinha entrado em curto-circuito após o erro que permitiu o 1-0, os braços abertos e gritos de Courtois com os companheiros após o 2-0 de David Neres, uma discussão de Benzema (na noite passada capitão) com Reguilón num lance onde queria um cruzamento ao segundo poste, a atitude de Bale. Das bolas ao poste (e foram duas, ainda na primeira parte, em momentos que poderiam ter virado o encontro) às lesões (Lucas Vázquez e Vinicius, ainda antes do intervalo), o Real Madrid entrou numa lei de Murphy onde tudo o que podia correr mal, correu ainda pior. E agora?

A escolha do treinador, a base para explicar tudo o resto

A demissão de Álvaro Benito, treinador ligado há alguns anos ao clube que saiu do comando da equipa de juvenis por ter feito críticas a Sergio Ramos, Kroos e Casemiro após a derrota por 3-0 com o Barcelona para a Taça do Rei, passou na semana passada mais ou menos despercebida mas deverá ser puxada para a conversa por outro ponto que daí resultou: a aposta no antigo goleador Raúl González, um dos jogadores mais emblemáticos de sempre do clube. O ex-número 7, que até começou com um triunfo volumoso entre elogios à postura que teve com um jogador adversário, começou a ser visto como uma possibilidade para assumir, a partir da próxima época, o comando do plantel sénior. Todavia, depois do que aconteceu com Solari, a opção que seria a melhor em termos de “proteção” para Florentino deverá ser outra. E voltam a surgir duas correntes possíveis: o regresso de José Mourinho, numa ótica de “disciplinar” um balneário onde o argentino parece ter pouca mão, ou a aposta num técnico europeu com currículo para apresentar, surgindo agora entre as opções Massimiliano Allegri, Jürgen Klopp, Pocchetino e Löw. Certo é que, depois de Lopetegui e consequente substituição, a margem de erro para a escolha do novo timoneiro é a base de tudo o resto.

Uma “limpeza” no  balneário. Mas quem são os próximos galácticos?

Segundo o As, Florentino Pérez reuniu logo após a derrota com o Ajax o seu gabinete de crise até às duas da manhã. Solari, que até chegou a ser pensado como opção de futuro, tem contrato até 2021 e vai sair. Nomes de sucessores, há muitos. No entanto, a Marca recupera uma frase deixada aquando do despedimento de Julen Lopetegui para destacar mais uma das incongruências em que o líder dos merengues arrisca cair: “A Direção entende que existe uma grande desproporção entre a qualidade do plantel do Real Madrid, que conta com oito jogadores nomeados para a próxima Bola de Ouro, algo sem precedentes na história do clube, e os resultados obtidos até ao momento”. Dos oito, pelo menos três estão de saída.

Essa frase era uma espécie de “dois em um”: justificar a saída do antigo selecionador espanhol e, mais uma vez, passar ao lado da grande figura do clube na última década que tinha saído por 100 milhões de euros para a Juventus, Cristiano Ronaldo. Todavia, terá um revés no próximo verão. Marcelo estará de saída tendo os campeões italianos como destino provável, Isco e Bale também já perceberam que o fim de linha está perto, e ainda existem outros casos de opções fulcrais para conquista do tricampeonato europeu como Kroos ou Casemiro. Indo ao limite, até o próprio capitão Sergio Ramos já foi mais indiscutível.

Quem pode entrar? A determinada altura, o Real parecia começar a querer montar uma nova base assente nos jogadores mais jovens mas, na verdade, apenas dois acabaram por vingar: Reguilón e Vinicius. Odriozola, por exemplo, continua de fora. Marcos Llorente e Ceballos tiveram uma grande entrada mas deixaram de ser opção. Brahim Díaz foi contratado ao Manchester City para jogar um par de minutos. Asensio raramente é titular. Lucas Vázquez conseguiu assentar no onze mas lesionou-se agora frente ao Ajax. Por um lado, o conjunto de Madrid quer renovar-se; por outro, entende que precisa de galácticos para continuar a ganhar no campeonato das receitas. Hazard tem sido um nome falado, Neymar é um objetivo de Florentino desde que saiu do Barcelona. Mais do que estrelas mais ou menos conhecidas, é o novo paradigma de plantel que ditará tudo o resto.

O que levou a uma queda a pique depois das três vitórias europeias seguidas?

Zidane é hoje tido como um “visionário” que, antes da derrocada, percebeu que o caminho iria mudar e decidiu colocar fim à ligação com o clube por entender que não conseguiria ter o mesmo sucesso alcançado até esse momento. E também Cristiano Ronaldo surge como outra figura que ajuda a explicar o início da queda, com uma saída que rendeu 100 milhões de euros mas teve um custo bem mais elevado. A isso acresce a escolha para o comando técnico – pelo nome e pela forma como tudo aconteceu, levando mesmo a que Lopetegui fosse despedido da seleção espanhola em vésperas de início de Mundial. No entanto, há mais razões desportivas que ajudam a explicar o fracasso, com um denominador comum: “fim de ciclo mal preparado”.

Modric até conseguiu quebrar a hegemonia do português e de Messi na Bola de Ouro mas está, de forma indireta, ligado a um dos maiores problemas que Solari tem de resolver até ao final da época (se não sair antes): o meio-campo. Kroos é o melhor exemplo de como o rendimento de um jogador porque cair a pique de uma temporada para outra, Casemiro também já viveu melhores dias – apesar de ter marcado alguns golos recentemente, o que nem é habitual, chegou a andar pelo banco – e o croata, um dos mais inconformados da equipa, não consegue desequilibrar sozinho – como Ronaldo muitas vezes conseguia, em jogos de menor inspiração no conjunto merengue quando Zizou era o treinador. Com o motor central gripado, todo o carro foi abaixo. Atrás porque há muito que o Real não sofria tantos golos, à frente porque há muito que o Real não marcava tão poucos golos.

Depois, existe ainda um problema geracional: a base da equipa tricampeã europeia, à exceção de Ronaldo, ficou toda, surgiu uma nova vaga a reclamar também o seu lugar mas no meio ficou um hiato de continuidade que conduziu à falta de rede perante o insucesso, até pela cada vez menor influência de jogadores que eram tidos como os líderes do balneário, como Marcelo.